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Encerrada a nossa participação na Copa do Mundo, pergunto-me: como é possível que um país de 210 milhões de torcedores, com uma tradição imensa no futebol, revele tão poucos craques? E não me refiro a bons jogadores – disso nunca tivemos falta –, mas aos Craques, com maiúscula: aqueles capazes de decidir uma partida sozinhos, virar um jogo do nada... Espanha, Inglaterra e França, com bem menos torcedores que nós, revelam não um, mas vários desses craques a cada ciclo, e nós...
Aliás, parênteses: você já se perguntou por que a Argentina teve futebol para virar o jogo contra o Egito na Copa, e o Brasil não teve para fazer o mesmo contra a Noruega? Pergunta incômoda, né?! Mas vale a pena não desviar dela.
Minha “teoria” é simples: falta trabalho! O futebol, é verdade, tem sua dose de “caixinha de surpresas” – depende de sorte, de detalhes, de um lance que podia ter ido para qualquer lado. Jogando bem, também se perde; faz parte da magia do esporte. Mas esse argumento, ainda que real, é confortável, perfeito para esconder problemas. Prefiro não me refugiar nele e olhar para o que está ao nosso alcance. Se a sorte não está em nossas mãos, o trabalho, sim.
E aqui entra a segunda parte da teoria: quem não trabalha não é o Ancelotti, nem os jogadores que foram à Copa. É a CBF! Enquanto as confederações europeias passaram décadas se profissionalizando – organizando competições de base, formando treinadores, aproximando o esporte dos jovens –, aqui essa construção segue incipiente, quando existe. Não é à toa que uma parcela crescente da garotada já não sente pelo futebol o mesmo fascínio de gerações passadas.
Cada um pode pensar o que quiser, mas meu palpite pessoal continua o mesmo: falta trabalho. Concretamente, falta a CBF trabalhar – de forma consistente, no longo prazo, sem depender do próximo ciclo de diretoria, com uma política de confederação, não de chapa
Os números ajudam a tirar essa impressão do campo da opinião. A LaLiga espanhola criou, em outubro de 2022, um plano de cobrança dos clubes com 44 indicadores de qualidade na formação de jovens – infraestrutura, metodologia, corpo técnico, tudo auditado. Em menos de três anos, o índice médio de conformidade dos clubes saltou de cerca de 46% para 71%. Não é mágica nem sorte: é gestão, cobrança e método aplicados ano após ano.
Do outro lado do Canal da Mancha, a Inglaterra colhe um resultado parecido por caminho semelhante: desde que a seleção sub-21 conquistou o Europeu da categoria em 2023, as seleções de base inglesas já venceram cinco grandes torneios internacionais em seis anos – uma pipeline de talentos que não nasceu por acaso, mas de academias e investimento sustentado ao longo de décadas.
Faço uma analogia: enquanto o Brasil continua praticando majoritariamente o “extrativismo” de talentos – a boa e velha peneira que garimpa o dom natural do garoto –, vários países já entenderam que isso não basta e migraram para algo mais próximo de um “agronegócio do futebol”: investimento pesado e constante, profissionalismo acima de interesses pessoais, escolinhas numerosas e bem estruturadas, peneiras justas, sem o famoso “amigo do amigo”.
Um estudo do CIES Football Observatory, centro suíço de referência em dados do futebol, resume bem essa diferença: por aqui, historicamente, selecionamos craques prontos pelo talento natural; lá fora, sem tanto dom bruto à disposição, desenvolveram metodologia para formar o “básico bem-feito” – passe, movimentação, finalização, compromisso tático. Ou seja: eles formam onde nós apenas escolhemos.
Justiça seja feita: há sinais de que a CBF percebeu o tamanho do problema. Em abril de 2026, a entidade criou um “Grupo de Trabalho da Base”, reunindo mais de cem representantes entre clubes, federações, universidades e especialistas para repensar calendário, certificação de clubes formadores e regras para agentes, motivado, entre outras coisas, pela constatação de que o Brasil continua revelando talento, mas perdendo a corrida para retê-lo: só em 2025, foram mais de 300 transferências internacionais de jogadores brasileiros entre 18 e 23 anos. É um passo na direção certa. Fica a torcida – e a cobrança – para que isso vire rotina de décadas, e não apenas mais um anúncio de arrancada que perde fôlego no meio do caminho.
Cada um pode pensar o que quiser, mas meu palpite pessoal continua o mesmo: falta trabalho. Concretamente, falta a CBF trabalhar – de forma consistente, no longo prazo, sem depender do próximo ciclo de diretoria, com uma “política de confederação”, não de “chapa”. Simples assim. Só espero que não demitam o Ancelotti e o transformem em álibi fácil para um problema estrutural que não é dele. Pelo contrário: tirou “água de pedra” com um elenco bom, mas mediano – Vini Jr., à parte, esse sim um craque de verdade.
Se a CBF não trabalhar, Neymar volta para a Copa em 2030. Nada contra ele – ainda seria melhor que boa parte da nova geração. Mas seria uma pena, mais uma vez, ter que depositar nele a esperança do Brasil na Copa por falta de novos talentos. Por falta de trabalho.
Frederico Oliveira é engenheiro mecânico, com mestrado na área de Controle, e atua no terceiro setor.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



