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Propaganda oficial recorde em ano eleitoral: a maquiagem paga com o seu bolso

Gastos com propaganda oficial chegam a R$ 1 bilhão desde o início deste terceiro mandato de Lula. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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O poder não se explica, se experimenta — e quem prova, quer mais.

Existe um salto que todo mundo já viu de longe: alguém pula de um prédio sabendo exatamente o tamanho do estrago, mas já colocou a cama elástica embaixo antes de pular. Vai doer. Não vai matar. A maquiagem funciona há tempos e, no Brasil, funciona bem.

Foi isso que o país assistiu neste ano, em pleno calendário eleitoral: a Presidência da República gastou R$ 255,3 milhões em publicidade institucional só no primeiro semestre — o maior valor para o período em pelo menos dezessete anos. O caso virou alvo de apuração no Tribunal Superior Eleitoral: após representação de um partido de oposição, que alega empenhos de até R$ 785,7 milhões desde 2023 e possível excesso de R$ 167,6 milhões sobre o teto legal, o relator do processo determinou que o governo detalhe cada empenho em dez dias. O próprio relator fez questão de dizer que os dados disponíveis ainda não permitem confirmar se o limite foi de fato ultrapassado — a acusação existe, a prova está sendo reunida agora.

Não é preciso esperar veredito algum: independentemente do resultado da apuração, os R$ 255,3 milhões já efetivamente gastos no primeiro semestre bastam para abrir a discussão. Quem paga a cama elástica é o mesmo contribuinte que sustenta a saúde, a segurança, a estrada esburacada.

Cada real destinado à publicidade institucional é um real que deixa de estar disponível para outras prioridades do Estado

O amortecedor da queda de quem está no poder é pago por quem nunca teve rede de proteção nenhuma.

O mecanismo, porém, não nasceu agora nem é exclusividade de partido ou governo. É mais antigo e mais banal do que a política oficial gosta de admitir. Basta que alguém esteja um degrau acima do outro — no trabalho, na vizinhança, numa repartição qualquer — para que o ego encontre motivo de aflorar. Poder não precisa ser grande para viciar. Precisa só ser provado uma vez. E, provado, gruda. O que vale, a partir daí, deixa de ser o amanhã construído e passa a ser o hoje deles, garantido a qualquer custo, indiferente ao que isso custe aos outros.

O efeito mais grave desse vício não é institucional, é humano: quem se afunda nele perde a si próprio antes de perder o que quer que estivesse tentando proteger. E quem observa de fora, sem se apaixonar pela cena, enxerga o padrão com a clareza de quem assiste a um filme e narra o que viu — não o que gostaria de ter visto. Essa distinção, tão óbvia quanto ignorada, é o que falta ao debate público hoje: gente disposta a dizer que o prédio é alto e a queda é real, mesmo sabendo que apontar a cama elástica virou, para muitos, a única coisa proibida de se dizer em voz alta.

Isso não isenta quem gasta — usar dinheiro público para se proteger continua sendo escolha de quem está no poder, não fatalidade. Mas seria ingênuo fingir que a engrenagem funciona sozinha: ela encontra, do outro lado, uma parcela enorme do país a quem falta o básico, e quem falta o básico não tem luxo de julgar a origem da migalha que chega — aceita o hoje porque nunca teve o depois garantido. A troca se sustenta dos dois lados: de quem oferece a cama elástica e de quem, sem alternativa, agradece o colchão. Mas só um dos dois lados decide gastar.

O curioso é que ninguém mais se choca — nem quem aceita a migalha por não ter alternativa, nem quem, tendo todas as alternativas do mundo, escolhe fechar os olhos mesmo assim. A repetição virou música chiclete: toca tantas vezes que passa a soar familiar, e o ouvido para de perguntar por que ainda toca. Governo gasta recorde em autopromoção, oposição registra indignação de ocasião, o ciclo eleitoral vira e recomeça — sempre com o mesmo roteiro, trocando apenas os nomes dos personagens. Não é ingenuidade coletiva. Há, nessa plateia, muita gente qualificada, com diploma e leitura, que enxerga o mecanismo com perfeita nitidez e segue defendendo a versão que lhe convém, como se a verdade fosse questão de time, não de fato.

Fica, então, menos uma denúncia do que um convite ao espelho: a mesma engrenagem que movimenta milhões em publicidade institucional às vésperas do voto é a que se repete, em escala menor, sempre que alguém com um pouco mais de poder decide que o hoje vale mais do que o outro. Entender isso não exige tese de doutorado nem estudo de gabinete. Exige só abrir o olho para o que já está, há muito, diante dele.

Nenhum esclarecimento acadêmico foi capaz de lhe operar a catarata. Talvez porque a cegueira, dessa vez, não seja falta de informação — seja escolha.

Iares Ibero Sombra é mestre em Educação, jornalista, escritor e palestrante.

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