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Parque Tingui ganha nova iluminação na pista de corrida. – Curitiba, 23/10/2018 – Foto: Daniel Castellano / SMCS
Para urbanistas, a pandemia mostrou a importância de investimento em espaços públicos, como parques, praças, ciclovias e até ruas.| Foto: Daniel Castellano/SMCS

A pandemia do novo coronavírus trouxe mudanças na organização social que devem permanecer nos ambientes urbanos, como um menor fluxo viário, a revalorização das unidades de vizinhança e uma tendência a busca por imóveis residenciais maiores. De outro lado, tornou evidente questões como a desigualdade socioespacial e a importância do uso dos espaços públicos como ambiente de convívio, segundo arquitetos e urbanistas ouvidos pela Gazeta do Povo.

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“Ficaram escancaradas algumas velhas pautas, que precisam ser levadas em consideração pelos gestores públicos”, diz o arquiteto e urbanista Alessandro Filla Rosaneli, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na opinião do pesquisador, a primeira delas diz respeito à importância de se colocar na agenda política o investimento em espaços públicos – praças, parques, calçadões e até ruas –, que passaram a ser mais valorizados com o fechamento de ambientes privados como medida preventiva à Covid-19. “Os humanos são seres sociais, que precisam se relacionar. Desde o primeiro assentamento humano, há 12 mil anos, sempre houve a necessidade desses ambientes.”

“Quando falamos em um shopping ou uma igreja, espaços onde as pessoas também convivem, há uma diferença, porque existe um controle, seja em relação aos horários de acesso, a quem pode entrar, com que roupa você precisa estar vestido. O público é mais homogêneo.”

A polarização do debate sobre as estratégias de combate à pandemia também tem influência desse cenário. “Sem um lugar de encontro das diferenças, de aprendizado com o outro, dificulta-se o exercício da tolerância. O passo seguinte são as pessoas se isolarem em suas bolhas, frequentando apenas espaços privados, clubes, associações, grupos que pensam de maneira igual.”

Desigualdade socioespacial

Embora Curitiba seja reconhecida por seus parques e praças, Rosaneli avalia que os espaços são mal distribuídos pela cidade, trazendo à tona o segundo tema escancarado pela pandemia: a desigualdade socioespacial. “É muito mais comum achar uma praça mais bem desenhada, mais cuidada e mais preparada em áreas onde a população tem renda mais alta”, diz.

A opinião é corroborada pelo também arquiteto e urbanista Carlos Hardt, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “Comparando com outras cidades brasileira, Curitiba é privilegiada em termos de quantidade de espaços públicos disponíveis. Ainda assim, percebemos que muitos estão subutilizados”, avalia.

“Nesse sentido, podemos ter um círculo virtuoso ou vicioso: na medida em que o poder público investe nesses espaços, a sociedade os utiliza cada vez mais e o poder público é incentivado a investir ainda mais”, explica Hardt. “Por outro lado, uma área degradada passa a ser evitada pelas pessoas e, com isso, determinados grupos se sentem livres para degradarem ainda mais.”

Mobilidade urbana

Para Rosaneli, o fato de a pandemia ter afetado de forma mais grave populações das periferias mostrou como cidades como Curitiba estão organizadas de forma desigual. “As pessoas sempre andaram esmagadas nos ônibus, transmitindo outras doenças virais que não a Covid-19, mas agora começamos a pensar que é um problema a ser resolvido.”

Nesse sentido, o investimento na mobilidade ativa, como em calçadas mais confortáveis, ciclorrotas e espaços para a circulação de skates e patinetes seria uma alternativa para uma maior democratização do uso da cidade. “Com a pandemia, o poder público de uma certa forma teve uma sinalização muito forte das vantagens de privilegiar deslocamentos não motorizados”, diz Carlos Hardt.

“Se eu otimizar esse deslocamento, terei espaços públicos que podem e devem privilegiar aqueles que, em um segundo momento, reforçam a valorização do local, que são os pedestres e o ciclistas. Vale muito mais a pena ter um investimento de espaços públicos destinados a isso. O resultado disso é uma cidade muito melhor sob o ponto de vista humano.”

Para Hardt, a migração de trabalhadores para o home office, a realização de reuniões remotas em substituição às presenciais e a valorização dos comércios locais devem refletir em mudanças na mobilidade nas grandes cidades. “O fluxo viário é minimizado e as pessoas utilizam o tempo do deslocamento para produzir. Se você multiplicar isso pelo número de cidadãos que passaram por essa mudança, isso representa um ativo enorme para a cidade.”

Outra consequência da mudança nas rotinas de trabalho provocada pela pandemia ocorre no mercado imobiliário. “Tínhamos uma tendência de termos unidades habitacionais cada vez menores, restritas praticamente à atividade de dormir. Isso muda se eu estou trabalhando em casa. Novos empreendimentos já começam a levar em conta essa mudança de perfil”, explica o pesquisador da PUC-PR.

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