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Negritude vermelha
| Foto: Pixabay

Caim matou Abel por acreditar que seu sacrifício seria mais agradável a Deus. Mas, segundo a narrativa bíblica, Deus não deu atenção à boa oferenda de Caim. E ele irou-se; e a ira passa pelas palavras e às vezes condensa-se em um artigo de jornal, a exemplo de Fundação Palmares: e eu com isso?, escrito por Paulo Cruz e publicado aqui na Gazeta do Povo. Ao ler o artigo, saltou-me aos olhos a dor de Caim que domina meu crítico: a de ser preterido para o cargo que talvez lhe coubesse melhor.

O artigo em questão é uma enxurrada de referências pretensamente intelectuais. Verborrágico e confuso, o autor diz que não está e nem nunca esteve interessado em “disputar espaço político com movimentos organizados”, os tais movimentos negros. Diferencia-se, mas não deixa de fazer a “crítica necessária”. Para tanto, Cruz cita Abdias do Nascimento, lugar comum da esquerda racialista.

Por alto, basta dizer que Abdias idealizou o Memorial Zumbi e o Movimento Negro Unificado - MNU e, entre outras façanhas, fundou o PDT, partido filiado à Segunda Internacional Socialista, junto com o militante esquerdista Leonel Brizola. Além disso, e vejam que paradoxo, Abdias era casado com uma mulher caucasiana mas, ao mesmo tempo, opunha-se a relacionamentos interraciais. Para um crítico neutro, sintomático apoiar-se nas ideias e realizações de Abdias, o engajado. Essa é uma das inúmeras contradições das reflexões de Cruz. Continuemos.

Paulo Cruz se esforça para demonstrar erudição. Preciosismo é vício de linguagem, é bom que saiba. O uso em excesso de palavras raras e pouco conhecidas para exprimir ideias aparentemente simples (ou ao menos simplistas, como é o caso) torna o seu texto frequentemente prolixo e pouco objetivo. Intelectual que se preza não busca “falar difícil”, não quer cansar o leitor: quer esclarecer e instruir. Mas Paulo Cruz quer mostrar, possivelmente,  como seu comportamento seria adequado ao que se espera de um Presidente da Fundação Cultural Palmares. Suas preocupações são mais altas e mais profundas. Mas o que tivemos, na Presidência da Fundação Palmares, nos últimos anos e desde sua criação, senão negros como Cruz, bem talhados academicamente, prontos para participar de debates em qualquer universidade; e, melhor ainda, a manter a Fundação Palmares exatamente como está, a serviço da ideologia de esquerda que escraviza a mentalidade do negro?

Paulo Cruz acredita que gente como ele, pós-graduada, pretensamente intelectual e pronta a citar autores estrangeiros é que pode travar o verdadeiro embate e conduzir com melhor método os rumos de uma entidade como a Fundação Palmares. Ao citar o exemplo dos negros norte-americanos W.E.B. Du Bois e Booker T. Washington, ele fala de uma realidade passada e estranha à nossa. Apesar do circunlóquio no qual afirma combater a “submissão interpretativa a teorias pós-modernas que pouco têm a ver com os reais problemas brasileiros relacionados aos negros”, o autor continua seu texto negando exatamente o que diz afirmar. O acadêmico não apenas reproduz uma visão calcada no passado como usa exemplos de um passado alheio ao nosso, que nada tem a ver com os “reais problemas brasileiros” que ele afirma compreender melhor do que os outros. Não se trata nem mesmo de uma outra realidade contemporânea, mas de uma realidade de meados do século passado e estrangeira. É uma estruturação obtusa e contraditória.

Já no final de seu texto, Cruz ressalta que o debate sobre escravidão e racismo é repleto de “sentimentalismo tóxico”, sobretudo nas redes sociais. E cita-se perseguido e alvo de insultos de negros e brancos, inclusive tendo sido chamado de “capitão do mato”. Ato contínuo, afirma que tal dinâmica produziu “seu duplo”, que significa seu sósia, sua cópia, seu dublê. O “duplo”, claro, sou eu, “um ilustre desconhecido cujas declarações em redes sociais o transformam numa das escolhas mais controversas do governo para o posto que irá ocupar”. Para ele, que se acredita paradigma de alguma coisa, sou apenas “um crítico veemente do movimento negro a presidir um órgão que representa uma conquista do próprio movimento”. Ou seja, ele, sim, que não é de esquerda nem de direita, pode, sem querer travar disputas ideológicas com o movimento negro, ocupar dignamente a Presidência da Fundação.

A cereja do bolo da confusão mental de meu crítico está nessa frase: “Estou longe de me classificar como ‘negro de direita’, tampouco desejo a extinção do movimento negro”. Ora, esta é uma das afirmações mais isentistas e despidas de coragem de toda a história dos debates raciais do planeta. Se existe um ataque do movimento negro à direita, e Cruz não é um negro de direita e nem quer a extinção do movimento negro, ele carece de bravura e de sentido.

Se Paulo Cruz fosse um autêntico homem de ideias e estivesse de fato interessado em melhorar a realidade do negro, conversando de modo honesto e franco, teria me procurado, cordialmente. O verdadeiro intelectual tem necessidade de conhecer melhor seu objeto de crítica, enquanto o pseudo tem a necessidade deslocada para os mais variados interesses possíveis.

Sérgio Camargo é jornalista e presidente da Fundação Cultural Palmares, liminarmente afastado do cargo devido a ação popular proposta pela esquerda.

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