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Ser normal em Curitiba: meta para 2018?

A cidade aparentemente tranquila e bem resolvida de duas décadas atrás é uma imagem cada vez mais distante no tempo

  • PorJeferson Ferro
  • 21/01/2018 04:00
 | Daniel Castellano/Arquivo Gazeta do Povo
| Foto: Daniel Castellano/Arquivo Gazeta do Povo

Duas décadas nos separam da canção de Rita Lee. Em 1997, a rainha do roque nacional cantava: “Saudades da terra, daquela vidinha boa, entre um milagre, uma guerra, quando deus era brasileiro e ria-se à toa (...) quero o essencial da vida, quero ser normal em Curitiba”. Difícil não sentir saudades de um tempo em que esses versos faziam algum sentido.

A Curitiba dos anos 90 era símbolo de um Brasil que poderia dar certo: a capital paranaense exibia ruas limpas, povo ordeiro, baixos índices de criminalidade e ônibus no horário. Se para uma parcela da classe média brasileira, filha do Plano Real, Curitiba era sonho de consumo, hoje, quando já não resta muita coisa daquela cidade modelo, ela é a capital da Lava Jato, meca da cruzada jurídica que decidiu bater de frente com a alma corrupta do país. Incapazes de entender as causas de nossa própria derrocada, os curitibanos nos agarramos à “luta para passar o Brasil a limpo”, como se quiséssemos caçar os culpados por aquele sonho da Rita Lee não ter dado certo. “República de Curitiba”, alcunha que nasceu da boca do “filho do Brasil” – eis a nova identidade da capital mais fria do país. Sim, nós sempre nos orgulhamos de ser uma espécie de negação do Brasil. Que identidade nos restará quando as luzes desse espetáculo se apagarem?

Se é verdade que toda cidade é um corpo vivo, a Praça Santos Andrade deve ser nosso coração, ainda que simbólico. Ela une em suas extremidades dois dos edifícios mais representativos da alma curitibana, guardiões de nossas aspirações mais profundas. De um lado, o prédio da Universidade Federal do Paraná, a primeira universidade brasileira (fundada em 1912), eleito em 1999 o “espaço-símbolo da cidade” – título que foi recentemente transformado em lei municipal. De outro, o Teatro Guaíra, imponente construção de arquitetura modernista da década de 1950, marca de uma Curitiba que avançava no tempo. Além de receber personalidades mundiais das belas artes, o palco principal do Guaíra é também sonho de consumo da nossa elite: todo começo de ano, alguns privilegiados jovens realizam ali sua cerimônia de formatura. Aos milhares de formandos rejeitados, o edifício da UFPR, no lado oposto da praça, oferece consolo: suas escadarias formam o cenário preferido entre os universitários para a tradicional foto da turma, não importando o curso ou a instituição a que pertençam, o que faz delas um destino muito concorrido às vésperas da temporada de colações de grau.

Nós sempre nos orgulhamos de ser uma espécie de negação do Brasil

Especialmente concorridas também se tornaram recentemente, neste mesmo edifício, as aulas do juiz Sergio Moro, ícone maior da Lava Jato. Com a sala de aulas lotada, não é raro encontrar alunos no corredor se esforçando para capturar as palavras que o juiz profere com sua voz mansa, reconhecida hoje por boa parte dos brasileiros. Há ainda outros integrantes da icônica operação com passado naquele prédio: o procurador Deltan Dallagnol, egresso do curso de Direito, e Edson Fachin, ministro do STF, ex-professor da instituição. Nenhum dos três é curitibano – cumpriram a sina de garotos do interior que foram estudar na capital. Talvez por isso, alguém há de dizer, andem tão “saidinhos” ultimamente, um comportamento deveras incomum aos nativos. O curitibano é, acima de tudo, um tímido. O cartunista Benett assim nos definiu: “O curitibano é um ensimesmado. Vive procurando a si mesmo. E, quando finalmente encontra, atravessa a rua pra não ter de cumprimentar”. Numa cidade em que as pessoas “não dão bom dia no elevador”, manifestações públicas de sentimento não são moeda corrente nas relações sociais. Que o digam os incansáveis organizadores do carnaval de rua: ano após ano precisam enfrentar os arautos do “Curitiba não combina com carnaval”, que insistem em dificultar a organização – quando não pedem seu definitivo cancelamento – dessa festa que é marca registrada da identidade nacional.

O ex-presidente Lula é um homem reconhecidamente emotivo. Chorar em público é seu cartão de visitas. Reza a lenda que foi seu marqueteiro, Duda Mendonça, em 2002, quem lhe deu o empurrãozinho que faltava para que perdesse definitivamente a vergonha e, de quebra, ganhasse uma eleição – a sua primeira vitória em quatro disputas pela Presidência do país. Sob as lágrimas, ele enterrou no passado a imagem de sindicalista raivoso, dentes cerrados e olhar de ódio, lançando-se de vez nos braços da classe média. Na versão “Lulinha Paz e Amor”, como então passou a ser chamado, ele era um homem sentimental, quase um personagem de bolero, e tornou-se inclusive o preferido dos eleitores curitibanos.

No ano passado, Lula esteve duas vezes na capital dos paranaenses. Na primeira, em maio, ele chorou. É bem verdade que foi um choro meio contido – era uma noite fria. Mas ainda assim um choro, como se lhe fosse inevitável deixar sua marca em momentos nos quais a emoção comunica mais que os argumentos, ou ao menos quando é isso o que se espera. Naquele dia 10 de maio, Lula foi à Praça Santos Andrade imediatamente após seu depoimento a Moro – parte da investigação sobre o tríplex, em que seria condenado dois meses depois. De cima de seu palanque, montado em frente às escadarias do prédio da UFPR, podia observar o Guaíra por entre os galhos dos pinheiros que povoam a praça. Diante de um punhado de militantes de carteirinha e de uma meia dúzia de simpatizantes de coração, fez um breve discurso. Jurou honestidade e rogou aos céus, com a voz embargada pelas lágrimas, que um ônibus o atropelasse se um dia tivesse de proferir uma única mentira. Felizmente para ele, as ruas ao redor da praça estavam interditadas ao trânsito.

Leia também: A decadência de Curitiba (artigo de Lubomir Fichinski, publicado em 12 de junho de 2014)

Leia também: A integração temporal e o apego ao passado (editorial de 27 de agosto de 2017)

Alguns dias depois, um espetáculo de humor lotava o auditório principal do Guaíra, a poucos metros dali. “Humorista curitibano” já pode ser considerado uma contradição em termos. Um que faça sucesso nacional, então, chega a ser quase inverossímil. Mas ele existe: Diogo Portugal. Na apresentação do espetáculo, Diogo conversa com o público. Fala “de curitibano pra curitibano”, faz graça com o prefeito e brinca com o fato de ter largado a faculdade de Direito para ser humorista (alguém na plateia sussurra: “Ele é filho de desembargador”). O espetáculo é uma verdadeira aula daquele “bom e velho humor”: politicamente incorretíssimo, movido a piadas escatológicas (não se passam dois minutos sem alguma menção a órgãos genitais ou sistema excretor), sistematicamente debochando da humilhação alheia. Para isso Diogo lança mão de cinco alvos, ou melhor, personagens: o office-boy Elvisley, legítimo representante dos pobres que habitam nossa região metropolitana; a manicure Marlene Marluce Catarina, imigrante do estado vizinho; o porteiro Ediomar; a ex-prostituta Pamela Conti; e Bomba, o lutador de jiu-jítsu. Com exceção deste último, todos os demais são perfeitas encarnações do outro, aquele que, sem sombra de dúvida, não é um dos nossos. Não por acaso é justamente em torno das piadas homofóbicas (mas não por isso) com o personagem Bomba que o volume de risadas despenca durante o espetáculo. Por quê? Talvez porque Curitiba seja a capital brasileira do Vale-Tudo e Bomba seja um espelho pra muitos na plateia. Rir de si mesmo, definitivamente, não faz parte do cardápio curitibano.

A julgar pelo mar de automóveis que invade as ruas ao redor do Guaíra quando o espetáculo termina, pouquíssimos espectadores voltaram para casa de ônibus. Durante muito tempo, o sistema de transporte público de Curitiba foi uma espécie de troféu mundial do urbanismo. Inúmeras vezes celebrado na imprensa, fez a fama de Jaime Lerner – um político tão improvável que, após uma sequência de mandatos na prefeitura da capital e no governo do estado, se aposentou da vida pública e foi viver de consultoria em Nova York. A situação atual talvez faça Lerner corar de vergonha: com uma frota decadente, a capital tem uma das tarifas de transporte público mais caras (R$ 4,25) e um dos trânsitos mais congestionados do país. Seria uma ironia do destino o fato de que o último levante popular nacional, em 2013, tenha sido disparado por um aumento no valor da tarifa do ônibus? Pois nós respondemos em 2016, elegendo um prefeito revival: Rafael Greca, que havia sucedido Lerner na prefeitura nos anos 90. Logo que assumiu, Greca aumentou em 30% o valor da tarifa e no dia seguinte foi jantar com o dono das empresas de ônibus no Country Club. Mas nada disso levou a massa curitibana às ruas.

Curitiba é hoje mais Brasil do que nunca, ainda que tenha tanta dificuldade em se olhar no espelho

A cidade aparentemente tranquila e bem resolvida de duas décadas atrás é uma imagem cada vez mais distante no tempo. Problemas sociais típicos das metrópoles brasileiras, como a violência (taxa de homicídios três vezes maior que a de São Paulo, por exemplo) e a ineficiência dos serviços públicos, tornaram-se preocupações cotidianas da nossa população. As estações-tubo que Lerner criou, já bastante envelhecidas, continuam povoando nossas avenidas, prova de que a cidade parou no tempo. E foi dentro de uma delas, numa rua por onde transitam diariamente centenas de carros com adesivos de apoio à Lava Jato, guiados por motoristas que acreditam firmemente na operação que está “passando o Brasil a limpo”, que um jovem foi morto a golpes de canivete no começo de julho. O crime resultou de uma confusão entre estudantes que entravam na estação sem pagar a passagem. Um passageiro, também ele jovem estudante, reagiu aos invasores e acabou ferindo de morte o garoto Pedro, de 16 anos. No dia seguinte, o agressor se entregou à polícia e declarou à imprensa a motivação de seu ato: “Eu quis defender a Constituição. Eu quis defender a lei e as regras que são iguais para todo mundo”. Seria esse o batismo de sangue da nova “República”, de um Brasil que insiste em querer ser diferente?

Três semanas após a morte de Pedro, os inabaláveis apoiadores do juiz Sergio Moro organizavam uma festa de aniversário para o magistrado, que completava 45 anos de idade. Em frente ao prédio da Justiça Federal, o pequeno grupo montou uma mesa com coxinhas e um bolo: tinham alguma esperança de que o juiz viesse provar os quitutes – o que não aconteceu. No mesmo dia, Moro aceitava a denúncia do caso do sítio de Atibaia, fazendo de Lula réu pela segunda vez. O ex-presidente voltou à capital em setembro para depor no processo, mas dessa vez resolveu deixar as lágrimas de lado e a Praça Santos Andrade livre para os ônibus.

Aos 92 anos de idade, o escritor Dalton Trevisan é certamente o mais ilustre dos curitibanos vivos. Legítimo representante dessa terra, é famoso por sua aversão a qualquer tipo de exposição – não se deixa fotografar há décadas. Sua paródia à Canção do Exílio, de Gonçalves Dias (Em busca de Curitiba perdida, Record, 1992), abre com estes versos: “Não permita Deus que eu morra / sem que daqui me vá / sem que diga adeus ao pinheiro / onde já não canta o sabiá / morrer ó supremo desfrute / em Curitiba é que não dá”. Teria o vampiro alguma coisa a ensinar aos “perseguidos” pela voracidade neorrepublicana? Com um governador de estado enroscado em denúncias de corrupção, um prefeito (eleito com seu apoio) que prometeu levar os eleitores de volta ao doce idílio dos anos 90, mas até agora só entregou o amargo ajuste fiscal da era Temer, Curitiba é hoje mais Brasil do que nunca, ainda que tenha tanta dificuldade em se olhar no espelho. Enquanto empunhamos a espada da justiça e brincamos de caçar corruptos na casa do vizinho, seguimos esperando o dia em que o caminhão de mudanças da Rita Lee cruzará as ruas da cidade.

Jeferson Ferro é curitibano, mestre em Literatura, professor de Jornalismo na Uninter) e pesquisador do Cinecriare, da Unespar.
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