Notas de 100 reais. Imagem ilustrativa.| Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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De acordo com o Boletim Focus divulgado nessa segunda, 26 de julho, pelo Banco Central (BC), as expectativas de inflação para 2021 subiram pela 16.ª semana consecutiva, chegando a 6,56%. Ou seja, apesar de a inflação projetada ser bem maior que a meta de 3,75%, e também acima do limite máximo de tolerância, que neste ano é de 5,25%, o pior parece ter ficado para trás, pois a inflação acumulada em 12 meses terminados em junho de 2021 foi de 8,53%.

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Esta recuperação pós-pandemia está sendo bastante desafiadora para os bancos centrais ao redor do mundo. As medidas de distanciamento social fizeram com que tanto a demanda como a oferta agregada caíssem. Os bancos centrais diminuíram taxas de juros e os governos expandiram gastos para que as economias não caíssem em depressão. Essa recessão mundial foi diferente daquelas conhecidas dos economistas; o ritmo da contaminação, das mortes e da vacinação é que está condicionando a recuperação econômica, que ainda enfrenta incertezas com relação a novas cepas do vírus da Covid-19.

Tanto a demanda como a oferta se recuperaram de forma desigual. Há setores que estão mais aquecidos do que antes da pandemia, e outros que estão bem abaixo. Essa recuperação forte da demanda agregada mundial e uma recuperação um tanto desordenada da oferta fez com que o preço de várias commodities disparassem nos mercados mundiais, aumentando o temor de uma inflação descontrolada. Entretanto, os bancos centrais dos países avançados estão apostando que isso é uma alta temporária e os mercados de títulos da dívida desses países parece que compraram essa ideia, pois o rendimento de um título americano de 10 anos está apenas em 1,10% ao ano quando a meta de inflação lá é de 2%. Boa parte dos países da zona do euro tem títulos com rendimento nominal negativo, e até a Grécia tem rendimento nos seus títulos de 10 anos de apenas 0,64% – positivo, mas muito abaixo da meta de inflação do Banco Central Europeu, que também é de 2%. Desta forma, a inflação não é o principal risco que o mundo enfrenta no momento.

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Por outro lado, aqui no Brasil, a pressão inflacionária é maior do que nos países avançados e até na maioria dos países emergentes por conta da forte desvalorização do real ao longo da pandemia. Vários países emergentes sofreram uma forte desvalorização de suas moedas em relação ao dólar americano em março e abril de 2020. Entretanto, quando os EUA começaram a expandir a ajuda econômica à sua população e o Fed (Banco Central americano) colocou a taxa de juros entre 0% e 0,25% e expandiu suas compras de títulos de dívida (expandindo a oferta de moeda), o dólar se enfraqueceu e as moedas emergentes recuperaram boa parte da desvalorização anterior, com exceção do real brasileiro. Boa parte dos analistas coloca a culpa dessa desvalorização à queda “exagerada” da Selic para 2%. Mas meu principal suspeito foi a resposta do governo Bolsonaro à pandemia, que trouxe incertezas adicionais na trajetória da recuperação econômica, e no abandono das reformas administrativas e tributária.

É por isso que, enquanto nos EUA, zona do euro, Japão e demais países avançados as taxas de juros de curto prazo (análogas à nossa Selic) estão no mesmo patamar do início da crise, praticamente a zero, o BC precisou subir a taxa Selic de 2% para os atuais 4,25%, e espera-se que termine o ano em 7%, de acordo com o Boletim Focus. Ao contrário dos bancos centrais dos países avançados, o BC brasileiro conquistou a sua independência recentemente, ainda busca conquistar uma reputação de ser implacável com a inflação, mas ele praticamente não tem instrumentos para mudar o quadro da inflação deste ano, que deverá superar o limite máximo de tolerância da meta. O eventual aumento da Selic da próxima reunião do Copom, no início de agosto, só poderá ser sentido na economia entre seis e nove meses. É por isso que o BC hoje não mira mais a inflação desse ano, mas sim a de 2022. E ele não quer correr o risco de estourar o limite por dois anos seguidos, uma vez que a economia está crescendo a um ritmo maior que o esperado no início do ano.

Com os aumentos de 0,75 ponto porcentual na Selic nas últimas três reuniões e com a promessa de um aumento de mesma magnitude em 3 e 4 de agosto, promessa esta que consta na ata da última reunião, o Copom conseguiu até agora manter a expectativa da inflação de 2022 (3,80%) próxima da meta (3,50%). Mas essa ancoragem das expectativas ainda depende de mais três altas de 0,75 ponto porcentual e uma última alta de 0,5 ponto porcentual, fechando o ano com uma taxa Selic de 7%.

Assim como os vírus podem desenvolver novas cepas e mudar a trajetória da pandemia, na economia podem surgir novos choques (positivos ou negativos) que mudam a trajetória da inflação e do crescimento econômico. Hoje, as “cepas” mais temidas são de origem doméstica: a crise hídrica e um populismo fiscal (excesso de generosidade de auxílios emergenciais) para o governo de plantão se fortalecer para a eleição de 2022.

Josilmar Cordenonssi Cia é graduado em Economia, mestre e doutor em Administração de Empresas e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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