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Ao longo de seus dois mandatos, o presidente norte-americano Barack Obama jamais teve uma relação amistosa com a Fox News, emissora de viés conservador e bastante crítica ao mandatário democrata: concedia menos entrevistas à Fox que às concorrentes, e respondia a menos perguntas de seus jornalistas nas coletivas na Casa Branca. A certa altura, membros do governo flertaram com a ideia de proibir a presença da Fox nesses eventos, e em 2009 o Departamento do Tesouro de fato tentou impedir a emissora de participar de uma entrevista coletiva de um de seus diretores; houve protestos dos outros canais, e o banimento nunca se concretizou.
Em 2004, o governo Lula mandou suspender o visto de um jornalista do New York Times após uma reportagem sobre hábitos etílicos do presidente. Larry Rohter só não foi expulso do Brasil porque o Judiciário interveio em defesa do correspondente e o Ministério da Justiça recuou. O petista voltou à carga em agosto deste ano: durante sua sabatina no Jornal Nacional, o presidente-candidato não gostou de uma pergunta certeira da apresentadora Renata Vasconcellos sobre a escalada da dívida pública. “Eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar a sua pergunta falando diferente”, disse Lula antes de dizer que pergunta chapa-branca gostaria de ter ouvido. Em 2018, o ministro do STF Gilmar Mendes também se irritou ao ser questionado por uma repórter da Folha de S.Paulo sobre o responsável por custear a viagem do ministro a Portugal para seu “Gilmarpalooza”. “Devolva essa pergunta ao seu editor, manda ele enfiar isso na bunda”, retrucou Gilmar, com sua grosseria característica.
O acesso dos jornalistas a eventos de Estado não é um privilégio concedido a amigos e vedado aos “inconvenientes”, mas um direito garantido aos que têm como profissão levar informação aos cidadãos
O que deveríamos pensar se, em retaliação às perguntas “desagradáveis”, Lula proibisse o acesso da Rede Globo aos eventos presidenciais, ou Gilmar proibisse a Folha de acompanhar os julgamentos no Supremo? Ou se Rohter acabasse de fato expulso do Brasil? Ou se Obama tivesse levado adiante a ideia de barrar a Fox News? Isso seria, ou ao menos deveria ser, motivo de repúdio unânime não apenas entre a classe jornalística, mas de toda a sociedade – e, no caso do correspondente do NYT, as entidades representativas de jornalistas e veículos de imprensa foram bastante atuantes. A liberdade de imprensa é um dos pilares da democracia, protegida constitucionalmente tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, e o acesso dos jornalistas a eventos de Estado não é um privilégio concedido a amigos e vedado aos “inconvenientes”, mas um direito garantido aos que têm como profissão levar informação aos cidadãos.
É por isso que o presidente Donald Trump, ao banir da Casa Branca o site Politico e as emissoras de televisão CNN e MS NOW, imitou uma característica deplorável da esquerda mundial: a aversão à imprensa que não se curva aos desejos do mandatário de plantão. Excluir desta forma veículos de comunicação cuja cobertura desagrada o governo é medida típica de regimes autoritários, ou de governantes de alma autoritária, que precisam se escorar em justificativas fragilíssimas, como supostas ameaças à “segurança nacional” – um raciocínio muito semelhante aos “danos ao país” alegados pelo ditador Hugo Chávez para não renovar a concessão do maior canal de televisão da Venezuela, a RCTV, em 2006.
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Os argumentos de Trump, felizmente, não colaram nem mesmo para a Fox News, mais alinhada às plataformas do Partido Republicano. A emissora se juntou ao protesto das outras concorrentes que seguiam credenciadas: elas não pararam de informar seu público sobre as atividades do presidente, mas deixaram de participar do pool responsável pela geração conjunta de imagens da Casa Branca e de Trump – nenhuma emissora, por exemplo, transmitiu o embarque do presidente no Air Force One e sua chegada a Nova York para a Assembleia Geral da ONU. A manifestação de solidariedade é fundamental, mas não substitui uma solução definitiva que garanta a liberdade de imprensa.
CNN, MS NOW e Politico acionaram a Justiça norte-americana para recuperar o acesso à Casa Branca e, na madrugada de quinta-feira, o juiz federal americano Timothy Kelly ordenou que as credenciais anteriormente tomadas sejam devolvidas aos veículos de imprensa; no entanto, jornalistas de CNN e MS NOW foram barrados no jantar oferecido por Trump ao ditador chinês Xi Jinping na noite de quinta, após a concessão da liminar. Em sua decisão, o magistrado baseou-se primariamente em possíveis violações do devido processo legal, como a impossibilidade de defesa, mas é necessário que qualquer decisão definitiva sobre o tema seja também bastante enfática quanto à proteção do livre exercício do jornalismo como garantia democrática. “Se for mantida, [a decisão de Trump] ameaça a liberdade de imprensa e o direito do público ao jornalismo independente, livre de interferências governamentais”, disseram na ação os três veículos de imprensa. Quem quer que viva sob regimes ou governos inimigos da liberdade de informação sabe o quanto essa afirmação é verdadeira.



