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Preocupados com a qualidade das escolas tradicionais, pais têm ajudo a criar e manter colégios com propostas diferenciadas de ensino, que buscam desenvolvimento cognitivo e humano dos alunos.
Preocupados com a qualidade das escolas tradicionais, pais têm ajudo a criar e manter colégios com propostas diferenciadas de ensino, que buscam desenvolvimento cognitivo e humano dos alunos.| Foto: Pixabay

Ideologia dentro da sala de aula, ensino sem qualidade, pouca ou nenhuma discussão sobre valores humanos. Esse cenário comum nas escolas brasileiras tem levados pais a questionarem o sistema de ensino tradicional e buscarem alternativas para garantir uma melhor formação para seus filhos, como a criação ou apoio a projetos de educação personalizados. Embora ainda sejam iniciativas isoladas, a ideia tem conquistado apoiadores em todo o país.

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Um dos pontos fundamentais da educação personalizada é oferecer apoio para cada aluno desenvolver suas aptidões, reconhecer dificuldades, aceitá-las e superá-las. O objetivo é o desenvolvimento da excelência, tanto acadêmica quanto humana. Por isso, os alunos são estimulados a desenvolver virtudes pessoais e sociais. Pais e familiares também têm importante papel nessa abordagem, acompanhando e atuando em conjunto com a escola e professores.

Um exemplo é a Escola Bons Ventos, de Natal (RN). Criada em 2017, a escola começou com apenas uma turma e três alunos. Em 2021, a escola encerra o ano com 40 alunos e já preencheu quase todas as vagas disponíveis para o próximo ano. No total, a capacidade atual das instalações comporta 60 crianças. A procura por vagas parte principalmente de familiares e amigos das famílias que apoiam a iniciativa.

“Quando soubemos que seríamos pais, entendemos e sentimos que estávamos gravemente obrigados a cuidar e educar de nosso filho, custasse o que custasse. Não nos agradava a ideia de não protagonizar sua formação”, conta André Falcão Freire, um dos pais envolvido na criação da escola. Ele conta que ele e a esposa começaram a ler e pesquisar sobre educação, e montaram um grupo de amigos que compartilhavam as mesmas preocupações.

Inicialmente, eles pensaram em adotar a modalidade de homeschooling, mas eles queriam algo que pudesse também ser estendido a outras crianças. “Embora isso [homeschooling] pudesse resolver o problema da educação, essa ideia sempre levava a um questionamento que nos incomodava: resolvemos nosso problema, mas o que será feito dos amigos de nossos filhos?”, explica Freire.

Na sequência eles acabaram conhecendo a chamada Educação Personalizada, abordagem que tem como objetivo oferecer uma atenção individual a cada um dos alunos durante todo o processo educativo. “Percebemos que essa forma de ver a educação, que respeita a dignidade e unicidade de cada pessoa, além de oferecer boa formação acadêmica e educação das virtudes, era coerente com o que acreditamos. A partir daí nos sentimos estimulados pelo exemplo de tantos pais pelo mundo e nos decidimos a fazer a escola que queríamos para nossos filhos”, explica Freire.

Preparação prévia

O pai conta que pesquisou sobre o assunto e fez treinamentos para se preparar para colocar em prática a nova escola, que continua sob direção dos pais dos alunos. Aliás, a maior parte dos estudantes é formada por filhos, netos, sobrinhos ou amigos de pessoas envolvidas na gestão ou na docência da escola. “Como o intuito da escola é justamente garantir o protagonismo dos pais na educação dos filhos, em vez de terceirizar essa responsabilidade, mesmo os pais que não trabalham na escola devem participar”, ressalta Freire.

Periodicamente, os pais vão até a escola para discutir e traçar com as professoras as estratégias, objetivos e metas educativas para seus filhos. E diariamente são orientados a dar continuidade em casa ao programa de educação da vontade, que incentiva o desenvolvimento das virtudes humanas, como ordem, coragem e paciência.

Diferentemente das escolas tradicionais, cujo foco é a aprovação em uma universidade ou preparação para o mercado de trabalho, a Bons Ventos busca também a excelência pessoal e não apenas acadêmica.

“A equipe está sempre a se perguntar e a tentar responder junto com os pais: quem é aquela criança, o que a distingue das demais, como ajudá-la a tornar-se a melhor versão de si mesma”, contra Freire.

Alfabetização com abordagem fônica e raciocínio matemático

Em Cuiabá (MT), outra instituição de ensino que existe graças à ação dos pais é o Colégio Imaculado Coração. A escola começou suas atividades em 2018, depois da mobilização de pais que queriam uma alternativa de escola que estivesse em sintonia com os valores e anseios familiares. A proposta é promover uma educação liberal, por uma abordagem integral e pessoal, com o desenvolvimento eficaz das capacidades cognitivas e corporais, o exercício das virtudes e a prática da vida espiritual.

Para isso, a escola conta com um currículo diferenciado, que trabalha, por exemplo, com a alfabetização em todas as etapas, incluindo a abordagem fônica, que tem por base a apresentação dos menores sons da fala (fonemas) e a sua relação com as letras (grafemas), chamado princípio alfabético. A escola também trabalha com o chamado “método Singapura” para o ensino de matemática, que tem foco no desenvolvimento da capacidade de compreensão dos processos envolvidos nas operações matemáticas. Desde a pré-escola, as crianças trabalham fundamentos do raciocínio matemático.

“Partimos de uma visão realista e integral do homem, considerando como sujeito da educação o homem todo, espírito unido ao corpo em unidade de natureza, que é ao mesmo tempo sensibilidade, inteligência e vontade; indivíduo singular, mas também ser social; que vive neste mundo, mas tem um sentido transcendente”, informa o site oficial da instituição.

Protagonismo da família

Também baseada na educação personalizada, o Colégio Mirante, de Belém (PA) começou suas atividades em 2020, com uma turma com sete alunos. Em 2021, a procura aumentou significativamente: foram 70 alunos divididos em seis turmas. Para atender a demanda crescente, no próximo ano o colégio vai mudar para uma sede maior. Uma das crianças matriculadas é a filha de Taline Bandeira.

Taline conta que já conhecia a proposta da educação personalizada e, quando a proposta de fundar o Mirante surgiu, apoiou a ideia. “Somos pais fundadores e aderimos à proposta da escola como um projeto da nossa família. Nos preocupamos em educar nossos filhos nas virtudes, dentro da perspectiva do transcendente”, explica.

De acordo com ela, o trabalho realizado pela escola em parceria com os pais teve efeito direto no desenvolvimento de sua filha, hoje com 4 anos de idade. “Temos preceptorias com a professora de nossa filha ao longo do ano, que busca estimular os pontos fortes e ajustar nos pontos a melhorar, traçando um plano individual da criança. Assim vimos a evolução de nossa filha ao longo desse ano em casa e na escola. Estamos extremamente satisfeitos e felizes com essa parceria”, diz.

O papel da família, aliás, é uma das características do ensino personalizado. “Sabemos que educação pertence às famílias. O papel da escola é auxiliar os pais nesse percurso tão importante que é educar os filhos”, define a diretora do Mirante, Daniela Garcia, atual diretora e uma das fundadoras.

Pelo menos uma vez por mês, os pais dos alunos participam da chamada “preceptoria”, onde os professores analisam junto com os pais os principais pontos do desenvolvimento da criança, estabelecendo pontos que precisam ser mais trabalhados ou incentivados.

“Nós somos ‘convocados’ pela escola a assumir o papel de protagonistas na educação dos nossos filhos”, diz Rômulo Ricardo Coelho Siqueiro, também pai de aluno. Ele conta que conheceu a escola por meio de amigos que já tinham filhos matriculados e se surpreendeu com a proposta. “Eu tinha uma ideia meio banal sobre educação infantil. Via colégios para crianças de 2 a 4 anos quase como uma creche”, explica.

Segundo ele, os encontros e eventos para pais organizados pela escola têm sido importantes para ele e a esposa, Lidiane, também aprenderem melhor o que esperar e como lidar com cada fase do desenvolvimento do filho. Mesmo durante o período em que as atividades tiverem de ser feitas de forma remota, Rômulo diz que o apoio continuou. “O colégio nunca deixou a desejar, sempre esteve atento às necessidades de todos. O colégio nos convocou e nos deu ferramentas para juntos participarmos ativamente do desenvolvimento dos nossos filhos”, diz ele.

Primeiros passos

Outro projeto em que pais estão se organizando para fundar uma escola pautada pelo ensinamento das virtudes está em discussão em Ivoti, no interior do Rio Grande do Sul. Em uma página na internet, o grupo se define como “pais preocupados com o futuro da educação e da integridade moral de nossos filhos e dos filhos de nossos amigos”.

De acordo com a proposta, a ideia é construir um projeto comum entre famílias, escola e sociedade, sempre visando a formação integral dos alunos, buscando “educar para a paz, convivência e para a vida”. Para concretizar o projeto, o grupo pretende buscar recursos de investidores privados e de ações beneficentes em prol da futura escola. Além disso, os pais também estão em contato com  representantes de instituições que incentivam  a criação de colégios que utilizam o modelo de educação personalizada.

Ainda não há previsão de quando a escola começará a funcionar. A princípio, a ideia é começar já no próximo ano a oferecer atividades de contraturno e posteriormente atender alunos da Educação Infantil e Ensino Fundamental I.

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