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Morreu nesta terça-feira (18) o jornalista Francisco “Pancho” Camargo, um dos mais respeitados de sua geração. Camargo tinha 80 anos e estava internado no Hospital Zilda Arns, em Curitiba. Ele teve complicações por causa de uma pneumonia.
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Francisco "Pancho" Camargo trabalhou por décadas na Gazeta do Povo, além de ter passado por diversos veículos de comunicação, como Correio de Notícias, Tribuna do Paraná e O Estado do Paraná.
“Camargão cumpriu a pauta por aqui e foi transferido para a sucursal lá de cima. Dentro do possível, estamos tocando o barco”, disse Fabiano Camargo, filho de Francisco, que também é jornalista. A família ainda não divulgou detalhes sobre velório e sepultamento.
Francisco "Pancho" Camargo assinou charges durante a maior greve de jornalistas do Paraná
Francisco Camargo carregou dois nomes na trajetória: o de jornalista, que assina reportagens, títulos e décadas de redação, e o de Pancho, apelido de infância inspirado no revolucionário mexicano Pancho Villa, que batiza suas charges e tiras. Os dois conviveram desde 1963, quando o então “meninote” fazia bico numa sucursal do jornal Última Hora, em Curitiba, e passou a assinar charges durante a maior greve de jornalistas já registrada no Paraná.
A estreia oficial, porém, veio em 1º de março, data em que Camargo completou 40 anos de carteira assinada na profissão. Entre uma redação e outra, o jornalista construiu fama de “tituleiro” — autor de manchetes certeiras que colegas ainda citam de cor — e de cronista do cotidiano por meio de suas tiras, que ganharam espaço fixo em diferentes jornais paranaenses ao longo das décadas.
O efeito do humor é mais destrutivo do que a crítica direta.
Francisco “Pancho” Camargo
Quem acompanhou de perto essa trajetória mais recente foi Alexandre Luis De Mari, ex-editor de arte da Gazeta do Povo e hoje diretor de inovação no Estúdio Thapcom. De Mari chegou à redação para substituir um colega próximo de Pancho — e sentiu na pele o que era herdar aquele posto. “Para o Pancho, eu não era o novo talento. Eu era um intruso”, relembra.

O choque de hierarquia veio cedo. Ao tentar “modernizar” a diagramação da capa por orientação da chefia, De Mari foi arrastado por Pancho até a mesa do então diretor de redação, Nelson Souza Filho, para ouvir um recado direto: quem mandava na capa era Camargo. “Naquele segundo, fui de jovem motivado a quase demitido em menos de cinco minutos”, conta.
A relação mudou de patamar depois de um erro do próprio De Mari, que publicou a data errada na capa do jornal — o deslize virou piada ao vivo no rádio. Temendo demissão, ele encontrou em Pancho um aliado inesperado.
“O Pancho prontamente me defendeu. Assumiu a responsabilidade junto comigo, dizendo que o erro também era dele por não ter visto”, relata. Dali em diante, os dois construíram uma amizade que resistiu ao tempo — De Mari chegou a ser convidado para a festa de aniversário de Camargo, o que, segundo ele, tem peso simbólico entre quem é de Curitiba.
Para De Mari, o Pancho das tiras carregava um humor “estilo britânico: ácido, inteligente, refinado” — reservado aos mais próximos e usado, muitas vezes, para equilibrar a fama de chefe durão que Camargo carregava na redação.
Rolmops, Catchup e o gosto pela crônica do dia a dia
As tiras de Camargo nasceram em 1987, no Correio de Notícias, e ganharam periodicidade diária anos depois, na Gazeta do Povo. Os personagens Rolmops e Catchup — dois mendigos que observam o mundo à beira de uma fogueira — foram inspirados no romance “Crônica dos Pobres Amantes”, de Vasco Pratolini, com uma pitada do absurdo característico de Dino Buzzati, autor de “O Deserto dos Tártaros”.
Camargo dizia se reconhecer nos personagens que criava. “Eu me enxergo nos personagens na medida em que me envolvo com eles e recorro ao desenho também para poder encarar a realidade, já que viver é muito perigoso”, disse em certa ocasião.
A inspiração vinha de caminhadas pelo bairro, de conversas com amigos e da observação do cotidiano — matéria-prima que também alimentava seu apreço declarado pelo poder do humor. “O efeito do humor é mais destrutivo do que a crítica direta”, resumiu.
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