Aulas mediadas por tecnologia são vistas como oportunidade para estudantes de cidades menores, aponta secretário.| Foto: Pixabay / Amr
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Estabelecer parcerias e aumentar ainda mais o uso de tecnologia nas salas de aula são duas das principais estratégias dentro do plano de ação do novo secretário de Educação do Paraná, Roni Miranda, para manter o Paraná como referência na Educação no Brasil. Mas ainda há alguns obstáculos e gargalos a serem superados no setor no Estado, como admitiu o próprio secretário à Gazeta do Povo.

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Um desses desafios é vencer a resistência criada por parte do quadro de docentes do Estado com a gestão da pasta. Não raro, o antigo titular e hoje secretário estadual de Educação de São Paulo, Renato Feder, recebia críticas da categoria por ter uma forte presença na iniciativa privada antes de assumir a Educação no Paraná. Para Miranda, o fato de ser do quadro próprio de docentes do Estado pode tornar a relação com os professores mais próxima.

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“Espero que eu encontre menos resistência. A gente sempre trabalha com otimismo, mas eu acredito que aqui vai ter uma resistência sim. Vai ter, porque a gente vive num país democrático, de livres opiniões. Então, tem pessoas que pensam diferente, e isso faz parte do jogo. E tem também pessoas que apoiam nossa política própria. Recebemos muitas mensagens dos professores avaliando que o que foi feito na gestão anterior era o caminho que tinha que ser seguido. Tanto é que era o caminho certo que a gente se tornou a melhor educação do Brasil”, reforçou.

Tecnologia para recuperar as perdas da pandemia

Recuperar as perdas ocorridas durante o período mais crítico da pandemia é outro ponto de grande atenção do novo secretário. Para isso, pontuou Miranda, foi necessário trazer novas ferramentas educacionais para dentro da sala de aula. Fortemente baseadas no uso de tecnologias digitais, as soluções adotadas pela secretaria novamente despertaram uma série de críticas – uma delas ocorrida após o anúncio da adoção da disciplina de Pensamento Computacional e a interação com o ensino de Artes na rede pública do Estado.

A estratégia se justifica, segundo o secretário. Isso porque, na avaliação da pasta, quando foi necessária a transição para um modelo de aulas remotas a esperada familiaridade dos jovens com a tecnologia, como os celulares e as aulas online, se mostrou diferente do esperado. “Eles eram consumidores passivos conteúdos de redes sociais, eles não dominavam a tecnologia”, avaliou Miranda.

Secretaria investiu em livros digitais

Para contornar o problema, os acessos e a produção de conteúdos digitais serão intensificados nas escolas e colégios do Paraná. Um desses programas anunciados pelo secretário é o “Leia Paraná”, que tem como objetivo aumentar o interesse pela leitura entre as crianças e os adolescentes.

Segundo Miranda, uma pesquisa feita junto à comunidade escolar identificou quais títulos mais chamavam a atenção dos estudantes. Alguns desses livros, então, foram adquiridos no formato digital, e serão disponibilizados por meio de aplicativos aos alunos das escolas estaduais. E para avaliar o conhecimento adquirido no processo de leitura, os professores aplicarão pequenos testes, de acordo com cada obra, conforme os alunos forem avançando.

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“A gente trouxe esses livros para dentro da sala de aula porque queremos criar nos estudantes o gosto pela leitura. E como se cria esse gosto? Com uma leitura prazerosa, não algo forçado. Na minha época de escola os professores pediam a leitura de livros muito densos. São clássicos, muito importantes na formação do ser humano, mas às vezes nós não estávamos preparados para aquilo”, comentou.

Tarefa de casa 2.0

Outro dos programas prometidos pelo secretário é o “Desafio Paraná”, uma releitura das clássicas, mas nem sempre queridas, tarefas de casa. Todos os dias, após as aulas, aos estudantes serão apresentadas cerca de 10 questões sobre cada um dos conteúdos aprendidos em sala de aula, tudo por meio digital. A plataforma, baseada no celular, foi a forma encontrada pela secretaria para fazer com que os estudantes dediquem um pouco mais de tempo ao aprendizado, mesmo fora das salas de aula.

Miranda explicou à reportagem que as questões não devem seguir um formato mais simplista de “verdadeiro ou falso”. Ao contrário, reforçou o secretário, serão perguntas de interpretação, interativas e voltadas ao real aprendizado por parte dos estudantes. “Nessa lição de casa eu quero garantir a aprendizagem, e por isso são necessárias perguntas que levem o estudante mais à reflexão. Ao mesmo tempo, tem que ter um feedback do que ele acertou, porque acertou, e se ele errou, porque ele errou aquela questão”, detalhou.

Aulas "mediadas por tecnologia" são oportunidade para estudantes, diz secretário

Tecnologia digital também é o motor por trás de uma das iniciativas mais contestadas da última gestão da Secretaria Estadual de Educação (Seed) do Paraná, a “parceirização” com uma universidade particular para as aulas de cursos técnicos. O modelo previa que cada professor da universidade fosse responsável, junto a uma equipe de auxiliares, de até 600 estudantes de cada vez por meio de aulas online. A secretaria reconheceu falhas no modelo, mas a reformulação do projeto é defendida por Miranda.

Segundo ele, as “aulas mediadas pela tecnologia” continuarão a ser a principal opção em locais onde não haja oferta de profissionais capacitados para ministrar as aulas presenciais aos alunos. Miranda classificou o projeto como sendo uma oportunidade para dar acesso a um conteúdo que se outra forma não chegaria aos estudantes.

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“Em cidades pequenas do interior e até mesmo na Região Metropolitana de Curitiba há algumas dificuldades em se ter esses profissionais especializados nesses cursos. Nossa meta, nosso alvo, é sempre ter professores em sala de aula. Onde eu não tiver esse professor, por quaisquer motivos, eu vou usar outros meios para atender os estudantes. Se eu nego essa possibilidade de ter um curso técnico mediado por tecnologia, eu estou podando esse estudante. Não estou dando oportunidade para o futuro dele. Essa é a nossa percepção, se tem o professor, vai ser o professor. Se eu não tenho professor, eu também não posso impedir o meu estudante de ter acesso a um curso técnico”, avaliou.

Pontos focais nas escolas vão ajudar crianças vítimas de violência

Em alguns casos, porém, nem mesmo toda a tecnologia e as ferramentas digitais disponíveis são capazes de ajudar no processo de aprendizagem dos alunos. Crianças que convivem com um ambiente de violência, por exemplo, têm mais dificuldade de aprender. Essa é uma das constatações de pesquisas feitas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), de que a violência contribui para a queda no desempenho dos estudantes.

Miranda esclareceu que o Paraná, segundo ele, tem um dos maiores programas de atendimento a crianças vítimas de violência do país. Um trabalho conjunto entre Ministério Público, Assistência Social e as secretarias de Segurança Pública, Justiça e a própria Educação faz com que casos em que haja faltas frequentes sejas imediatamente reportados ao Conselho Tutelar, que fará o primeiro atendimento.

Uma ação está prevista pelo secretário para o ambiente escolar no ano letivo de 2023. De acordo com Miranda, serão criados “pontos focais” de atendimento em casa unidade da rede pública de ensino. “A escola é a grande fonte de escuta do estudante. Onde é que se identifica mais prontamente casos de violência sexual ou agressão física? É na escola. E esses pontos focais vão servir como bases do trabalho de escuta e encaminhamento, seja para a Polícia, seja para o Conselho Tutelar, seja para assistência social ou psicológica”, concluiu.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]
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