Moro fez uma explanação inicial de 22 minutos, em que procurou esclarecer controvérsias surgidas após o anúncio de que assumirá o Ministério da Justiça.| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

O juiz federal Sergio Moro concede na tarde desta terça-feira (6), em Curitiba, uma entrevista coletiva à imprensa, a primeira desde que aceitou o convite para ser ministro da Justiça no governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Cerca de 60 jornalistas foram credenciados para participar da entrevista, que começou pontualmente às 16 horas na sede da Justiça Federal na capital paranaense.

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Moro fez uma explanação inicial de 22 minutos, em que procurou esclarecer algumas controvérsias surgidas após o anúncio de que assumirá o ministério. Disse que aceitar o convite “não é um projeto de poder”, mas “de tentar fazer a coisa certa”.

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“A ideia aqui não é um projeto de poder, mas sim um projeto de fazer a coisa certa num nível mais elevado, em uma posição que se possa realmente fazer a diferença e se afastar de vez a sombra desses retrocessos”, afirmou.

“O objetivo é no governo federal realizar o que não foi feito, com todo respeito, nos últimos anos e buscar implantar uma forte agenda anticorrupção e aqui eu agregaria, porque é uma ameaça nacional, uma forte agenda também anticrime organizado.”

Afirmou que conheceu Bolsonaro, de fato, no dia em que o visitou, no Rio de Janeiro, e que teve apenas um encontro casual no aeroporto (em 2016), quando nem sequer o reconheceu. “Houve uma certa exploração desse encontro por seus adversários como se tivesse ignorado o então deputado, mas tudo foi esclarecido depois em uma ligação que fiz para ele”, disse.

Moro afirmou que foi procurado pelo futuro ministro da Economia Paulo Guedes via telefonema no dia 23 de outubro, cinco dias antes da votação em segundo turno, que fez uma sondagem sobre um possível interesse de Moro a participar do governo. “Disse a ele que era preciso esperar o resultado das eleições”, garantiu, deixando a porta aberta.

Sobre acusação de interferência nas eleições

O juiz também explicou que o fato de ele assumir um ministério não guarda qualquer relação com o processo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi “condenado por um crime e não por causa das eleições”.

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“Sei que alguns eventualmente interpretaram a minha ida [ao ministério] como uma espécie de recompensa. É algo absolutamente equivocado, porque minha decisão [que condenou Lula] foi tomada em 2017, sem qualquer perspectiva de que o então deputado federal [Bolsonaro] fosse eleito presidente da República”, declarou o juiz.

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“O que existe é um crime que foi descoberto, investigado e provado. As cortes de justiça apenas reconheceram esse fato e impuseram a pena da lei. Apenas cumpriram seu dever.” Lula foi impedido de concorrer a um novo mandato no Planalto por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que permitiu a prisão após condenação em segunda instância, e pelo juízo do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que o sentenciou em segundo grau, abrindo caminho para a execução da pena de 12 anos e um mês de detenção a que o ex-presidente foi submetido.

“Eu não posso pautar minha vida com base numa fantasia, num álibi falso de perseguição política”, afirmou Moro. O futuro ministro declarou ainda não haver “a menor chance de utilização do ministério para perseguição política”.

Medidas anticorrupção e Lava jato

Em seguida, Moro afirmou que, uma vez no ministério, pretende resgatar parte do projeto das dez medidas contra a corrupção no Congresso Nacional, que foi profundamente modificado pelos parlamentares, e que deseja usar o modelo de investigação da Lava Jato no combate ao crime organizado.

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O juiz não quis antecipar nomes para compor sua equipe, mas afirmou que planeja sim levar pessoas que trabalharam na Lava Jato para o Ministério da Justiça. Ele ainda elogiou a juíza Gabriela Hardt, que assumiu seu lugar na condução dos processos da Lava Jato na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba.

Em seguida, passou a responder a perguntas dos jornalistas.Indagado sobre se combinou com Bolsonaro a indicação para o Supremo Tribunal Federal, quando uma vaga for aberta, o que deve acontecer em 2020, Moro disse que não houve nada disso. “ Não estabeleci condições para assumir o ministério, conversei com o presidente eleito sobre uma pauta de convergências. E, não é nenhuma censura a sua pergunta, mas não há no momento uma vaga aberta no STF”, disse.

Esta é a primeira vez que Moro concede uma entrevista coletiva desde que a operação Lava Jato teve início. O juiz está de férias desde quinta-feira (5) e deve pedir exoneração da carreira na magistratura em janeiro.