Imagem ilustrativa.| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo
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Não há dúvidas de que o sistema de produção capitalista foi o mais efetivo modelo de produção capaz de diminuir a pobreza na história da humanidade. O sucesso deste projeto econômico e social iniciou-se no final do mercantilismo e se disseminou pelo planeta com a Revolução Industrial. Apoiado por bases jurídicas e sociais do sistema democrático, do Estado de Direito, da propriedade privada e das Cartas Magnas, criaram-se, principalmente no Ocidente, as condições para a expansão desse sistema como modo homogêneo de transação de bens, mercadorias, serviços e riqueza.

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Após o fim da União Soviética e a queda do Muro de Berlin, o capitalismo se consolidou em praticamente todos os continentes, com exceção de algumas nações que não têm considerável relevância em nível mundial. Até mesmo a China, uma nação autoritária, tem no capitalismo seu modelo de produção, considerado por muitos o mais radical entre todos.

Com o capitalismo, vieram a abertura dos mercados e a globalização, a capacidade de produção de bens e serviços com insumos oriundos de diversos países sendo transportados em tempo real, conectando pessoas, empresas e projetos da América até a Ásia.

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Como em todos os projetos, pode haver problemas que, no passado, foram quase fatais para o sistema capitalista, como ocorreu a partir da Crise da Bolsa de 1929, das duas guerras mundiais, da crise de 2009 e, mais recentemente, a partir do que estamos vivendo, a pandemia causada pela Covid-19. Todas essas crises tiveram fontes diferentes e foram superadas com soluções muito distintas. O que todas têm em comum é que, após terem sido debeladas as crises, elas deixaram uma marca indelével que veio constantemente crescendo, a marca da desigualdade social.

A utilização da tecnologia foi outro fator que definitivamente aumentou a produtividade das empresas e expandiu a capacidade de o capitalismo ofertar bens e serviços em um nível mundial, mas por outro lado tornou menos importante a base menos escolarizada dos trabalhadores. A propriedade da riqueza (ações, títulos, propriedades, empresas) entre as famílias nos Estados Unidos tornou-se cada vez mais e mais concentrada desde os anos 1980, quando os 10% mais ricos controlavam 68% da riqueza total; já em 2007, o porcentual passou para 73% e, em 2017, para 81%.

Mas o que é desigualdade? Segundo o Fundo Monetário Internacional, a desigualdade pode ser vista de diferentes perspectivas, porém todas estão relacionadas entre si. A medição comumente utilizada é a desigualdade de renda, que se refere à extensão em que a renda é distribuída uniformemente dentro de uma população. Trata-se de conceitos relacionados relativos à desigualdade que existe ao longo da vida (desigualdade de renda para um indivíduo ao longo de sua vida), desigualdade de riqueza (distribuição de riqueza entre famílias ou indivíduos em um período no tempo) e desigualdade de oportunidade (impacto na renda das circunstâncias sobre as quais os indivíduos não têm controle, como situação socioeconômica familiar, de gênero ou de origem étnica).

Todos esses conceitos de desigualdade estão relacionados entre si e oferecem percepções diferentes, embora complementares, sobre as causas e as consequências da desigualdade, fornecendo assim uma melhor orientação aos governos ao projetar políticas específicas destinadas a abordar o tema para decisões mais acertadas.

Esse fenômeno é muito mais nítido em países como o Brasil, onde as políticas públicas de combate à pobreza e à desigualdade existem e já deram muitos fundos, mas são pouco avaliadas sob o ponto de vista de eficiência, gerando despesas públicas que são ineficazes, o que agrava ainda mais o problema.

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A desigualdade é algo que vem sendo considerado um problema do capitalismo para a esquerda há muito tempo, e muitas vezes isso vem sendo usado como mote para criticar o capitalismo, considerando-o um modelo ineficiente. Nesse ponto, a esquerda está errada! A desigualdade existe e é hoje o maior problema do capitalismo moderno, realmente colocando uma lupa sobre o sistema, mas não é o fim desse exitoso projeto. Ao longo dos últimos 300 anos, o capitalismo teve outros problemas e viveu momentos de crítica tão sérios quanto esses, mas a capacidade de o sistema se adaptar e criar soluções que eliminem ou minimizem esses problemas é, talvez, a principal característica do capitalismo, pois, tal qual um ser vivo, ele se adapta para manter sua própria sobrevivência e sua reprodução.

Entretanto, ele não o faz sozinho. Para isso, o capitalismo conta com acadêmicos, empresários, economistas, estudiosos, políticos e parte da sociedade que compreende que o sistema não é perfeito, mas vem diminuindo a pobreza total em todo o planeta e por isso vale a pena defendê-lo; o problema da desigualdade tem de ser tratado hoje para evitar que ela, a desigualdade, se transforme em um problema social crônico e de governabilidade, ameaçando inclusive a democracia.

Igor Macedo de Lucena, economista e empresário, é doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, membro da Chatham House – The Royal Institute of International Affairs e da Associação Portuguesa de Ciência Política.