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Confesso, com certo constrangimento, que nunca fui adepto ardoroso dos livros mais vendidos. Apesar de serem responsáveis pela saúde financeira de muitas editoras, pecam pela sanha editorial. Nunca consegui, na verdade, ler um deles até o fim. O tratamento dado à linguagem e aos temas sempre deixa a desejar. Como desde garoto me induziram a ler muito, no glorioso Colégio Santo Antônio, logo fui me fixando nos clássicos.

É preciso não confundir um clássico com um best-seller. Estes, ao trazer para suas páginas assuntos e temas do momento, geralmente vendem muito porque os leitores, como em um estouro de boiada, querem ter o seu exemplar. Era preciso estar na moda, nem que os temas desses mais vendidos passassem muito perto da mediocridade. Os clássicos são obras-primas que fazem sucesso com qualidade inquestionável. Em relação aos mais vendidos, quase todos passam ao largo dos leitores exigentes. Para os intelectuais e críticos, tornou-se uma grave heresia ler o livro do momento. Os leitores de massa têm seu exemplar que exibem como um troféu.

Minha educação para a leitura foi muito seletiva, principalmente para a evolução cultural. Friso aqui de novo o papel decisivo do Colégio Franciscano de Blumenau. Não posso deixar de mencionar o frade responsável pela minha formação: frei Odorico Durieux, que me tomou pela mão e me recitou um verso de Drummond: “Vai, Carlos, ser gauche na vida!” Como éramos internos e havia todo o tempo do mundo para ler – a televisão ainda engatinhava e o cinema(scope) era nosso prêmio dominical: assistir a um bom bangue - bangue –, a leitura foi nossa ocupação cultural mais intensa.

Meu irmão escarnece dos leitores que se gabam de ler um livro do qual todos já sabem de cor e salteado os conteúdos temáticos

Lemos mais do que jogamos bola. Sem exagero, posso lhes dizer que lemos estantes de livros. Sabe-se lá quantos milhares tivemos de ler para preencher nosso tempo e a vida. Alguns textos são emoldurados por espigas douradas de algum trigal de Van Gogh. Voltando ao tema, na verdade, nunca gosto de ler o que todo o mundo já leu, pois não acrescenta bulhufas à minha cultura geral.

Ainda quanto ao best-seller, por que cargas d’água leria um livro que todo mundo já leu? Lembro dois, e nem são nacionais: o famoso Fernão Capelo Gaivota, repleto de exemplos de vida e de lições metafóricas poéticas. São livros leves, fáceis de ler. Mas, como disse, nunca me agradou ler uma obra da qual minha prezada auxiliar doméstica não soubesse o enredo de fio a pavio. Meu irmão, José Joaquim, escarnece dos leitores que se gabam de ler um livro do qual todos já sabem de cor e salteado os conteúdos temáticos.

Tempo, livros, biblioteca era do que mais dispúnhamos na escola; portanto, ler era uma forma de dar um recheio à vida. Hoje, infelizmente, os livros de autoajuda sexual são os campeões de audiência. “Sai pra lá!”, diz meu irmão, quando lhe ofereço um exemplar do famoso e bem vendido, por culpa das estrelas, O Pequeno Príncipe. Esse opúsculo é sobre a vida e os costumes sexuais do autor: o francês Antoine de Saint-Exupery. Sua melhor amiga é uma árvore baobá africana. O livrinho provoca outra corrida (ou estouro da boiada) às livrarias. Um exemplar me cai na mão. O remédio foi contentar-me com A Vida de Jesus, do brasileiro Plínio Salgado. Só depois desta leitura é que podemos comungar na Santa Missa. Ler o livrinho de Saint-Exupéry, que parece infantil, foi um martírio, porque se torna o xodó das misses. De cada dez, oito apontam-no como leitura de cabeceira. Não sou muito chegado a leituras tão amenas, por isso apanho o clássico do erotismo O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, e vou dar uma folheada nessa obra de alta tensão sexual.

Livros, livros de toda sorte. Da sexualidade exacerbada do brasileiríssimo A Carne, de Júlio Ribeiro, até às traquinagens de Branca de Neve e os Sete Anões, vamos levando a vida. Aí nos surge de um canto da estante o best-seller do nosso Romantismo, a Lucíola, que, de moça de família, se torna a maior prostituta do Rio de Janeiro do século 19. Os leitores enchem tanto o sapato do autor, José de Alencar, que a heroína do romance “foi proibida” de ser mãe e execrada porque ficara grávida, mas não pôde criar o filho, porque “nascera do pecado”. Alencar teve de erradicar a personagem da obra. Os leitores obrigaram-na ainda a deixar o bordel e morrer no parto. Paulo, o companheiro, fica incumbido de criar o filho do amor proibido.

Abrindo parênteses sobre livros célebres, é bom frisar que já na Antiguidade o imperador Hamurabi criou seu best-seller por meio de textos do Código que leva seu nome. Os textos legais foram gravados em monólitos de basalto, em escrita cuneiforme. Hamurabi mandou espalhar seu “livro de pedra e barro” por todo o império. Tratava-se do primeiro corpo de leis oficial. Entre outras determinações legais, o Código consagra a lei da Pena de Talião, “dente por dente; olho por olho”. Outra edição em escala ocorre em Portugal, por volta do ano de 1250, na Abadia de Alcobaça, onde copistas medievais copiaram a espantosa edição de 100 exemplares, em pergaminho, do Cancioneiro da Ajuda, antologia da poesia trovadoresca. No horizonte, vê-se surgir uma figura lendária: Gutenberg e sua técnica nova de imprimir com tipos móveis. A primeira e maior impressão foi a da Bíblia Sagrada, o livro de Deus e ainda hoje o maior best-seller da cultura humana.

Mudando um pouco o foco: para os alunos internos, como eu e meu irmão, fica o consolo de pegar algum gibi exótico como o do Tarzan, cuja companheira, a Chita, só se dirige a ele em bom inglês da rain forest ,“Yes, Bwana”.

Até hoje não sei bem o que caracteriza um best-seller: o conteúdo cheio de tragédias, amores proibidos ou os que apenas ostentam uma belíssima capa dura. Creio que são aqueles livros em que nada sobra e nada falta. De um best-seller nacional, cujo nome do autor prefiro omitir, só guardei a péssima escrita e histórias que andam de muletas. Creio que tem a ver com a vida de um alquimista não medieval.

Já os livros de autoajuda fazem sucesso porque tratam de temas batidos e superficiais. Vendem muito, já que se tornam modismos. Quando li uma obra de um dos maiores best-sellers da atualidade, paro no caminho que me leva pelo norte da Espanha até Santiago de Compostela. Nesse momento acontece um fato muito estranho: interrompo a leitura, sento-me na margem de um rio e choro. Se isto lhe soar meio familiar, estará perto de se tornar mais um leitor-gnu africano, em uma manada, espalhados pelas savanas, à sombra do Kilimanjaro.

Para não me extenuar, certa feita, ainda estudando na amada escola, paro com tudo e me enfronho nas aventuras reais do Pato Donald, seguramente um dos campeões de leitores. Quanto aos manuais de autoajuda, reservo algumas frases que já pronunciei alhures: “quem lê o que todos já leram não leu nada”. Se alguém ler um desses livros, vai apenas saber o que todos já estão cansados de saber.

Nesta Terra de Santa Cruz, o leitor lê porque outros já leram, ou não leu porque é analfabeto de carteirinha. Ou leu as orelhas, na frente e no verso, e tornou-se um irremediável “orelhudo”. Guardo um trecho sobre os livros de autoajuda de um escritor cingalês: “As obras de autoajuda são escritas para colocar um pouco de rouge nas pálidas bochechas da vida e boiar, sem colete salva-vidas, nesse vale de lágrimas em que está alagado o mundo da pós-modernidade ou hipermodernidade, da Segunda Grande Guerra para cá”.

Sugiro que o leitor corra, o mais rápido possível, para adquirir o seu Cinquenta Tons de Cinza. Como? Já o tinha comprado? A Chita do Tarzan arranja um lugar confortável na árvore e começa a ler Planeta dos Macacos, a Origem, sentada sobre Cinquenta Tons de Cinza.

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