Procura é maior por imóveis com opções de lazer e que proporcionem mais qualidade de vida para quem trabalha em casa| Foto: Divulgação
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A manutenção de medidas restritivas e de distanciamento social por parte do governo do estado como forma de combate à pandemia de Covid-19 tem provocado um efeito colateral bastante comemorado pelo mercado imobiliário do Paraná. Com a massificação do trabalho remoto é cada vez maior o número de pessoas que, obrigadas a trabalhar em casa, buscam por residências com mais estrutura e opções de lazer. E essa busca por mais qualidade de vida para as famílias catapultou os preços de casas em condomínios e chácaras.

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Nem mesmo os terrenos nos condomínios escaparam dos efeitos do aumento da procura. Encontrar opções para venda está cada vez mais difícil em Curitiba, como aponta o gestor da imobiliária A. Gonçalves, Daniel Gonçalves. Segundo ele, a procura fez com que fossem comercializados imóveis que não eram considerados tão atrativos até o início do ano passado.

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“Tínhamos terrenos parados há mais de um ano, e nem eram tão bons assim do ponto de vista arquitetônico porque exigiam muito mais dos arquitetos para os projetos das casas. Esses imóveis foram vendidos, e teve casos de mais de um cliente querendo o mesmo terreno. Percebemos que teve e ainda está tendo esse movimento completamente natural por parte dos clientes, que se sentiram incentivados a buscar por esses produtos”, comentou.

Segundo Gonçalves, a chamada curva de venda – o tempo que leva entre um imóvel entrar no cadastro da imobiliária e a comercialização – de chácaras e terrenos era de um ano em média. Nos últimos cinco meses, porém, o estoque da imobiliária praticamente se esgotou. Tudo isso, ele garante, sem que a empresa fizesse uma divulgação ostensiva dos imóveis.

“Ficamos surpresos no meio da pandemia com a tendência do mercado e o comportamento do cliente. De fato, eles acabaram migrando, a gente vê um movimento muito grande para casas em condomínios fechados com infraestrutura. E não houve nenhum tipo de campanha ou ação comercial anunciando esses imóveis”, disse.

O foco de quem procura um imóvel, comentou o gestor, tem mudado aos poucos durante o último ano. A localização era um fator importante – não importava muito o tamanho do imóvel desde que fosse perto do local de trabalho. Agora, aponta Gonçalves, o mais importante é que a casa traga conforto aos moradores, independente de onde esteja localizada.

“A partir do momento em que se consegue trabalhar remotamente, não tem por que focar em um apartamento pequeno perto do trabalho quando se pode trabalhar de casa com qualidade de vida, com espaço, com quintal, grama e vista. A chave virou na cabeça do consumidor. Já que vai ter que trabalhar de casa, pelo menos que essa casa seja agradável. Ele quer ter conforto dentro de casa. A sensação de estar preso dentro de casa tem feito o cliente ter um comportamento de buscar mais qualidade de vida”, avaliou.

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A situação é semelhante no interior do estado. Em Londrina, o imobiliarista Raul Fulgêncio, que comanda a empresa que leva seu nome, afirmou à reportagem que esse movimento não é exclusivo para o mercado de imóveis de alto padrão. “De um modo geral, os clientes querem melhorar, seja saindo de um apartamento para uma casa seja trocando de apartamento por outro maior”, disse.

O estoque de terrenos em condomínios de casas em Londrina, alerta Fulgêncio, está próximo do fim. Isso porque, segundo ele, além da oferta de imóveis não suprir a demanda na cidade ainda há muita burocracia por parte do poder público na liberação de novos empreendimentos. “Temos projetos de novos condomínios que estão aguardando há anos nessa burocracia, e isso também ajuda nessa verdadeira explosão dos preços”.

Mudança de perfil

Daniel Gonçalves contou à Gazeta do Povo que a pandemia acabou mudando até mesmo o perfil de uso de alguns imóveis. A imobiliária na qual trabalha fez uma experiência com os proprietários de uma chácara, e durante uma consultoria a empresa sugeriu aos donos do imóvel que autorizassem o aluguel por diárias. O resultado, comemora o gestor, foi um sucesso.

“A propriedade é muito bonita”, explicou, “mas ficava fechada por muito tempo. A diária média foi colocada a R$ 1,9 mil e agora as locações simplesmente não param. As pessoas vão lá e ficam por dias, levam os amigos para aproveitar o lugar. Não tem serviços como os de hotéis, não tem café da manhã, as refeições são feitas pelos próprios clientes. Mesmo assim a procura tem sido muito grande.

Revolução imobiliária

Porto Rico é uma pequena cidade localizada no noroeste do Paraná, bem na divisa com o estado do Mato Grosso do Sul. A rotina dos pouco mais de 2,5 mil moradores, porém, deixou de ser pacata depois da pandemia. Isso porque o município está passando por uma verdadeira revolução provocada pela alta na procura das chácaras localizadas nas praias do Rio Paraná.

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Boa parte desse público vem de Maringá, a 160 quilômetros de distância de Porto Rico. Público esse que, segundo o gestor da imobiliária Pedro Granado, Teo Granado, desconhecia a existência da cidade até o fim dos anos 2010. Cenário bem diferente do observado em 2021, apontou o gestor.

“Hoje, quando se anda por lá, vê-se shoppings centers sendo construídos, supermercados sendo ampliados. Em apenas um dos condomínios de casas são 150 imóveis sendo construídos agora, ao mesmo tempo. São cerca de 1,1 mil funcionários trabalhando todos os dias só nessas construções. É quase metade da população da cidade. Então veja só a importância que esse movimento trouxe para o comércio local, que está sendo ampliado e melhorado. É uma revolução imobiliária que está transformando a cidade”, comemorou.

Toda essa revolução, claro, tem um preço. Os valores dos terrenos próximos às praias do Rio Paraná mais que dobraram no último ano. Imóveis que eram vendidos na faixa dos R$ 180 mil no início de 2020 agora se aproximam do meio milhão de reais. Mesmo assim, não é difícil encontrar quem esteja disposto a pagar todo esse ágio.

“Alguns desses imóveis, chácaras e casas em condomínios, não foram tão bem-sucedidos em seu lançamento. Seja por se localizarem em rios menores ou mesmo por falta de estrutura, eram classificados como muito difíceis de serem comercializados. Agora estão todos vendidos, não tem mais oferta. O que sobrou são imóveis muito bem precificados e que estão sendo negociados por pessoas dispostas a pagar mais, mesmo que em parte o comprador saiba que não vai conseguir uma valorização posterior à compra.

Antes tidos como verdadeiras joias do mercado imobiliário, os imóveis no litoral não enchem mais os olhos dos clientes, avaliou Granado. “Houve muitos voos cancelados, além da série de restrições para viagens para fora do estado. Há também a insegurança de se viajar centenas de quilômetros e encontrar as cidades litorâneas com medidas restritivas para os turistas. Isso provocou essa procura para imóveis mais próximos, onde o cliente tem a certeza de que vai poder usufruir da estrutura de lazer. Temos clientes que têm chácaras em Porto Rico que estão em isolamento há meses e que só vêm para Maringá para resolver questões que exigem a presencialidade, algo em cartório por exemplo. O restante do tempo passa trabalhando de casa”, comentou.

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Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]