Primeiro-ministro Boris Johnson na entrada do número 10 da Downing Street.| Foto: Daniel Leal-Olivas/AFP
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O Reino Unido e o Brasil têm amplos laços históricos em comércio e investimento, que datam de mais de 200 anos. O Reino Unido foi o maior parceiro econômico do Brasil por muitos anos durante os séculos 19 e 20. Até a Primeira Guerra Mundial, os investidores britânicos forneciam mais capital ao Brasil, em empréstimos governamentais e investimentos diretos em ferrovias, agricultura e utilities, do que qualquer outra nação.

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Os bancos comerciais e de investimento britânicos foram especialmente proeminentes no Brasil, e a Ferrovia São Paulo, uma companhia ferroviária britânica privada, foi uma das principais rotas de infraestrutura do país. O Reino Unido, portanto, desempenhou um papel fundamental no financiamento da industrialização do país. Segundo o economista Marcelo Abreu, da UFRJ, até a década de 1890 praticamente todo o investimento estrangeiro no Brasil era britânico e cerca de 50% das importações do país eram do Reino Unido.

Desde então, essas relações econômicas têm, de fato, retrocedido, relativamente falando. No entanto, houve sinais claros de um renascimento nos interesses bilaterais comerciais, financeiros e políticos nos últimos anos. Parafraseando Thomas Jefferson, podemos, portanto, focar nos sonhos e planos do futuro, e não apenas na história do passado. Afinal, a vida pode ser entendida para trás, mas deve ser vivida adiante.

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Então, onde estamos agora? E para onde vamos?

O comércio bilateral total – importações mais exportações – somou
5,9 bilhões de libras em 2018. Em um período de 15 anos entre 2003 e 2018, o comércio total entre o Reino Unido e o Brasil dobrou. Nos três anos desde o referendo do Brexit as exportações britânicas para o Brasil cresceram perto de 40%. Após vários anos de declínio, os números voltam a apontar para o norte. No Paraná, o comércio total de bens industriais com o Reino Unido somou mais de US$ 1 bilhão desde 2017. De acordo com Eduardo Ribas, da Fiep, que rastreia esses dados, em 2019 o Reino Unido foi o quarto principal destino europeu para exportações paranaenses (perdendo apenas para Holanda, Alemanha e França), duas posições a mais que no acumulado de 2015 a 2019; ou seja, o Reino Unido está crescendo como um parceiro comercial do estado. Esperemos que, neste caso, os fortes laços históricos pareçam se repetir, ou pelo menos rimar muito bem como diz o ditado.

Segundo dados do Banco Central, o Brasil recebeu US$ 735,8 bilhões em investimentos diretos entre 2001 e 2018. Os maiores investidores nesse período vieram da Holanda e dos Estados Unidos, com US$ 138 bilhões e US$ 117 bilhões, respectivamente. O Reino Unido investiu US$ 22 bilhões; estando entre os cinco principais investidores dos maiores países europeus, mas o valor não parece tão significativo, certo? No entanto, se incluirmos o Reino Unido e seus territórios ultramarinos, como Ilhas Virgens Britânicas, Bermudas e Ilhas Cayman, o total de investimentos denominados britânicos no Brasil foi de US$ 72,6 bilhões, uma média de US$ 4 bilhões por ano. O Reino Unido e seus territórios no exterior são, portanto, o terceiro maior país de origem de investimento, o que representa 10% do IED geral no Brasil. Segundo o Escritório Britânico de Estatísticas Nacionais, o Reino Unido tinha 37 bilhões de libras esterlinas em ativos investidos no Brasil em 2017, ano dos dados mais recentes.

Além disso, nos últimos 15 anos, houve um amplo investimento britânico no Brasil. De acordo com um estudo inovador dos consultores financeiros Redirection, entre 2005 e 2019 houve 239 fusões e aquisições e transações de investimento no mercado público de capitais no Brasil a partir do Reino Unido, que totalizaram US$ 36,6 bilhões. Os setores mais populares para investimento britânico foram serviços de negócios, tecnologia e bens de consumo, com 29%, 12% e 12% do total, respectivamente. O volume total de transações britânicas cresceu 23% entre 2005 e 2019 e o número de transações, em 15%.

O conglomerado de petróleo anglo-holandês Shell é um dos maiores investidores estrangeiros no Brasil. A icônica marca britânica de carros Jaguar Land Rover tem no Rio de Janeiro a sua única fábrica fora do Reino Unido. Esses relacionamentos são profundos. Atualmente muito pertinente, o Centro de Excelência GSK-Butantan, em São Paulo, fundado em 2013, é um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo, responsável por grande parte da produção de vacinas no Brasil, e realiza uma excelente parceria entre a multinacional farmacêutica britânica e a Fapesp.

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Nós podemos ir mais longe. Em uma ligação conjunta entre o primeiro-ministro britânico Boris Johnson e o presidente Jair Bolsonaro, no início do ano, os líderes se comprometeram a fortalecer os laços entre nossos países em várias áreas, incluindo comércio e investimento. O governo britânico, por seu lado, comprometeu-se, por meio do seu Fundo de Prosperidade, com até 80 milhões de libras em apoio ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil, com foco em recursos verdes, educação e cidades inteligentes. O UK Export Finance (UKEF), a agência de crédito do Reino Unido, tem uma capacidade de até 3 bilhões de libras em apoio ao comércio Brasil-Reino Unido.

Agora que o Brexit pode ser visto no espelho retrovisor – o Reino Unido deixou oficialmente a União Europeia em 31 de janeiro –, podemos conceber um “novo normal” no fortalecimento dos laços bilaterais. Segundo Martin Whalley, diretor do Ministério Britânico de Comércio Internacional no Brasil, “o Reino Unido está ansioso por um relacionamento econômico e comercial ainda mais próximo com o Brasil agora que o Brexit está concluído. O comércio entre nossos países está crescendo, mas há muito mais que podemos fazer juntos, com oportunidades para empresas britânicas e brasileiras”.

Quando os atuais desafios econômicos e sociais causados pela pandemia do coronavírus passarem, devemos explorar cada vez mais as conversas, oportunidades e parcerias bilaterais entre Reino Unido e Brasil. Estes podem ser alguns dos planos para o futuro.

Adam Paul Patterson, formado em Política e pós-graduado em Economia, Investimentos e Finanças, é cônsul honorário do Reino Unido no Paraná.