Os altos e baixos da vida sem carro próprio
| Foto: Pixabay

Frank, o Ford Fiesta, vive agora em Chico, na Califórnia, e finalmente estou sem carro próprio. Para sempre.

Da última vez que isso aconteceu, eu tinha 12 anos – ou seja, há um tempão. Foi quando resolvi pegar tudo o que ganhara como babá e comprar uma motoneta Motobécane minúscula, principalmente porque minha mãe, inconstante, volta e meia se esquecia de me pegar na escola. A motoneta me deu o primeiro gostinho da liberdade de mobilidade norte-americana, que é tão clichê, mas tão verdadeira.

Hoje, décadas depois, me cansei. Mantendo a promessa que fiz a mim mesma – e aos meus leitores – de jamais possuir qualquer tipo de veículo motorizado novamente, vendi meu carro de câmbio manual em meados deste ano para um rapaz que pareceu muito satisfeito em adquiri-lo. "Ter um carro em breve será como ter um cavalo: um passatempo curioso, uma raridade interessante", escrevi em março.

Agora faço parte do que vejo como uma tendência de longo prazo, a de que o número de moradores urbanos que possuem carro vai cair, e restrições cada vez maiores serão impostas aos que teimarem em mantê-lo. Quando fiz essa previsão óbvia e inevitável, muitos concordaram e até aplaudiram o distanciamento automobilístico. Entretanto, muitos outros leitores, principalmente das áreas suburbanas e rurais, discordaram, dizendo que não há chance de alguém que mora fora da zona metropolitana viver sem carro. E quem tem filhos, então, onde quer que esteja – pior ainda.

Depender do transporte público e das amizades exige mais, o que significa que tenho de levar um tempão pensando na logística

Bom, depois de criar dois filhos, hoje já adolescentes, estou prestes a dar à luz o terceiro, e vou tentar, sim, evitar o carro. De fato, estou empolgada para encarar o desafio, que, acredito, se tornará cada vez mais normal, conforme novas formas de mobilidade forem se estabelecendo e se definindo como negócios sustentáveis. Mas ainda não estou nessa fase mais complexa, por isso vou só atualizá-los sobre a vida nesses últimos meses, uma experiência que vem me surpreendendo bastante.

Para começar, a vida de quem não tem carro próprio ainda inclui um monte deles. Eu não tinha a ilusão de evitá-los terminantemente quando tive a ideia de não ter um, embora minha esperança fosse a de usá-los com menos frequência. Não sou a Greta Thunberg, e tenho consciência de que minha pegada de carbono é bem grande, mas fazia tempos que eu queria encontrar pequenas formas de minimizá-la.

Mas hoje não, Satanás.

Até agora, aluguei duas vezes de empresas tradicionais como a Hertz, e também de serviços como o compartilhamento entre pessoas Turo, que lhe permite encontrar automóveis de gente que mora por perto e usar um aplicativo para poder destravá-los. Esses sistemas se tornaram bem sofisticados, mas as companhias geralmente oferecem carros que os clientes ricos querem testar, como Teslas, BMWs e Mustangs. E esses sistemas tipo "AirBNB automobilístico" estão brigando na Justiça para evitar regulamentações.

Como muita gente na cidade, uso facilidades como Uber e Lyft diversas vezes por semana. Elas se tornaram ligeiramente mais caras, e vão continuar subindo, pois está bem claro que essas empresas têm de ser algo mais do que um presente dos investidores para o público. Aliás, o subsídio que os investidores injetam nesse tipo de negócio e o pagamento decente para os motoristas, para que consigam uma renda decente, são questões espinhosas – mas o fato é que esses serviços se tornaram parte da rotina de muitos clientes e já se encontram mais facilmente em áreas remotas e suburbanas (com tempo de espera maior, é claro). Ainda assim, essa não é, de forma alguma, uma solução de mobilidade para quem mora na cidade.

Por fim, peguei carona com os amigos, o que resultou em momentos sociais interessantes. "Não posso ir ao jantar porque não tenho como ir; se quiser me ver, você vai ter de vir me pegar", eu me vejo falando, deixando para eles decidirem se minha companhia vale a corrida. Por enquanto, sim, mas desconfio que isso pode mudar conforme eu for me tornando um fardo frequente.

No geral, eu diria que cortei pela metade o uso do carro, e meus gastos com transporte são menores do que quando eu tinha o meu. Entretanto, depender do transporte público e das amizades exige mais, o que significa que tenho de levar um tempão pensando na logística. Tornei-me mais suscetível aos atrasos de movimentação ou à minha incapacidade de avaliar exatamente quanto tempo levarei para chegar a algum lugar.

Minha necessidade maior de uso do transporte público me levou a apelar para os patinetes elétricos, uma solução totalmente nova que uns adoram e outros odeiam. Essa opção implica em riscos físicos óbvios, principalmente por não merecer faixas especiais no trânsito, e gera uma série de novas responsabilidades e obrigações. É por isso que agora só ando com um capacete dobrável esperto e protetores de pulso – e também penso em fazer um seguro de não proprietário de automóvel, depois de uma advogada me assustar quando eu lhe disse que tinha me livrado da apólice de motorista.

Ser transportada, em vez de me transportar, tem outras desvantagens: com tanto tempo livre, eu passei a ler muito mais livros digitais indo para lá e para cá, fato que percebi desagradável quando alguém simplesmente me arrancou o iPhone da mão em um ônibus em San Francisco e saiu correndo. Assim, passei a procurar e a ouvir audiolivros, o que significa que finalmente terminei Hamilton, de Ron Chernow, que comecei a ler há dez anos. Atualmente, estou mergulhada em The Great Bridge, de David McCullough, sobre a Ponte do Brooklyn. Falando nela, pretendo atravessá-la a pé em breve, uma vez que a mudança mais radical na minha vida sem carro é o tempo que passo perambulando pelos lugares. Em uma viagem recente a Seattle, onde antes eu teria dirigido, fui para quase todas as reuniões a pé, intercalando o exercício com corridas de Uber e transporte público.

Se meu destino se encontra até mais ou menos 1,5 quilômetro, prefiro andar. Ver o mundo a pé é outra mudança bem-vinda, já que me permite passar mais tempo conversando ao telefone com amigos e familiares, ouvindo podcasts sobre tudo quanto é tema e podendo conferir de perto a vida que passava voando pela janela de Frank, o Ford Fiesta.

Achei que fosse sentir mais falta do meu carrinho de marcha solta, mas prefiro descrever meu divórcio automotivo de forma bem-educada: tenho certeza de que Frank hoje leva uma vida mais feliz. E eu também.

Kara Swisher é editora-geral de tecnologia do site Recode e produtora do podcast Recode Decode e do Code Conference.

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