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Sempre que falamos da formação dos jovens que compõem o espaço da formação básica brasileira, falamos de um assunto pertinente. Particularmente, a educação básica é o berçário da vida pública; os novos frutos do futuro de nossa sociedade estão no cultivo da intelectualidade dos jovens. Mas o que é intelectualidade? Grosso modo, a vida intelectual é, ou deveria ser, o cultivo do espírito/mente por meio do conhecimento e a busca por um sentido para a vida associado a esse processo de conhecimento. Deste modo, a verdadeira vida intelectual une o conhecer com o viver.

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Os instrumentos à disposição do jovem para essa empreitada são os livros, os professores, os pais, a comunidade, a fé, a academia, os centros de pesquisa formal e, sem dúvida, a tecnologia. O grande desafio da vida intelectual é que ela exige algo que a juventude (ainda) parece não ter: maturidade. A vida intelectual é como um valioso rito de passagem, da juventude para a maturidade, um caminho de tentativas, de erros e acertos rumo à sabedoria prática através do conhecimento. Como eu disse, é uma erudição que guia nossas mãos.

Sem dúvida, a maioria dos jovens brasileiros ainda padece da natural juvenilidade e, uma vez iniciada a trajetória, confunde acúmulo de informação com sabedoria, suspeitando que a intelectualidade se esgota em ser uma enciclopédia ambulante. A sabedoria como resultado da união entre maturidade e capacidade intelectual é algo que exige o transcorrer do tempo, experiências de vida e, sobretudo, sofrimento. Maturidade não se conquista com a idade: cada vez mais há mentes juvenis em corpos adultos. Por isso, a verdadeira vida intelectual ajuda o jovem iniciado a progredir em corpo e espírito. Nestes anos de trabalho com jovens na área da educação, cheguei a algumas perguntas (e respostas) feitas com frequência sobre a relação entre o jovem e a vida intelectual:

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Qual a posição que a leitura – e os tipos de leitura consumida, como jornais, blogs, impressos e livros – tem na vida intelectual do jovem? O fato é que não existe uma regra: cada jovem atribui uma importância inicialmente utilitarista ao escolher o tipo de leitura que é necessária (para a escola ou faculdade) e a que lhe interessa naquele momento de vida. São a dedicação e o esforço árduo, o grande objetivo e a atitude perante a vida que farão com que a leitura seja um ativo (e não um passivo) na vida do jovem. Mas não há dúvida de que os livros estão em um plano hierárquico infinitamente superior ao de jornais, blogs etc. para quem deseja construir uma vida intelectual. A depender do jornal que se lê, o que se tem é a morte do intelecto.

Quais funções e formas devem ter a escrita, o diálogo e a reflexão para uma vida intelectual de qualidade na juventude? Mais uma vez: não existe regra. E insisto nisso porque sofri um bocado seguindo sugestões de grandes intelectuais e escritores que não serviam para mim. Quando isso acontece, você duvida de você, da sua capacidade, e não da forma, do método que você está usando. É importante que você conheça, que teste, que saiba que aquilo que funcionou para os seus mestres pode não ser adequado para você. O que eu sempre tentei fazer – e continuo fazendo – era pensar que os elementos separados eram o alicerce do todo. A partir daí eu conseguia encaixar cada um deles como se fossem as fundações de um edifício.

Por exemplo: eu leio grifando e anotando, o que desperta a reflexão contínua. Em seguida, escrevo observações e impressões a respeito do que li e refleti. Depois, reescrevo frases ou parágrafos para ver como aqueles trechos que achei notáveis soariam com a minha escrita. Ao estabelecer esse diálogo com o escritor, consigo entrar no universo que ele criou e estabelecer um paralelo com aquilo que aquele universo provocou em mim e como eu refleti a partir dele, estando, ao mesmo tempo, dentro e fora do livro. É como se eu criasse dois universos paralelos que se comunicam o tempo inteiro e me fornecem as ferramentas de que eu preciso para, a depender do livro, desfrutar a leitura ou apreender o seu conteúdo. A partir desse diálogo com a obra, passo a dialogar com os seus críticos ou leitores amadores, e assim continuo a erigir o edifício do conhecimento que já tem fundações sólidas. A vida intelectual exige treino, dedicação, sacrifício, como qualquer instrumento musical, como qualquer esporte.

Quais sacrifícios, desafios e privações a vida intelectual exige na juventude? Há quem consiga ter vida social e vida intelectual na juventude: não são excludentes. Eu não consegui, e lamento por isso. Submergi completamente na leitura e nos estudos. Achava que devia fazê-lo a fim de ler tudo que eu gostaria e achava importante. Queria compensar o tempo perdido até meus 19 anos como não leitor. Quando eu gostava de um autor, lia tudo dele. Lembro de quando li Os Quatro Amores, de C.S. Lewis. Fiquei maravilhado! Comprei (quase) todos os livros do autor traduzidos para o português. Foi assim com vários outros escritores – continua sendo. Infelizmente, o equilíbrio, sempre necessário, que me permitiria aproveitar parte da vida social da faculdade só veio gradualmente, com a maturidade. Mas, como dizem, o tempo passado não se recupera.

O jovem intelectual sofre preconceitos? Não vejo preconceito, mas, apenas por aquilo que vivi e presenciei, noto um incômodo da parte dos que estão ao redor do jovem. Aquele que pretere a sua vida social pela leitura e pelos estudos é cobrado em maior ou menor grau pela família e pelos amigos. Ou não é incentivado. Talvez porque os que estão à sua volta não entendam o que a leitura e os estudos significam para ele em razão dos interesses divergentes. Quem não tem o hábito da leitura ou diz não gostar de ler é incapaz de ver alguém sentado lendo e não incomodar. Quantas vezes eu, lendo em algum local, fui interrompido pela pessoa mais próxima que, estranhamente, considerou que meu ato de ler era um refúgio contra a solidão, um aceno desesperado para que um estranho se aproximasse com uma conversa salvadora! Na média, o brasileiro detesta solidão e silêncio, e tenta impedir qualquer um de desfrutá-los.

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Como foi e é o seu caminho na vida intelectual, e quais conselhos você daria para a juventude? Comecei tardiamente, ali pelos 19 anos. Foi quando descobri que gostava de ler e passei a fazê-lo diariamente. Essa descoberta me levou a outra: havia tanto a ler que eu precisava organizar a minha rotina para essa missão de vida. Não era fácil, pois eu trabalhava durante o dia e fazia faculdade de História à noite. Sendo assim, eu andava sempre com um livro à mão para ler em qualquer tempo disponível. Comecei a treinar métodos de leitura dinâmica e a ler enquanto andava para o trabalho e para a faculdade. Lia durante algumas aulas cujo conteúdo eu aprendia rápido. Li as Institutas, de Calvino, na sala de aula durante o terceiro ano de faculdade.

Meus fins de semana eram dedicados à leitura devocional (filosofia e teologia cristã) e ao estudo de História, especialmente a abordagem teórica do assunto. O que eu posso dizer a partir da minha experiência é: escolha aquilo que lhe interessa, que toca nas questões mais vitais de sua existência e assim você será naturalmente levado a dedicar-se com afinco, por algo de valor de vida e morte. Não ceda à tentação da arrogância e tente aprender com todo aquele com quem você tiver a oportunidade de conversar. Ainda tenho grandes resultados da época em que deixava as futilidades das conversações acadêmicas para estar no intervalo com meus professores, fazendo mil perguntas. Outra coisa: lembre-se que Sócrates filosofava a partir do contato com pessoas diversas, não somente com outros filósofos; e que a grande literatura se constrói a partir das histórias de seres humanos medianos, não de gênios. Por isso, valorize cada contato, pessoa, história e oportunidade de aquisição de conhecimento.

Fernando Razente, formado em História, é professor no Colégio Vila Militar Feitep e colíder da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência em Maringá (PR).