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O que há em um nome

Yaseen, Ellison, Viet, Nguyen: todos nomes norte-americanos, se quisermos; todos nos lembram que mudamos os EUA aos poucos, um nome por vez

  • Viet Thanh Nguyen
  • The New York Times
 | Pixabay
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Qual é seu nome? O meu é Viet Thanh Nguyen, embora eu tenha nascido no Vietnã como Nguyen Thanh Viet. O fato é que, não importa a ordem em que seja dito, meu nome nunca será tipicamente norte-americano. Tendo crescido nos EUA, fui encorajado pela tradição nacional a acreditar que era normal, desejável e prático adotar um primeiro nome fácil e até mudar o sobrenome para que soasse mais “norte-americano”.

O que, obviamente, levanta a questão: o que é exatamente um nome norte-americano?

Quando meus pais, vietnamitas, se tornaram cidadãos, assumiram o caminho mais pragmático e mudaram seus nomes para Joseph e Linda. Eu, na época adolescente, fiquei chocado. Aquelas eram as mesmas pessoas que viviam me dizendo que eu era “100% vietnamita”?

E me perguntaram se eu queria trocar o meu. O que não faltava eram bons motivos para mudar, já que, ao longo de toda a infância, meus colegas de classe me atormentaram, perguntando se meu sobrenome era Nã, tipo “Viet Nã”, sacaram? A função de autocorreção do meu iPhone com certeza acha que sim, pois às vezes ainda recebo mensagens de amigos endereçadas a Viet Nã.

Pensei em vários nomes. Não queria nada simples demais, como meu nome de batismo católico, Joseph. Ou Joe. Ou Joey. Queria algo um pouco diferente, como eu. Que tal... Troy?

Quando meus pais, vietnamitas, se tornaram cidadãos, assumiram o caminho mais pragmático e mudaram seus nomes para Joseph e Linda

Não deu certo. Tanto essa como todas as outras possibilidades me pareciam estranhas. O lembrete constante dos meus pais de que eu era 100% vietnamita tinha funcionado. Sentia que tinha alguma conexão psíquica com o Vietnã, o país onde nascera, mas do qual não me lembrava, já que saíra de lá aos quatro anos de idade. O que não deixava de ser uma ironia, porque meus conterrâneos refugiados que viviam em San Jose, na Califórnia, nos anos 1980 – e que nunca se referiam a si mesmos como norte-americanos –, me descreviam como “completamente americanizado”. Diziam que eu tinha “branqueado”; que era como a banana, amarela por fora, mas branca por dentro.

Bom, se de fato eu era uma banana, então a maioria dos outros norte-americanos parecia ver só a “casca” amarela, e não minha brancura interior. O dilema de se ver preso entre culturas opostas não tem nada de novo e não se dissipa, e não era complicado só para mim, mas para todo mundo que tem de encará-lo.

Não fiquei nem um pouco impressionado quando participei de uma excursão ao Instituto de Defesa do Idioma, em Monterey, onde um jovem soldado, muito simpático, vestido com o traje típico vietnamita e fluente no idioma, “traduziu” meu nome para um equivalente norte-americano: Bruce Smith.

O Smith foi uma boa comparação, já que Nguyen é o sobrenome vietnamita mais comum, herdado de uma dinastia real – como também um dos mais populares na Austrália, para onde muitos refugiados foram –, o que me leva a imaginar se os australianos aprenderam a pronunciá-lo em toda a sua beleza tonal. Nos EUA, a maioria, cansada de ter de se explicar, simplesmente instrui que seja pronunciado como “win” (“vencer”), o que leva a muitas brincadeiras e trocadilhos.

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Em relação ao Bruce, acho que George seria mais acertado; Viet é o nome do povo, e George é o pai do país. Ou talvez Américo – como o cartógrafo Vespúcio, que se tornou parte de nossa identidade nacional. Ou, quem sabe, em vez de usar contorcionismos de tradução, ou translação – que também significa “mudar uma coisa de lugar”, como meus pais fizeram comigo, cruzando o Pacífico –, eu deveria simplesmente ser Viet.

Que, no fim das contas, foi a minha escolha. Nada de mudança. Nada de tradução. Nada, nesse caso, de adaptação aos EUA. É verdade que nasci no Vietnã, mas me fiz em terras norte-americanas. Ou me refiz. Mas, mesmo já tendo me tornado norte-americano quando obtive a cidadania, me recusei a mudar meu nome.

Porque eu já sabia intuitivamente o que saberia um dia explicitamente: que faria os norte-americanos pronunciar meu nome. Inconscientemente, sabia que mudar meu nome seria uma traição, como o próprio ato da tradução leva em si o potencial de desonestidade, de coisa errada, deliberadamente ou não. Uma deslealdade para com meus pais, mesmo que eles tivessem deixado a decisão da mudança para mim; uma deslealdade com o fato de ser vietnamita, mesmo que muitos compatriotas fossem ambivalentes a meu respeito. Uma deslealdade, acima de tudo, comigo mesmo.

Não julgo quem muda o nome – afinal, todos nós estamos constantemente nos fazendo e refazendo. Mas também não deveria ser julgado aquele que prefere não mudar, que insiste em ser quem é, ainda que seu nome induza muitos à dislexia. Meu sobrenome, por exemplo, é frequentemente escrito Ngyuen, ou Nyugen, mesmo em publicações em que se encontram obras minhas.

Não julgo quem muda o nome – afinal, todos nós estamos constantemente nos fazendo e refazendo

Na Starbucks e outras cafeterias, o barista geralmente erra, escrevendo Biet ou Diet. Tem hora que me dá vontade de adotar um nome para comprar café, como sugere minha amiga Thuy Vo Dang, só para facilitar a vida. O dela era Tina. O meu foi Joe. Usei só uma vez e na mesma hora fiquei com vergonha de mim mesmo.

Nunca mais me atrevi a repetir a dose. Eu queria que todo mundo ouvisse o barista chamar meu nome. Responder a um chamado publicamente é um jeito quase imperceptível de pegar o que é privado, o que pode ser vergonhoso ou constrangedor, e mudar seu significado. Comecemos em um lugar como a Starbucks, que também é um nome incomum, derivado de um personagem de Moby Dick, que é outro nome pouco usual. Starbucks e Moby Dick são parte do léxico e da mitologia norte-americanos. Assim, todos os nossos nomes, quaisquer que sejam suas origens, podem fazer parte deste país; basta apenas que os façamos valer orgulhosa e publicamente.

Recentemente, visitei a Academia Phillips Exeter, instituição fundada em 1781 que já foi 100% branca, mas que hoje conta com 20% de asiáticos. Na frente de todo o corpo discente, um dos alunos contou quanto temia ter de se apresentar quando era criança e que, por causa disso, começou a inventar apelidos para si mesmo, para não ter de explicar a pronúncia do seu nome. Ele me perguntou o que eu diria às pessoas que passam por esse tipo de dificuldade.

“Como você se chama?”, perguntei. “Yaseen”, disse ele.

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Eu lhe disse que era um nome bonito e que certamente seus pais o tinham escolhido com amor. E contei do nome que dera ao meu filho – Ellison, por causa do escritor Ralph Waldo Ellison, que por sua vez ganhara o nome de Ralph Waldo Emerson. Reivindiquei para ele uma genealogia que é, ao mesmo tempo, norte-americana e africana e que, através de mim e de si próprio, também terá tons vietnamitas. Ellison Nguyen, um nome que resume toda a nossa história, dolorosa e inspiradora, como país.

América também é um nome, que os cidadãos e residentes dos EUA tomaram para si, um nome que é idolatrado ou difamado ao redor do mundo, um nome que causa uma frustração imensa em todos os outros americanos, do norte ao sul, do Canadá ao Chile, que não fazem parte dos EUA. Um nome complicado, como são todos, se formos analisar suas origens.

Yaseen, Ellison, Viet, Nguyen: todos nomes norte-americanos, se quisermos que sejam. Todos nos lembram que mudamos estes Estados Unidos da América aos poucos, um nome por vez.

Viet Thanh Nguyen é professor de Inglês da Universidade do Sul da Califórnia, autor, mais recentemente, de “The Refugees”, editor de “The Displaced: Refugee Writers on Refugee Lives”.
The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

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