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Somos um sopro

Diante de tantas tragédias que aconteceram no início de 2019, vêm à tona perguntas fundamentais que quase nunca nos fazemos

  • Marco Montrasi
 | Divulgação/Corpo de Bombeiros do Paraná
Divulgação/Corpo de Bombeiros do Paraná
 
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O ano de 2019 mal começou, mas uma sequência de acontecimentos dramáticos já nos fez perder o fôlego e nos tirou da zona de conforto: a barragem de Brumadinho que se rompe, matando mais de 165 pessoas e deixando outras tantas desaparecidas; o CT do Flamengo que pega fogo e dez jovens morrem durante o sono; a queda de um helicóptero que tira a vida de um dos mais importantes formadores de opinião do país; relatos de mulheres espancadas e mortas pelo simples fato de serem mulheres... Quanta angústia, medo, raiva, perplexidade!

Mas depois de algumas semanas, quando começam a aparecer menos imagens e notícias sobre as tragédias, pouco a pouco a angústia se ameniza, a dor queima menos e voltamos à nossa rotina quase com um alívio. Basta ver como as discussões políticas pró e contra governo voltaram e são sempre as mesmas.

Mas o que aconteceu naqueles dias? Diante de todos aqueles fatos, vieram à tona em nossa consciência perguntas que quase nunca nos fazemos, sempre mergulhados na nossa distração resolvendo os problemas da vida. Onde tudo isso vai acabar? Quem sou eu? Que sentido tem a nossa vida? O que pode salvar o que amamos e a nós mesmos? Qual é o destino de tudo? E por que eu desejo tanto viver?

Talvez aquilo que mais caracteriza a nossa sociedade moderna seja um sentimento de insegurança e medo

Não existe resposta simplista ou fácil. Podemos até ter as explicações técnicas sobre as causas do rompimento da barragem em Brumadinho, por exemplo, e identificar os culpados pela tragédia. Mas isso não elimina a desproporção entre as explicações e a pergunta que nada consegue abafar: por quê?

As circunstâncias como essas das quais falamos suscitam isto: de um lado chocam, tirando-nos do nosso conforto; de outro lado despertam em nós uma parte da nossa alma que geralmente, na nossa rotina, está como que adormecida.

Pode dar medo viver esse momento, mas se pensamos bem é o momento em que mais somos nós mesmos, sem máscaras. Nós. Muitos precisam esquecer essas perguntas porque, às vezes, carregam uma dor insuportável.

Paradoxalmente, tempos difíceis como este são uma grande ocasião para verificarmos algo em que nunca pensamos. Podemos nos descobrir mais juntos, por exemplo. Aquela sensação de “eu poderia estar lá”, “poderia ser minha filha”, “e se fosse meu pai?” nos desperta empatia, nos faz partilhar da dor alheia e também nos faz rezar e querer bem às pessoas atingidas.

Leia também: Uma política da esperança (artigo de Bernardo Guadalupe, publicado em 21 de junho de 2018)

Leia também: Os valores do brasileiro (editorial de 8 de janeiro de 2016)

Podemos chamar esse momento de o despertar do nosso senso religioso. Identificando com isso não algo relacionado estritamente à religião, mas significando aquela abertura a algo que está em nós e que se manifesta inesperadamente por meio dessas perguntas últimas.

Talvez aquilo que mais caracteriza a nossa sociedade moderna seja um sentimento de insegurança e medo, desde a adolescência até a velhice. Mas se é verdade que tudo isso pode assustar, ao mesmo tempo temos de admitir que esse rasgar-se diante dessas perguntas nos eleva a algo maior, a algo que podemos perceber como positivo, como se as circunstâncias “fortes” que nos alcançam, de uma certa maneira despertassem o nosso eu que, de repente, se sente “mais eu”.

Temos dentro, mesmo que não expresso, um amor pela vida, um desejo infinito. E isso não pode ficar sufocado por muito tempo. Essas perguntas que empurram e despertam nossa alma é como se acendessem a espera de algo. A saudade imensa de algo que possa vir.

Esperamos algo? Podemos nos colocar a caminho para descobrir isso?

Nossas convicções: Defesa da vida desde a concepção

Leia também: Só a vida é solução (artigo de Karen Fernandes, publicado em 5 de agosto de 2018)

Por isso, acho que esse pode ser um momento de grande renovação. Quando parece que os muros são a única solução, descobrir esse senso religioso que todos nós temos pode gerar novos caminhos a serem percorridos juntos.

Esse momento pode nos ajudar a levantar a cabeça e finalmente ver horizontes que esquecemos. Ideais que podem nos fazer sair das discussões estéreis e das guerras ideológicas (tão cotidianas dos nossos dias). Quando descobrimos novos horizontes, uma paz nos invade e começa uma nova criatividade.

Há uma proposta que podemos verificar? Mesmo dentro de um grande mistério há um sentido bom: não viemos ao mundo para sofrer e morrer, mas para viver! Para descobrir esse nosso eu, esse grito de infinito que se desperta à frente do horizonte. Daqui renascem a pessoa e a humanidade. Será um sonho ou uma realidade possível? O desafio está lançado. Nós estamos disponíveis a caminhar juntos para isso com qualquer um que tenha esses desejos.

Marco Montrasi é economista e responsável nacional pelo Movimento Católico Comunhão e Libertação.

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