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Estão comendo o mundo pelas beiradas
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“Estão comendo o mundo pelas beiradas, roendo tudo, quase não sobra nada” – este é o início da canção Sonho, de autoria da banda Nação Zumbi. A composição foi inspirada no filme Blade Runner – O Caçador de Androides, de 1982, dirigido por Ridley Scott. A menção a “comer o mundo pelas beiradas” nos leva a refletir sobre o consumismo, a produção de alimentos e a transformação de áreas naturais em áreas agricultáveis, as quais impactam direta ou indiretamente a saúde humana, ambiental e promovem alterações na dinâmica da natureza.

O filme, lançado em 1982 e hoje um clássico do cinema futurista neo noir, retrata Los Angeles em 2019. Num contexto decadente, a cidade está imersa em poluição e consumo exacerbado. O cenário do futuro, no qual agora nos encontramos, se parece em parte com a proposta do diretor; o impacto do consumismo, da poluição e da tecnologia é uma realidade da qual não podemos nos abster. Ao colocar as mudanças climáticas no centro das discussões atuais, podemos levantar diversos fatores que impactam diretamente as alterações climáticas como o desmatamento, a extração mineral, a produção agropecuária e o uso irrestrito de combustíveis fósseis.

Anualmente, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o mundo produz 3,8 bilhões de toneladas de alimentos e, destas, algo em torno de 1 tonelada é jogada fora. De acordo com aGlobal Footprint Network, a demanda alimentar representa 28% da pegada ecológica global e o desperdício, 9%. Em um mundo com uma população crescente e que se alimenta de maior quantidade de calorias do que o requerido, somaremos, em 2025, quase 2,3 bilhões de adultos acima do peso, sendo que, destes, cerca de 700 milhões de indivíduos serão obesos.

Enquanto alguns se alimentam e desperdiçam em demasia, 811 milhões de pessoas enfrentaram a fome em 2020. Falar da produção de alimentos e de seu consumo e desperdício nos permite dialogar com diferentes esferas: cultural, ambiental, econômica, política e social.

Ao passo que a população humana aumenta em número e peso, um estudo publicado em 2021 e realizado ao longo dos últimos 40 anos com aves de florestas intocadas da Amazônia Central revelou que 77 espécies de aves estão tendo a sua estrutura corporal alterada. Enquanto alguns pássaros aumentaram o comprimento das asas, outros perderam cerca de 2% de seu peso por década. De acordo com os cientistas, essas alterações genéticas e estruturais são uma adequação às mudanças climáticas, sendo que as asas mais longas em corpos mais leves significam economia de energia em tempos de recursos escassos.

Esse pequeno retrato das condições contraditórias existentes em nossa sociedade serve de reflexão para pensarmos sobre o consumo. O que de fato precisamos para viver? O que podemos fazer para minimizar essas disparidades? Qual futuro esperamos para a vida na Terra? A música citada trata de um sonho dentro de um sonho, como tinham os replicantes (clones humanos) do filme Blade Runner. O que sonhamos para o futuro? Os compositores finalizam com a estrofe “hoje de manhã eu acordei sem imagem e sem som”. Vamos esperar até quando para nos responsabilizarmos pela vida e agir em consonância com ela? Até acordar sem imagem e sem som?

Larissa Warnavin é doutora em Geografia e docente da área de Geociências do Centro Universitário Internacional Uninter. Nicole Witt é bióloga, especialista em Educação, Meio Ambiente e Desenvolvimento, e docente da área de Geociências do Centro Universitário Internacional Uninter.

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