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Em artigo publicado ontem neste jornal, o colunista Carlos Ramalhete afirma, entre outras coisas, que seria mais vantajoso para uma criança morar em um "medonho sistema de abrigos para órfãos" (são suas palavras) que em uma casa com dois pais homens. É impressionante como, em um mundo onde cada vez mais se luta por direitos iguais, uma pessoa tenha coragem de vir a público, em forma de artigo em jornal, soltar tamanho disparate. O autor do texto afirma que o menino adotado pelos dois homens sofrerá bullying na escola. Claro, nenhuma outra criança jamais sofreu esse tipo de agressão. Crianças com famílias corretas, segundo ele, formadas por um pai e uma mãe, não sofrem bullying, devemos concluir. Este pobre menino, coitado, jamais será capaz de enfrentar o mundo sendo criado por dois pais.

Quando Carlos Ramalhete diz que é um abuso de poder do Estado "entregar" uma criança aos cuidados de um casal gay, ele está não só se valendo de conceitos retrógrados e ultrapassados, como também preconceituosos. Acreditar em tamanha insanidade e afirmar que a criança estaria melhor sem pais é incabível.

Pelo seu raciocínio, uma criança criada pelos avós, tios, ou somente por um dos pais não teria uma família. Estaria sendo criada por pessoas que tentam "desconstruir a família tradicional". O que ele chama de "família tradicional" foi desconstruída quando houve o primeiro divórcio, quando o primeiro pai saiu de casa. Comparar uma união homossexual a uma comunidade hippie é inconcebível, para não dizer hilário.

Carlos Ramalhete é professor universitário, dá aulas de Filosofia. Daí podemos tirar uma perigosa conclusão: ele é o responsável por pelo menos parte da formação dos jovens. Em uma disciplina na qual os alunos deveriam aprender a questionar o mundo, a repensar suas realidades e dogmas, Ramalhete pode estar perigosamente incitando o preconceito e... o bullying. Ao afirmar categoricamente que uma criança adotada por um casal homossexual sofrerá o mesmo preconceito que uma de nome diferente ou fora do peso, ele está não apenas afirmando, mas incentivando e esquecendo-se de um fator extremamente importante: é da natureza das crianças reagir ao diferente. Cabe a nós, adultos, ensiná-las a respeitar as diferenças. De outra forma estaríamos todos, como ele mesmo afirma, "agindo como as escolas e ensinando a rejeitar o diferente". Não muito diferente do que ele faz em seu texto.

Chamar de "absurdo patente" uma certidão de nascimento onde constem "dois barbados" como pais só justifica o bullying e reforça o preconceito. Existe, sim, ao contrário do que Ramalhete afirma, espaço nas cabeças inteligentes para as novas configurações familiares. Com certeza este menino estará muito melhor em uma casa sendo criado com amor e carinho por dois homens do que num abrigo. E o bullying que sofrer dependerá somente de quem o cerca, protegendo-o e ensinando-o como combater e enfrentar a discriminação.

Flávio St. Jayme, jornalista e empresário, é sócio-proprietário da agência Clockwork Comunicação e tem formação em Pedagogia e História da Arte.

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