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Poucas pessoas terminam a leitura de A Riqueza das Nações com clareza sobre o que Adam Smith quis dizer com o interesse próprio movendo o mercado. Praticamente todo mundo, porém, entende de imediato por que o Tio Patinhas mergulha em sua piscina de moedas todos os dias. A cena do quadrinho é boba, exagerada, feita para crianças e, ainda assim, comunica em três segundos algo que um parágrafo de teoria econômica leva páginas para estabelecer: a lógica da acumulação como fim em si mesma.
Um projeto de iniciação científica da FAE Centro Universitário, o HQnomia, financiado pelo Programa de Apoio à Iniciação Científica (PAIC 2025/2026) e conduzido por uma equipe de três alunos – uma pesquisadora de Relações Internacionais e dois de Economia –, vem testando uma hipótese sobre esse fenômeno: os quadrinhos, justamente por simplificarem, revelam estruturas que a linguagem acadêmica, ao tentar ser precisa, muitas vezes acaba enterrando sob jargão. A composição da equipe não é acidental para o argumento. Ela reflete uma constatação central da pesquisa: esse mecanismo de simplificação funciona em pelo menos duas escalas distintas, a do indivíduo e a da nação.
No nível do indivíduo e da firma, o mecanismo aparece com clareza no caso de Lex Luthor. Um manual de economia explica a concentração de capital com gráficos de participação de mercado, e o leitor esquece a explicação assim que fecha o livro. A LexCorp, dominando praticamente toda a infraestrutura de Metrópolis enquanto seu dono cultiva influência política, comunica a mesma ideia sem uma única equação: poder econômico demais, sem controle institucional suficiente, vira poder político. O leitor não precisa saber o nome do conceito para reconhecer o padrão.
Se um quadrinho consegue explicar em um quadro o que um parágrafo acadêmico não consegue explicar em dez, seja sobre o comportamento de um bilionário, seja sobre a projeção internacional de uma nação, talvez o problema nunca tenha sido a complexidade das ideias, mas a forma como insistimos em comunicá-las
O mesmo mecanismo, porém, opera também no nível da nação, e é aí que o segundo eixo da pesquisa se torna interessante. Em 1941, em plena mobilização para a Segunda Guerra, nasceu a Mulher-Maravilha, personagem dos quadrinhos construída para corporificar a democracia, a liberdade e um modelo de sociedade que os Estados Unidos queriam ver reconhecido no mundo.
O cientista político Joseph Nye chamaria isso, décadas depois, de soft power: a capacidade de um país influenciar não pela força, mas pela atração que seus valores exercem sobre outros povos. Uma super-heroína que resume, em um único figurino, aquilo que um tratado de relações internacionais levaria capítulos para descrever é, também aqui, um exercício de simplificação que revela estruturas em vez de escondê-las.
O que torna esse mecanismo particularmente instrutivo é que ele não serve apenas para consolidar narrativas dominantes. Décadas depois da Mulher-Maravilha, Wakanda surgiu como o inverso do enredo esperado para uma nação africana nas histórias em quadrinhos: soberana, tecnologicamente avançada, nunca colonizada. Wakanda usa exatamente o mesmo mecanismo de simplificação simbólica que projetou os valores americanos ao redor do mundo, só que na direção oposta, contestando o estereótipo de dependência frequentemente atribuído a países periféricos.
O soft power, mostram esses dois exemplos lado a lado, não é uma ferramenta exclusiva de quem já detém poder. É um jogo de duas mãos, e os quadrinhos, por operarem inteiramente em símbolos, tornam esse jogo visível de um jeito que a análise de discurso tradicional raramente consegue.
É importante dizer com todas as letras que nenhum desses exemplos substitui a teoria. Um leitor que só conhece Wakanda não entende a teoria da dependência, assim como quem só conhece Lex Luthor não entende economia industrial. O que os quadrinhos oferecem não é um atalho para o conhecimento, mas uma porta de entrada, um primeiro reconhecimento de padrões que, levado a sério, pode ser aprofundado depois com o rigor que o estudo sistemático exige.
Talvez a lição mais importante não seja sobre quadrinhos, e sim sobre nós. Se um quadrinho consegue explicar em um quadro o que um parágrafo acadêmico não consegue explicar em dez, seja sobre o comportamento de um bilionário, seja sobre a projeção internacional de uma nação, talvez o problema nunca tenha sido a complexidade das ideias, mas a forma como insistimos em comunicá-las. Antes de descartar um gibi como entretenimento infantil, vale perguntar o que ele está, na verdade, tentando nos ensinar sobre o mercado e sobre o mundo.
Laura Cauduro é estudante de Relações Internacionais e bolsista do Programa de Apoio à Iniciação Científica (PAIC 2025/2026); Luiz Henrique Antonelli é estudante de Ciências Econômicas e voluntário do PAIC 2025/2026; Débora Cristina Pires é estudante de Ciências Econômicas e voluntária do PAIC 2025/2026; Hugo Eduardo Meza Pinto, doutor em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo, e José Aparecido Carlos Ribeiro, orientador convidado da pesquisa, economista e técnico em Planejamento e Pesquisa do Ipea, são orientadores do projeto HQnomia na FAE Centro Universitário.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



