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Será exagero dizer que o Partido dos Trabalhadores está em cacos, porém a mais comedida análise da situação indica que se encontra muito próximo disso, a julgar pelo volume das trincas publicamente expostas.

O PT encontra-se numa encruzilhada difícil e isso requer tomada de decisão urgente e drástica, para o bem, acreditem, da própria imagem da política e dos políticos – interna e externamente. Os acontecimentos envolvendo membros e dirigentes do partido, incluindo-se integrantes do governo petista, criaram visível frustração nacional que vai muito além dos quadros partidários da agremiação que hoje encarna o governo e a condução do país.

Os mais de 52 milhões de votos que deram a Lula a Presidência da República não foram exclusivamente petistas, evidentemente. A parcela que pesou e certamente desequilibrou a eleição em 2002 representa o grande contingente de brasileiros que acreditaram na possibilidade de extirpar arraigados vícios e mazelas da nossa política; que apostaram na existência de um novo caminho para o país em termos políticos e administrativos. Os brasileiros deram o aval não apenas ao candidato pelo seu passado, mas igualmente ao seu partido, pelo currículo de atuação, propostas de políticas públicas e, acima de tudo, pela pregação de uma nova ética.

Lamentavelmente, a conduta demonstrada pelos dirigentes do PT – à luz dos fatos que se sucedem – provoca um grande sentimento de descrença do povo brasileiro que acreditou seriam banidas velhas e condenáveis práticas de barganhas políticas, de compra de votos, de caixa 2, de fraudes, de corrupção generalizada, tudo com recursos públicos que endemicamente faltam para atendimento a programas sociais. É grande o desencanto, qual os mais estarrecidos rotulam de "traição" ideológica.

Entretanto, maior indignação toma conta dos petistas autênticos – militantes, ideólogos, dirigentes, parlamentares, enfim os grandes e históricos nomes que fizeram o PT. Venderam com extrema convicção um novo tempo, uma política redesenhada, moderna e sobretudo ética. Passaram a esperança do fim de condenáveis estilos. Esses estão vendo agora seu passado de luta e incansável pregação ir por água (suja) abaixo, enxurrada causada em boa parte por novatos e alguns até obscuros "companheiros" que se agruparam após a conquista do poder e que contaram, senão com a conivência ao menos com a tolerância de nomes que se supunha estivessem acima de suspeitas.

Os preservados nomes do PT têm a tarefa de repensar o partido, evitar que as rachaduras o transformem num amontoado de cacos, pois se isto chegar a ocorrer será enorme a dificuldade para reconstruir o "graal" petista e o sonho da reeleição poderá ser sepultado, porque os estilhaços acabarão atingindo Lula. Analistas políticos mostram convicção de que a blindagem presidencial está cada vez mais frágil. O professor Carlos Alberto Di Franco admite que pode ter havido prevaricação de Lula e que se isso se confirmar "o presidente está ética e legalmente impedido de disputar um segundo mandato", analisa. Há ainda as projeções de que a crise política vai exercer efeito negativo na economia. O cenário positivo até agora pode mudar em 2006. Os jornais The Economist (inglês) Financial Times (norte-americano) já se ocuparam do tema – dificuldade da reeleição do presidente e desconfiança dos investidores estrangeiros por causa da crise. A respeito, o Brazil-US Business Council, que reúne executivos de multinacionais no país, manifestou "muita preocupação" com o fato de a economia emitir sinais de que pode ser afetada.

A possibilidade de "contaminação" do presidente tem nos últimos dias alimentado a tese de um possível acordo (entre PSDB e PT, a princípio) visando a uma emenda constitucional extinguindo o instituto da reeleição em todos os níveis do executivo – federal, estadual e municipal.

Investigação ampla e rigorosa, sem manobras impeditivas e salvaguardas injustificáveis de suspeitos e acusados; depois disso, punição exemplar de todos os culpados, independentemente de partidos, cargos, mandatos e hierarquias. Isto é o importante e necessário a fazer neste momento, para que o povo confie no processo democrático que tem de ser fortalecido, assim como as instituições nacionais. É a oportunidade de passar o país a limpo e não pode ser desperdiçada.

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