
O senador Flávio Bolsonaro, candidato derrotado à presidência da República, chegou na manhã de quarta-feira aos Estados Unidos, para onde viajou após o recrudescimento da perseguição política movida contra ele tendo como pretexto os inquéritos a que responde no Supremo Tribunal Federal (STF). Em sua primeira manifestação pública fora do país, após uma versão inicial na qual se declarava “presidente eleito do Brasil”, Flávio se proclamou “líder do Brasil” e falou mais de uma vez em “fraude eleitoral”, cometida por “criminosos que roubaram a eleição do Brasil”.
Que o segundo turno foi totalmente atípico é algo que está suficientemente comprovado. Lula comprou votos em escala nunca antes vista, por meio de um “pacote de bondades” de centenas de bilhões de reais em gastos ou renúncias a receitas; sua campanha digital se superou no terrorismo apocalíptico, criando um clima de puro medo; o TSE pouco fez para conter a desinformação, e fechou totalmente os olhos ao abuso de poder político; por fim, veio a decisão mencionada por Flávio em sua carta, na qual Cristiano Zanin atropelou o TSE e prorrogou a votação quando a maioria das seções eleitorais já estava fechada.
Garantir que o Senado seja presidido por um parlamentar da oposição, comprometido com o freio aos abusos do Supremo, deveria ser a prioridade absoluta
Compreende-se a profunda decepção com a derrota no segundo turno, depois de Flávio ter saído na frente em 4 de outubro. Compreende-se a sensação de que há algo de errado quando Lula consegue incríveis 10 milhões de votos adicionais na comparação com o primeiro turno. Mas é preciso ter evidências irrefutáveis para acusar fraude. Foi o que os venezuelanos fizeram em 2024, já escaldados pela “vitória” irregular de Nicolás Maduro em 2018: eles fotografaram todos os boletins de urna que puderam, e foi assim que provaram, acima de qualquer dúvida, que os dados oficiais de apuração eram falsos. Sem uma evidência que Flávio possa exibir para o mundo no caso brasileiro – e o próprio coordenador de campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho, afirmou que não tem essas provas –, qualquer acusação de fraude se torna inclusive muito perigosa para o futuro da oposição no Brasil.
A crença em uma fraude em 2022, recorde-se, foi um dos estopins – se não tiver sido o principal deles – para o 8 de janeiro de 2023. Ainda que um novo tumulto como o ocorrido naquela ocasião não aconteça, falar em fraude sem apresentar provas é tudo de que nossa juristocracia autoritária precisa para recolocar em prática as teses da “democracia defensiva” e reforçar a perseguição. Quem duvida que Polícia Federal, Ministério da Justiça, Procuradoria-Geral da República e STF colocarão em sua mira qualquer um que endosse, elogie ou até mesmo compartilhe as alegações de fraude, tratando-o como potencial instigador de um novo golpe? Flávio deveria saber disso mais que ninguém: foi a tese do “golpismo” que colocou seu pai na prisão em uma condenação sem crime. Seus adversários estão salivando para poder usá-la outra vez.
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Que Flávio acuse, isso sim, o abuso de poder político, que foi bastante real. Embora seja improvável a cassação da chapa de Lula no TSE, seria uma providência para marcar posição enquanto a oposição se prepara para as verdadeiras batalhas; a primeira delas ocorrerá no Senado, onde Davi Alcolumbre respira aliviado com a reeleição de Lula, que se torna o fiador de sua recondução à presidência da casa, na disputa marcada para fevereiro de 2027. Garantir que o Senado seja presidido, nos próximos dois anos, por um parlamentar da oposição, comprometido com o freio aos abusos do Supremo, cumprindo seu papel constitucional, deveria ser a prioridade absoluta, até porque o Centrão fisiológico já se movimenta para apoiar Alcolumbre, como fez a federação formada por União Brasil e PP.
Liderar a oposição, agora, exige mobilizar as dezenas de senadores de direita e centro-direita, os deputados dispostos a frustrar os planos do petismo e dar seguimento à ideia da CPI do Abuso de Autoridade, e os vários governadores (especialmente aqueles de estados importantes) eleitos na onda oposicionista. Não é hora de perder tempo com alegações de fraude que servem apenas para atiçar um regime autocrático, que joga sujo e pesado e que não perderá uma chance de esmagar a oposição que continua no Brasil. Apesar da derrota na disputa presidencial, o eleitor deu um presente ao país na forma de um Legislativo majoritariamente de direita e centro-direita, e é com essas armas que o jogo tem de ser jogado. De nada adiantará uma multidão de deputados e senadores cassados, presos ou expatriados.



