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Escala 24×7 é tendência global, mas não para humanos

No restante do mundo a automação virou uma ferramenta para suprir uma mão de obra cada vez mais escassa. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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No fim de 2024, o Senado aprovou o marco regulatório da IA, o PL 2338, que agora tramita na Câmara, com expectativa de votação final em 2026. É um texto com muitos problemas, que burocratiza um setor em franco crescimento e prevê multas de até R$ 50 milhões por infração. Resultado: muitas empresas já engavetaram projetos apenas pelo risco regulatório de algo que nem sequer virou lei.

No mesmo período, avançou no Congresso a discussão sobre o fim da escala 6x1, um debate naturalmente inevitável, pois mexe com o bolso de quem paga salários e de quem trabalha. Trata-se de uma discussão justa e pertinente.

Mas, enquanto discutimos como distribuir as horas humanas de trabalho, o mundo passa por uma transformação abrupta. Confesso que não gosto de atendimento 100% autônomo, e, no Brasil, isso tem regras rígidas. No restante do mundo, porém, a automação virou uma ferramenta para suprir uma mão de obra cada vez mais escassa.

A mão de obra humana é nobre, mas já está mais cara do que a mão de obra baseada em tecnologia. O mundo está evoluindo de forma acelerada, e gestores e políticos terão a oportunidade de moldar o futuro sem sacrificar a viabilidade econômica das coisas

E é aí que mora, a meu ver, o grande gap: temos um governo com dificuldades orçamentárias crescentes, sem dinheiro para contratar servidores, mesmo havendo demanda. E o serviço público não pode parar. Uma das grandes tendências nas cidades deveria ser a automatização de serviços públicos, com otimização de processos e aceleração de projetos.

Nas empresas tradicionais que penam para encontrar mão de obra braçal, como as indústrias, o futuro está cristalino: robôs. E é sobre isso que o mundo está começando a entender. O modelo de trabalho que vem aí não é 6x1, 5x2 nem 4x3. É 24x7.

O impacto é profundo. Na China, o conceito ganhou até nome: dark factories, as fábricas escuras, que operam sem humanos e, portanto, sem precisar acender as luzes. A fábrica da Xiaomi, em Changping, produz um smartphone por segundo, 10 milhões por ano, com zero pessoas no chão de fábrica. A mão de obra humana ficou a cargo de funções específicas de gestão, supervisão e manutenção.

O conceito nasceu no Japão, com a Fanuc, nos anos 2000, mas foi a China que o transformou em política industrial. Nos Estados Unidos, empresas como a Tesla apostam no próximo capítulo dessa corrida, com planos de colocar milhares de robôs humanoides Optimus em suas Gigafactories para escalar a produção de forma exponencial na mesma planta.

Viajo o mundo e posso afirmar: esse impacto da IA já chegou à medicina e à agricultura. Em visita recente à China, testemunhei uma ampla gama de soluções médicas que automatizam monitoramento, diagnósticos e até cirurgias a um custo muito inferior ao do trabalho humano. Na agricultura, a John Deere já opera tratores e máquinas totalmente autônomos em fazendas nos Estados Unidos, do preparo do solo à pulverização, controlados por IA, com a meta de automatizar o ciclo completo da lavoura até 2030. O futuro é agora, e essa mudança não tem volta.

Por fim, meu receio em relação às mudanças na nossa legislação sobre IA é deixar o país menos competitivo e menos atraente para investidores. A mão de obra humana é nobre, mas já está mais cara do que a mão de obra baseada em tecnologia. O mundo está evoluindo de forma acelerada, e gestores e políticos terão a oportunidade de moldar o futuro sem sacrificar a viabilidade econômica das coisas. Que tenhamos bons ventos de inovação no Brasil. Essa é a minha torcida e a minha luta.

Nichollas Marshell é CEO da Ideas Hub, embaixador de inovação do Paraná e especialista em IA e inovação.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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