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O homem condenado por um assassinato no Maranhão que fez o caso subir para o Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro Flávio Dino, também do estado, afirmou em depoimento que tinha trânsito livre no gabinete do governador, Carlos Brandão (MDB-MA), de um grupo político rival ao do magistrado.
De acordo com uma apuração da TV Globo e do G1, Gilbson Júnior afirmou que mantinha reuniões com o governador e o sobrinho, Daniel Brandão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA) que foi afastado das funções por Dino nesta semana. Ele ainda relatou supostos pagamentos de dinheiro para manter silêncio sobre o assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, crime que, segundo investigações, pode estar ligado à disputa por propinas.
O depoimento foi prestado em 24 de junho de 2025 a uma delegada da Polícia Federal e a um procurador da República, quando o caso ainda tramitava no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Carlos e Daniel Brandão negaram qualquer relação com Gilbson e se colocaram “à disposição das autoridades e do Poder Judiciário para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários” (veja mais abaixo).
No depoimento sigiloso prestado à Polícia Federal, Gilbson afirmou que começou a se aproximar de Carlos Brandão em 2021, quando ele ainda era vice-governador de Dino, e que passou a frequentar o Palácio dos Leões para reuniões.
“Eu tinha uma vaga no Palácio dos Leões. Eu chegava, entrava, a vaga número 6, aí sempre era registrado em ata a minha visita, mas, geralmente eu falava pro Daniel, e eu entrava pela área de vivência do governador, aí subia a escada, aí tinha um salão”, afirmou.
Segundo ele, Brandão teria posteriormente passado a chamá-lo para reuniões e o colocado em contato com Daniel Brandão. A aproximação teria começado por negociações envolvendo terras, mas, de acordo com Gilbson, posteriormente surgiu uma cobrança relacionada a dinheiro que teria sido pago por uma empresa ao governo estadual. Ele afirmou que parte do valor deveria retornar ao grupo político ligado a Brandão, mas que uma dívida trabalhista bloqueou os recursos.
Gilbson contou que Daniel Brandão teria participado de uma reunião no complexo empresarial Tech Office, em São Luís, onde João Bosco também estava presente, e que houve cobrança pelo dinheiro. Segundo seu relato, após ameaças, ele sacou uma arma e matou Bosco com três tiros.
Depois do crime, Gilbson afirmou ter recebido orientação para se entregar e permanecer em silêncio, com a promessa de que seria solto posteriormente. Ele também disse que sua família passou a receber dinheiro em espécie.
“No começo era quarenta mil [reais], pra mim nem sair de casa. Depois que o Brandão se elegeu aí caiu pra trinta, por último só tava quinze mil por mês”, pontuou.
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Gilbson ainda citou o ex-secretário de Segurança Pública, Raimundo Cutrim, o advogado Flávio Costa (que foi nomeado desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão em 2026 por Carlos Brandão) e outros investigados como intermediários dos supostos pagamentos. Em outro trecho, afirmou que recebeu uma ligação de Marcus Brandão, irmão do governador, enquanto estava preso, e ouviu que “vai dar tudo certo” se os nomes de Carlos e Daniel não fossem mencionados.
A Polícia Federal também apontou que imagens de câmeras do local do assassinato existiam, mas que a Polícia Civil do Maranhão não teria identificado Daniel Brandão como participante da reunião que antecedeu o crime. Gilbson, por sua vez, afirmou que seu primeiro depoimento à polícia foi uma “armação” e que recebeu orientação para não mencionar Daniel.
“Quando eu fui me apresentar na delegacia, que eu cheguei lá, já tava tudo armado. O delegado, todo mundo. O delegado até escreveu um nome no papel assim em branco [...] ele escreveu assim: Não bota o nome, não fale Daniel. Aí botou em cima da mesa, assim, virado”, citou.
Carlos e Daniel Brandão negam relação
Em uma nota à imprensa e uma mensagem nas redes sociais, o governador Carlos Brandão negou ter relação com Gilbson e rejeitou as acusações por suposta ligação com o crime.
“Nunca tive relação com esse condenado confesso. Nunca o recebi no Palácio, nem em qualquer lugar”, afirmou o governador, classificando os relatos como “mentirosos” e sem provas.
Daniel Brandão também declarou “absoluta inocência” e afirmou que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. Em relação ao seu afastamento do TCE-MA, declarou ter “perplexidade” e “absoluta inocência”.
“Embora discorde profundamente da medida adotada, cumprirei integralmente a decisão judicial, ao mesmo tempo em que adotarei, pelos meios legais, todas as providências cabíveis para exercer plenamente meu direito de defesa e demonstrar a verdade dos fatos”, pontuou.
O desembargador Flávio Costa, citado no depoimento como suposto intermediário de pagamentos, não havia se manifestado sobre as acusações até a publicação da reportagem.
O que dizem os citados
Veja abaixo na íntegra o que disse Carlos Brandão sobre o depoimento de Gilbson Júnior:
Recebo com indignação a acusação de que eu seria chefe de uma organização criminosa, e de que recebi valores de um criminoso dentro do Palácio. Isso é inadmissível!
É revoltante ver que o depoimento de um réu confesso, que cumpre pena por um assassinato em local público e que mudou a versão sobre o caso, está pautando a discussão, sem qualquer questionamento sobre sua credibilidade ou veracidade. Não há sequer uma prova de todas essas inverdades que estão sendo ditas.
Tenho 35 anos de vida pública e até antes do rompimento entre grupos políticos, nunca tinha respondido a nenhum processo. Foi só depois disso que passei a ser alvo de acusações e ações judiciais. Tudo que construí na vida – minha trajetória, minha família, meu patrimônio – foi com muito trabalho. Não aceito que queiram jogar minha história na lama.
Destaco que minha defesa continua não tendo acesso à integralidade dos autos do inquérito. Mesmo assim, seletivamente, foram publicizadas três decisões.
Destas, me chamou atenção o fato de que a própria Procuradoria-Geral da República se manifestou no sentido de que este caso não deve ser conduzido pelo Supremo Tribunal Federal.
Tenho serenidade de que a verdade vai prevalecer. Inclusive, enquanto governador, tenho mais de 70% de aprovação. Por isso, sigo focado no que sempre fiz ao longo de toda a minha vida pública: trabalhar muito pelo povo do Maranhão.
Veja o que disse Daniel Brandão sobre seu afastamento do cargo:
Tomei conhecimento, por meio da imprensa, da decisão que determinou meu afastamento do cargo de Conselheiro-Presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão. Embora ainda não tenha sido oficialmente intimado de seu teor, recebo a notícia com profunda perplexidade.
Reafirmo, de forma serena e categórica, minha absoluta inocência e minha confiança de que a verdade dos fatos será devidamente esclarecida. Desde o início, sempre estive e continuo inteiramente à disposição das autoridades e do Poder Judiciário para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários, tendo, inclusive, peticionado espontaneamente nos autos, colocando-me à disposição para ser ouvido.
Sempre pautei minha atuação pelo respeito às instituições e ao Poder Judiciário. Por essa mesma razão, embora discorde profundamente da medida adotada, cumprirei integralmente a decisão judicial, ao mesmo tempo em que adotarei, pelos meios legais, todas as providências cabíveis para exercer plenamente meu direito de defesa e demonstrar a verdade dos fatos.








