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A lição de política de uma favela queniana aos EUA

Uma favela no Quênia mostra que o processo de organização comunitária serve para revelar os líderes que realmente representam suas comunidades

  • Kennedy Odede
  • The New York Times
 | Wikimedia Commons
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Muitos norte-americanos que votaram nas eleições intermediárias do início de novembro queriam mudanças. Depositaram esperanças em políticos que, segundo suas expectativas, representam os valores e a diversidade da nação, podendo, dessa forma, ajudar suas comunidades.

O resultado será um Congresso significativamente mais representativo do que os EUA são hoje. Acontece que só eleger gente nova não vai produzir a mudança sísmica necessária para melhorar as comunidades locais e a vida dos mais necessitados. A 116.ª edição da casa, incrivelmente diversa, que começa a trabalhar em janeiro, só se tornou possível graças à organização dos grupos sociais de base de todo o país. Entretanto, eles não podem parar aí. A verdadeira mudança tem de ser de baixo para cima.

Testemunhamos esse fenômeno em Flint, no Michigan, onde a liderança política não conseguiu garantir a oferta mínima de infraestrutura para os moradores pobres e negros. O resultado foi que crianças consumiram água contaminada com chumbo, e assim uma geração foi envenenada. E nem o governo estadual nem o federal fizeram nada.

Nós primeiro temos de dirigir o olhar para nossos bairros, cidades, escolas, igrejas, mesquitas e templos, para identificar os líderes que representam nossas necessidades e valores

Pelo contrário, foram os ativistas, os médicos e as próprias famílias que descobriram a contaminação e forçaram as autoridades a tomar providências, os voluntários que divulgaram as consequências do consumo da água de torneira. A opção da água engarrafada deu força à comunidade para superar a crise. Flint não está fora de perigo, mas está melhor hoje justamente porque os moradores assumiram, sozinhos, o desafio.

Vejo a mesma dinâmica onde moro: Kibera, uma das maiores favelas do Quênia. Como em Flint, seus moradores não têm acesso fácil à água potável; sem encanamento adequado, grande parte de nossa água é facilmente contaminada por doenças. Para piorar, há quem embale o líquido coletado nas proximidades e o venda como “seguro”, a preços exorbitantes, apesar da contaminação.

Em toda eleição, a comunidade sempre pôs fé nos políticos que prometiam o fornecimento de água limpa, o combate à pobreza sistêmica, à corrupção endêmica e à infinidade de problemas que castigam nossa sociedade – mas todas as vezes se decepcionou, sem ver cumpridas as promessas de campanha.

Cansada de esperar pela solução vinda dos outros, minha mãe resolveu tomar uma atitude: organizou um grupo de mulheres que se reunia toda semana com o objetivo de angariar fundos para ajudar alguém a abrir um negócio aqui, cuidar de uma criança doente ali, comprar material escolar acolá. Como a maioria era analfabeta, elas pediram que eu, com 9 anos na época, fizesse o controle financeiro da operação.

Leia também: O poder multiplicador do bem (editorial de 21 de maio de 2018)

Leia também: O que Ruanda tem a nos ensinar sobre a corrupção? (artigo de Gustavo Rafael Collere Possetti e André Francisco Alves, publicado em 9 de outubro de 2018)

Um dia, muitos anos depois, uma delas sugeriu a expansão do modelo, para torná-lo uma operação mais oficial e organizada, com um plano de ação que pudesse ser apresentado ao público e aos políticos. Vi ali uma oportunidade de reunir os desafios de vários grupos de Kibera: igrejas e mesquitas, grupos de jovens e idosos, centros comunitários, assembleias de artesãos. Criamos um movimento urbano unificado.

Organizando-nos com esses núcleos, pudemos resolver os problemas maiores, começando pela água. Criamos uma rede de tubulação de superfície que reduziu a disseminação de doenças, reduziu em 60% o custo do galão de água potável (pouco menos de 20 litros) e impediu que os cartéis locais desviassem a água para vendê-la a empresas privadas.

Assumimos outras dificuldades também. Por exemplo, a maioria do pessoal de Kibera não tem qualquer identificação oficial, ou seja, não pode tirar vantagem de muitos serviços públicos. Aos olhos do governo, essas pessoas simplesmente não existem. Muitas não sabiam como se inscrever, nem tinham meios de fazê-lo. Organizamos um mutirão para proporcionar o documento para milhares de moradores.

Leia também: Os direitos de propriedade dos sul-africanos caminham na direção errada (artigo de Patrick Farrell e Patrick Tyrrell, publicado em 14 de outubro de 2018)

Leia também: Termostato da diversidade (artigo de Flavio Gordon, publicado em 7 de janeiro de 2018)

Recentemente, esse movimento comunitário realizou as próprias eleições, não oficiais. Os líderes se organizaram e, pela primeira vez, elegeram representantes para formar um congresso unificado, com pauta própria. A intenção da liderança, com isso, era influenciar o governo e fazer com que este liberasse recursos para comunidades como a minha, criasse mecanismos de responsabilização e abordasse desafios sistêmicos como a desigualdade e os direitos de propriedade.

Os casos de Flint e Kibera servem para nos lembrar que o poder da política é o povo. O processo de organização comunitária serve para revelar os líderes que realmente representam suas comunidades e defendem a mudança, estando oficialmente na política ou não.

Muitos daqueles que causaram grande impacto nunca quiseram ser políticos – Martin Luther King, Rosa Parks, Muhammad Ali e, no Quênia, heróis como a ativista ambiental Wangari Maathai, nomes cujos legados confirmam que um cargo político não é tudo.

Nós primeiro temos de dirigir o olhar para nossos bairros, cidades, escolas, igrejas, mesquitas e templos, para identificar os líderes que representam nossas necessidades e valores. Basta empoderá-los, e os políticos farão o mesmo.

Kennedy Odede é um dos fundadores e CEO da Shining Hope for Communities, organização queniana que trabalha para reduzir a pobreza e criar mudanças sistêmicas nas favelas daquele país.
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