Em novembro do ano passado, Marielle participou de um evento sobre a participação de mulheres na política| Foto: Reprodução/Facebook

Mulher, negra, nascida e criada na favela da Maré. A trajetória de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL assassinada na noite de quarta-feira (14), não foi ordinária. Eleita logo em seu primeiro pleito, em 2016, foi a 5ª parlamentar mais votada da capital fluminense, com 46,5 mil votos e a promessa de dedicar o mandato às causas feministas e dos direitos humanos.

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Chegar à Câmara de Vereadores parecia um passo natural no caminho de sua militância. Marielle cursou sociologia na PUC-Rio, graças a uma bolsa integral. Depois, fez mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF). A sua dissertação analisou o cenário de favelas, violência e tentativa de retomada do poder por parte do Estado: o tema foi “UPP: a redução da favela a três letras”. Ela ainda trabalhou em organizações da sociedade civil, como a Brasil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré. Antes de se tornar vereadora, foi assessora do deputado estadual Marcelo Freixo, e coordenou a Comissão de Defesa do Direitos Humanos e Cidadania na Assembleia Legislativa do Rio.

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Marielle afirmava que ocupar a política era fundamental para reduzir as desigualdades. Ela iniciou a militância ainda jovem. Participava de um pré-vestibular comunitário quando perdeu uma amiga, vítima de uma bala perdida durante um tiroteio entre traficantes e policiais, no Complexo da Maré.

O combate à violência policial foi uma de suas bandeiras ao longo do curto mandato. Horas antes de ser morta, questionou uma morte suspeita de um jovem. Matheus Melo, de 23 anos, foi baleado na segunda (12) quando saía da favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio. A família acusa policiais pela morte do rapaz. Matheus era evangélico e trabalhava na Fundação Oswaldo Cruz. “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, escreveu.

Alguns dias antes, a vereadora denunciava a violência na favela de Acari . “O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E acontece desde sempre!”, lamentou.

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No mês passado, ela foi nomeada relatora da comissão que acompanhará a intervenção federal no Rio. Marielle era contra a ação do governo federal. Em entrevista, ela disse que a intervenção militar era “farsa”. “E não é conversa de hashtag. É farsa mesmo. Tem a ver com a imagem da cúpula da segurança pública, com a salvação do PMDB, tem relação com a indústria do armamentismo”, disse a vereadora.

Em discurso na Câmara, Marielle lembrou da realidade dos moradores de favelas. “Quero dizer que vivi na Maré a intervenção militar, por 14 meses. Os favelados e faveladas sabem exatamente o que é o barulho do tanque na sua porta”, afirmou. A vereadora ainda frisou o custo dessa ação: mais de R$ 600 milhões. “Sem contar o valor da vida das pessoas (...), com todas as mortes, a quem é apresentada essa conta? Qual é o custo dessa intervenção?”, questionou. O discurso foi feito no dia 20 de fevereiro.

O feminismo, outra bandeira cara, também lhe garantia um espaço de protagonismo na Câmara. Ela era presidente da Comissão de Defesa das Mulheres e dos menos favorecidos. A militância feminista veio aos 19 anos, quando tornou-se mãe de uma menina. “Isso me ajudou a me constituir como lutadora pelos direitos das mulheres e debater esse tema nas favelas”, afirmava na apresentação em seu próprio site.

Um de seus últimos discursos disponíveis no site da Câmara dos Veradores do Rio foi justamente sobre o Dia da Mulher. “Neste dia 8 de março, ocupando uma das apenas sete cadeiras aqui do Parlamento Municipal, precisamos sempre nos perguntar: o que é ser mulher? O que cada uma de nós já deixou de fazer ou fez com algum nível de dificuldade pela identidade de gênero, pelo fato de ser mulher? A pergunta não é retórica, ela é objetiva, é para refletirmos no dia a dia, no passo a passo de todas as mulheres, no conjunto da maioria da população, como se costuma falar, que infelizmente é sub-representada”, disse.

Ela ainda falou sobre a intervenção e a violência em seu discurso, inclusive sobre armamento da população e o despreparo de agentes da lei em manusear armas. “Em tempo de violência e de negação de direito, ter mais armas vai ser uma retirada de direitos”, declarou.

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Luto

Marielle morreu aos 38 anos e deixa uma filha. Seu corpo será velado a partir das 11h desta quinta-feira, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Vários atos de protesto foram convocados pelo País. Há chamadas para manifestações em São Paulo, Salvador, Recife, Brasília, Belo Horizonte, Belém, Juiz de Fora (MG), Porto Alegre, Florianópolis, Natal, Curitiba e Campos dos Goytacazes (RJ). Na capital fluminense, foi organizado um ato a partir das 10h, na praça da Cinelândia, em frente à Câmara Municipal do Rio.