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“De nada valem as nações perante a história, se não souberem legar à posteridade uma luminosa mensagem de cultura.” Este pensamento de Jorge Lacerda, ex-governador de Santa Catarina, pode nos ajudar a refletir sobre a cultura brasileira. Cultura corresponde ao acervo das narrativas individuais e coletivas, das criações significativas que propiciam às sucessivas gerações o repertório de convicções que norteiam efetivamente a sua existência. De acordo com Ortega y Gasset, a “cultura é o que (nos) salva do naufrágio vital, o que permite ao homem viver sem que sua vida seja uma tragédia sem sentido”.

A cultura é o substrato vital, assimilado por cada um de nós, que permite acessar um estoque mínimo de reflexões consolidadas, que correspondem a um tecido bem trançado de valores criadores, vivenciais e de atitude, como delineava Viktor Frankl. Assemelha-se ao patrimônio de ideias, de produções científicas e artísticas de um povo. Sorokin resumia-o: “(1) A totalidade dos significados-valores-normas possuídos por indivíduos ou grupos (que) constitui a sua cultura ideológica; (2) a totalidade de suas ações significativas, através das quais se manifestam e realizam os puros significados-valores-normas, (que) representa a sua cultura comportamental; e (3) a totalidade de todos os outros veículos, os objetos e energias materiais e biofísicos por meio dos quais se externa, consolida e socializa a sua cultura ideológica, forma a sua cultura material. Deste modo, a cultura empírica total de uma pessoa ou grupo é composta desses três níveis culturais – o ideológico, o comportamental e o material”.

Faz-se necessário revisitar o estoque cultural narrativo que permita resgatar o mais elementar gesto filosófico: aprender a admirar-se do bem, do belo e do verdadeiro

Todos os povos necessitam, para a sua sobrevivência, dos conselhos dos pais, do exemplo dos seus líderes e da orientação de seus educadores. Lúcidas são neste sentido as palavras de Lacerda: “A história nos ensina que as forças materiais das nações também se nutrem das resistências do espírito, forjadas pela cultura, mercê das quais o seu poder de sobrevivência tem superado o impacto das catástrofes”.

É preocupante quando as narrativas diárias dos malfeitos, do recrudescimento da violência, da arbitrariedade, do descalabro ético suplantam, ou querem suplantar, as razões que deram sentido, até então, à nossa sociedade. Alarmante é o endurecimento dos calos morais, que tornam insensíveis levas de pessoas ao erro, e já aceitam, como se desse na mesma, todo tipo de valor e de contravalor. Ainda deveriam ser causa de admiração e afeição os atos de generosidade e de solidariedade e, por outro lado, causa de indignação e repúdio o desleixo e a corrupção.

Porquanto nos faltam bons modelos para conduzir a política, a gestão dos negócios e a prática informativa, faz-se necessário revisitar o estoque cultural narrativo que permita resgatar o mais elementar gesto filosófico: aprender a admirar-se do bem, do belo e do verdadeiro.

Quando escrevi o livro Jorge Lacerda: uma mensagem luminosa de cultura, fazia-o motivado para recuperar do esquecimento um modelo luminoso de cultura para contrarrestar a enxurrada de corrupção que assolou o meio político brasileiro com o resgate narrativo do exemplo e ideias de um brasileiro que teve papéis fortes na vida pública brasileira, como médico, advogado, jornalista, fundador de um dos mais destacados suplementos culturais da nossa história, deputado federal em duas legislaturas e governador de Santa Catarina. Mesmo que o destino o tenha colhido prematuramente aos 44 anos de idade, apenas revela, como Carpeaux, seu grande amigo, escreveu em sua partida, que “não é o tempo de relógio que mede o valor de uma vida talvez já plenamente realizada”.

Hoje se vê que as pesquisas dão cada vez mais espaço às subjetividades. É neste contexto que se insere tal publicação. Enfocar sob o prisma da pesquisa com narrativa o resgate de exemplos e a construção de conhecimentos passíveis de serem replicados para as gerações vindouras. A publicação com a busca dos exemplos e motivações de Jorge Lacerda no seu itinerário vital propicia reflexão madura para todos os que buscam a memória dos que foram protagonistas da construção dos valores culturais no Brasil.

Paulo Sertek é doutor em educação pela UFPR e professor universitário.
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