Contra todas as evidências, crescem os índices de leitura juvenil. O fenômeno coloca uma boa questão a se discutir

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O mundo da cultura ganhou um novo problema, ainda que seja um pecado chamá-lo assim. Contra todos os prognósticos, os adolescentes e jovens estão lendo mais. Por enquanto, é o que se sabe – e é muito pouco – por uma razão muito particular: estuda-se pouco a leitura dessa faixa etária, como de resto a leitura dos adultos, posto que há uma cultura de valorizar a leitura dos pequenos, em especial a feita na escola, por considerá-la o único dos remédios.

Fomos apanhados de calças curtas pela boa notícia. As expectativas apontavam para uma fatalidade: apesar dos labores da escola, na medida em que crescem – e sem ver adultos lendo –, as crianças e adolescentes abandonam os livros, lançando-se num processo inconsciente de recusa. Se no mundo dos grandes não existe lugar para as letras, fazer parte desse mundo implica em ser também um não leitor. Essa explicação soa simplista, que seja dito. Prática de leitura não é assunto que se resolva com silogismos simples, pois há uma pá de condicionantes. Resta levantar hipóteses. Na última década, o Brasil avançou no ciclo básico, garantindo a permanência de mais e mais gente na escola. Esse processo deu um "empurrão" nos índices do ensino fundamental, ainda que seja público que avançamos pouco na qualidade. A escola, mesmo as particulares, continua ruim.

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Um multiplicado pelo outro, eis o ponto. Com mais gente na escola e por mais tempo, mais leitura – esse, sim, um prognóstico certeiro. Melhor que isso: essa pequena revolução se deu num curto espaço de tempo, algo como uma década, o que confirma a importância do trabalho concentrado, mesmo numa área tão sensível quanto essa.

Some-se a essa hipótese uma outra – a de que o surgimento da chamada nova classe média afetou os índices de leitura, o acesso à internet, os hábitos de lazer. Entre as demandas de consumo desses brasileiros estava a viagem, o carro, a roupa, a escola particular e, meio de contrabando, o acesso aos bens culturais, o que inclui o livro. É tão evidente que o setor editorial já trabalha com quatro categorias de leitores – o infanto-juvenil, o jovem adulto, o adulto novo e o crossover, palavra para se referir às obras que agradam quase todas as faixas.

Em tempos idos, o chamado livro infantil é que gozava de tamanha atenção. Mas não havia O diário de um banana, série de Jeff Kinney. A informação mais sólida que se tinha sobre um sucesso juvenil se chamava O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger – em 1951. Em 2013, a notícia pode não ser tão sofisticada, mas tem mais cifrões. A venda de livros para quem chegou aos primeiros fios de barba cresceu 24% em dois anos. A faixa representa 8,5% de tudo o que se vende nas livrarias, e todo mundo concorda que esse dado é bem maior.

A questão, contudo, precisa de podas. Dadas suas particularidades, a leitura extrapola as ondas econômicas e os avanços educacionais. Dependesse só da economia, poderia ir correnteza abaixo a qualquer instante. Um leitor bem formado resiste aos abalos das caixas registradoras, pois se trata de uma atividade simbólica, de sentido, de modo que a leitura juvenil tem a ver com a busca de significados. A juventude não está apenas gozando de mais dinheiro no bolso. Está procurando alguma coisa. Ou é isso ou ler é como mascar chicletes, o que não é verdade.

Uma das primeiras autoridades a chamar atenção a respeito é a antropóloga francesa Michèle Petit, autora de A arte de ler e de Os jovens e a leitura. Nesse último, acenou o fenômeno que agora se manifesta no Brasil. Destrinchou-o com precisão. Estudou as razões da leitura entre os temidos jovens da periferia de Paris e de outras grandes cidades francesas. Descobriu coisas simples – como a importância dos agentes de leitura e dos espaços públicos de leitura para que essa rapaziada se encontrasse com os livros. E complexas, como as ligações entre ler e encontrar a própria identidade em meio a um mundo hostil, mercantilizado e brutalizado. Em miúdos, para esses jovens, ler era resistir, descobrir o outro, descobrir-se.

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Se já parece bom o bastante para entender o Brasil, Petit foi ainda mais longe. Uma de suas conclusões é que os jovens com os quais conversou vinham de um fastio para com o sistema de ensino – voltado demais para o sucesso e viciado em conteúdos tecnocratas. Ler se tornou a única forma de prazer num universo de desprazer. Em outras palavras, os índices de leitura juvenil diziam sobre o gosto pela ficção, mas, nas entrelinhas, sobre o desgosto com a educação. Mirou no que viu, acertou no que não viu.

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