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Brasil está atrasado na aplicação da IA na educação básica

Com prazo de validade expirando em 1º de junho, Congresso precisa aprovar com rapidez o reajuste dos professores.
Com prazo de validade expirando em 1º de junho, Congresso precisa aprovar com rapidez o reajuste dos professores. (Foto: Gabriel Rosa/AEN-PR/Arquivo)

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A aprovação realizada pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados do projeto que inclui o estudo da inteligência artificial na educação básica deveria ser vista não como inovação, mas como uma tentativa de recuperar o tempo perdido. O debate sobre IA nas escolas já acontece há anos em países que entenderam que alfabetização digital não significa apenas saber usar tecnologia, mas compreender como ela molda comportamentos, relações sociais e consumo de informação pelos jovens.

No Brasil, porém, ainda tratamos a inteligência artificial como uma tendência distante ou uma pauta “do futuro”, quando ela já influencia diretamente a formação de milhões de crianças e adolescentes. Um exemplo disso aparece no estudo TIC Kids Online Brasil 2025, que aponta que cerca de 65% dos jovens brasileiros entre 9 e 17 anos já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa em sua rotina. Isso significa que a IA deixou de ser uma tecnologia restrita a especialistas e passou a ocupar espaço cotidiano na maneira como crianças estudam, pesquisam, se comunicam e consomem informação.

Ela está nos algoritmos das redes sociais, nas recomendações de vídeos, nas plataformas educacionais, nos filtros de informação e até na forma como jovens constroem autoestima, opinião política e percepção de mundo. A inteligência artificial já participa ativamente dos processos de aprendizagem e socialização dessa geração, mesmo quando muitas escolas ainda escolhem ignorar esse debate. E talvez esse seja o maior problema do atraso brasileiro: nossos estudantes estão aprendendo a consumir inteligência artificial antes de aprenderem a questioná-la.

Hoje, muitos jovens sabem usar ferramentas generativas para fazer trabalhos, resumir textos ou criar apresentações. Mas poucos conseguem responder perguntas básicas: quem programou essa tecnologia? Quais interesses existem por trás dos algoritmos? Como identificar desinformação produzida por IA? Quais dados pessoais estão sendo coletados? Como diferenciar automação de manipulação? Sem esse debate, corremos o risco de formar uma geração extremamente conectada, mas intelectualmente vulnerável.

O debate sobre IA nas escolas não pode cair em dois extremos igualmente perigosos: o tecnofascínio ingênuo ou o medo paralisante. Nem toda tecnologia representa progresso automático, mas rejeitar inovação também não protege estudantes do futuro

A decisão da Câmara é positiva justamente porque reconhece que inteligência artificial não pode ser tratada apenas como tema técnico. IA não pertence exclusivamente à informática. Ela atravessa ética, filosofia, sociologia, comunicação, economia e cidadania. Discutir inteligência artificial sem discutir impacto social é tão perigoso quanto ensinar alguém a dirigir sem falar sobre responsabilidade no trânsito.

Existe também uma falsa percepção de que ensinar IA significa preparar alunos apenas para o mercado de trabalho. Esse é um erro grave. Claro que compreender tecnologia será essencial profissionalmente, mas limitar esse debate à empregabilidade reduz a educação a treinamento operacional. O verdadeiro papel da escola é formar pensamento crítico. E nunca foi tão urgente desenvolver essa competência.

Vivemos uma era em que a velocidade da informação supera a capacidade de reflexão. Crianças e adolescentes recebem conteúdos personalizados o tempo inteiro, influenciados por sistemas que entendem padrões emocionais, comportamento de consumo e tempo de atenção. A disputa atual não é apenas por audiência. É por influência cognitiva.

Se a escola não ensinar jovens a interpretar criticamente os sistemas digitais, outras estruturas farão isso por ela – e nem sempre com interesses educativos. Outro ponto que precisa ser dito com clareza: inteligência artificial não substitui professor. Essa narrativa, além de simplista, revela uma compreensão extremamente limitada sobre educação.

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Tecnologia pode automatizar tarefas, organizar conteúdos e apoiar processos de aprendizagem. Mas educação não é apenas transmissão de informação. Educação envolve mediação, escuta, construção emocional, convivência, repertório humano e desenvolvimento social. Nenhuma IA compreende contextos afetivos, vulnerabilidades emocionais ou desigualdades sociais como um educador presente em sala de aula.

Aliás, quanto mais avançada a tecnologia se torna, mais valiosas ficam as habilidades exclusivamente humanas. Criatividade, empatia, comunicação, interpretação crítica e capacidade de convivência passam a ser diferenciais ainda maiores.

Por isso, o debate sobre IA nas escolas não pode cair em dois extremos igualmente perigosos: o tecnofascínio ingênuo ou o medo paralisante. Nem toda tecnologia representa progresso automático, mas rejeitar inovação também não protege estudantes do futuro. O que precisamos é de equilíbrio, regulação, responsabilidade e educação de qualidade.

E há um desafio que raramente aparece no centro da discussão: a desigualdade. Porque falar sobre inteligência artificial nas escolas brasileiras exige encarar a realidade de milhares de instituições que ainda lutam por acesso básico à internet, infraestrutura adequada e formação tecnológica de professores.

Sem investimento consistente, existe o risco de criarmos um novo abismo educacional: alunos preparados para compreender IA de um lado, e estudantes excluídos digitalmente do outro. Não basta incluir duas palavras na Base Nacional Comum Curricular e tratar o problema como resolvido. Será necessário investir em formação docente, atualização pedagógica, acesso tecnológico e, principalmente, construção ética desse debate.

A inteligência artificial provavelmente será uma das maiores forças transformadoras deste século. A pergunta é: queremos jovens apenas capazes de utilizar ferramentas ou cidadãos preparados para compreender os impactos humanos, sociais e políticos dessas tecnologias?

Bruna Tadross é fundadora da Changemaker.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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