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Em evento, Lula diz que aborto é questão de saúde pública e que pauta da família é “atrasada”.
Em evento, Lula diz que aborto é questão de saúde pública e que pauta da família é “atrasada”.| Foto: Reprodução

Em ocasiões anteriores, na disputa pelo Palácio do Planalto, o petismo precisou esconder suas verdadeiras convicções para atrair eleitores moderados e convencer o mercado financeiro e o setor produtivo de que não era uma ameaça. Foi assim, por exemplo, que surgiram o “Lulinha paz e amor” de 2002 e a Dilma Rousseff autora de uma “carta ao povo de Deus” em 2010. Ambos terminaram vencedores e, uma vez no poder, negaram tudo o que haviam prometido – ainda que tenha demorado um pouco no caso de Lula, que chegou a respeitar o tripé macroeconômico herdado de FHC por alguns anos. Desta vez, no entanto, o petismo decidiu mostrar sem rodeios seu plano de destruir o Brasil em várias frentes, da econômica à moral.

Em debate promovido nesta terça-feira pela Fundação Perseu Abramo, vinculada ao PT, e pela fundação alemã Friedrich Ebert, o ex-presidente, ex-presidiário e ex-condenado defendeu escancaradamente a legalização do aborto no Brasil. “Aqui no Brasil não faz [aborto] porque é proibido, quando na verdade deveria ser transformado numa questão de saúde pública, e todo mundo ter direito e não ter vergonha. Eu não quero ter um filho, eu vou cuidar de não ter meu filho, vou discutir com meu parceiro. O que não dá é a lei exigir que ela precisa cuidar”, afirmou. A defesa do aborto foi tão explícita que o petista nem mesmo recorreu à ressalva hipócrita feita por tantos abortistas que invocam as próprias crenças religiosas (quando as há) para acrescentarem depois que não pretendem impô-las a todos os brasileiros, como se o aborto fosse uma questão puramente religiosa, quando na verdade é uma questão filosófica, ética e científica. Só posteriormente, falando a uma rádio do Ceará, Lula disse ser “contra o aborto”, mas insistindo no surrado bordão do “tema de saúde pública” tão usado pelos defensores da legalização.

Lula e líderes petistas deixam claro que não desejam para o Brasil nem a excelência moral, nem a prosperidade material

Os brasileiros que acompanham há tempos a trajetória de Lula e do PT não se espantam com a afirmação. O partido colocou a legalização do aborto entre suas plataformas oficiais em 2007, apenas formalizando o que já era bandeira antiga da legenda. Tanto Lula como Dilma tentaram facilitar o acesso ao aborto contornando o processo legislativo, por exemplo com portarias ministeriais e o famoso Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH3); tiveram ministros abortistas, como José Gomes Temporão (na Saúde) e Eleonora Menicucci (de Direitos para as Mulheres); e apontaram ministros do STF favoráveis à legalização, com destaque para Luís Roberto Barroso. A novidade está no fato de Lula falar sem rodeios sobre o tema antes da eleição, inclusive correndo o risco de alienar o eleitorado cristão mais conservador, um grupo que o petismo vinha cortejando até agora – e, para que fique bem claro o desprezo de Lula por esses brasileiros, o petista acrescentou, na mesma ocasião em que falou do aborto, que “essa pauta da família, pauta dos valores, é uma coisa muito atrasada”.

Um dia antes das falas de Lula sobre o aborto, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, participou de um jantar, a convite de um grupo de empresários que pretende ouvir os presidentes das legendas de todos os pré-candidatos à Presidência, e também não fez questão de esconder sua intenção de devastar economicamente o Brasil. “O clima foi cordial, mas o conteúdo foi horroroso”, disse um dos participantes à CNN Brasil, acrescentando que as plataformas defendidas por Gleisi lembravam muito a “nova matriz econômica” de Dilma, responsável pela recessão de 2015-16. A petista atacou as privatizações, a gestão da Petrobras e a reforma administrativa; apenas descartou uma revogação da reforma trabalhista de 2017 (embora o PT esteja ativamente buscando informações sobre movimento semelhante ocorrido na Espanha) e prometeu trabalhar com Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central – até porque não há outra opção, já que a autonomia do BC garante o cargo do presidente do órgão mesmo durante uma troca de governo.

A retórica estatizante de Gleisi no jantar apenas confirma todas as declarações anteriores de Lula e outros figurões petistas a respeito dos rumos que pretendem dar à economia, com destruição do teto de gastos; revisão de privatizações; ataques à reforma da Previdência, inclusive com direito a fake news; enfim, a segunda dose do veneno que fez adoecer gravemente o país poucos anos atrás. Novamente, surpreende que o petismo seja tão explícito na divulgação de suas reais intenções para a política econômica, já que a memória da recessão ainda é muito recente.

Analistas políticos tentarão buscar as razões pelas quais o petismo não faz mais questão de esconder suas reais plataformas, mas algo de bom pode ser tirado desse recente surto de sinceridade de Lula e dos demais petistas: nenhum eleitor genuinamente comprometido com o crescimento econômico e com a defesa da vida e da família poderá alegar desconhecimento do que está por vir caso Lula saia vencedor em outubro. O grau de maturidade civilizatória de uma sociedade se mede especialmente pela maneira como ela trata seus integrantes mais indefesos e inocentes, muito mais que pela riqueza de seu povo. Mas o PT deixa claro que não deseja para o Brasil nem a excelência moral, nem a prosperidade material.

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