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novos comandantes das Forças Armadas.
Bolsonaro escolheu os novos comandantes das Forças Armadas: na foto,(da esq. p/ dir) o general Paulo Sérgio Nogueira, o ministro da Defesa, Braga Netto, o almirante Almir Garnier Santos e o brigadeiro Carlos Baptista Júnior.| Foto: Palácio do Planalto

A crise militar decorrente da demissão do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e dos três comandantes das Forças Armadas, ainda não está estancada. Militares do governo dizem que foi maior do que, de fato, transpareceu. Dentro da instituição, o sentimento sobre o episódio é de que a crise continua aberta e com sequelas.

A leitura feita por interlocutores militares do Executivo federal ouvidos pela Gazeta do Povo é de que as mudanças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro desagradaram a cúpula do Exército, da Marinha e Aeronáutica, e não todos os militares, sobretudo as "bases".

A avaliação de militares nas Forças é de desconfiança em relação a Bolsonaro. O argumento é de que o presidente foi desleal com o general Fernando Azevedo e Silva, ex-ministro da Defesa, e com os comandantes demitidos: general Edson Leal Pujol, do Exército; almirante Ilques Barbosa Júnior, da Marinha; e brigadeiro Antonio Carlos Bermudez, da Aeronáutica.

O que dizem militares em posições no governo

No governo, o discurso é de que boa parte da base não se incomodou com as mudanças. As bases das Forças Armadas, explicam assessores oriundos da instituição em postos no governo, é composta, majoritariamente, por praças (soldados a subtenentes, no caso do Exército) e parte dos oficiais (aspirantes até generais, no caso do Exército).

“A maior parte, apesar de tudo, apoia o presidente, talvez não entusiasticamente como no início, mas continua apoiando, porque vê que tem um inimigo em comum lá na frente”, diz um assessor palaciano, em referência à perspectiva de polarização em 2022 entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O desconforto de militares com Bolsonaro — e que foi ampliado na reforma ministerial — reside, segundo interlocutores, no topo da cadeia, sobretudo entre oficiais-generais, ou seja, militares “quatro estrelas” do Exército, Marinha e Aeronáutica. “Existe uma parte de militares que vinha mesmo desgastada com o governo, e as demissões ampliaram esse mal-estar”, reconhece um segundo assessor.

Também é comentado entre militares no Executivo que, ao fim de tudo, a definição dos novos comandantes agradou e ajudou a pacificar as Forças. Os novos comandantes, general Paulo Sérgio de Oliveira, do Exército; o almirante de esquadra Almir Garnier Santos, da Marinha; e o tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Júnior, da Aeronáutica, foram bem recebidos.

Uma fonte até comenta uma publicação feita nas redes sociais do Exército, quando o general Oliveira ainda não havia assumido o posto. Em uma foto, ele aparece ao lado do general Pujol e do general Eduardo Villas Bôas, o ex-comandante anterior a ele. "É simbólico. A imagem fala por si", sustenta.

O que dizem militares nas Forças Armadas

A leitura feita por alguns militares fora do governo, ou seja, em serviço nas Forças, é divergente. Embora haja o reconhecimento de que Bolsonaro mantém o prestígio entre boa parte da categoria, muitos oficiais superiores (majores, tenentes-coronéis e coronéis) ficaram incomodados com a crise e ainda criticam o presidente.

Por mais que acreditem nas boas intenções do presidente e do governo, parte desses militares contrariados dizem ter valores muito bem definidos sobre lealdade e respeito. "Se não respeita isso, não respeita ninguém, é uma via de mão-dupla. E não houve lealdade da parte do presidente com os comandantes e o ministro", sustenta um militar.

Os comandantes demitidos e Azevedo e Silva, defendem esses militares, conduziram seus trabalhos de acordo com o combinado com Bolsonaro ainda em 2019: comandantes se dedicariam dos "muros" dos quartéis para dentro, enquanto o ministro da Defesa e o presidente cuidariam dos "muros" para fora.

O general Pujol e os demais comandantes dedicaram esforços a melhorar as situações dos quartéis, recuperar as forças de atuação — do ponto de vista operacional — e cuidar da parte interna de formação das escolas militares, além de outras medidas, exemplificam fontes ouvidas. "No fim, o presidente demite os três, chama o general Fernando e diz que precisa do cargo. Onde ficou a lealdade nisso?", critica um segundo militar.

Por conta desse mal-estar, a análise feita nas Forças é de que a crise não foi estancada. "E ficam sequelas. Foi um marco histórico de que os limites têm que ser respeitados. Agora, daqui para frente que vamos ver", pondera um militar. "Fica aquele sentimento de desconfiança com o presidente", reforça outro.

Ao demitir um ministro da Defesa e três comandantes das Forças, Bolsonaro transmitiu a militares a intenção de politizar a instituição. Tal gesto gera um clima de preocupação. Há quem entenda que a politização nas Forças Armadas possa gerar insurgências.

Testes a Braga Netto e comandantes mostrarão o tamanho ou estanque da crise

Apesar de o clima interno no governo sugerir que a crise foi contornada, interlocutores são comedidos ao falar sobre o assunto. Entre uma conversa e outro, assessores militares reconhecem que, apesar do clima favorável, é preciso aguardar a “próxima crise”.

“A escolha dos novos comandantes foi bem recebida nas Forças, a base [eleitoral] do presidente gostou. O sentimento até agora é positivo, essa crise foi menor do que a imprensa transpareceu. Agora, não sei até quando dura essa lua de mel”, alerta um interlocutor militar.

“Dura até o [general] Braga Netto [ministro da Defesa] e os novos comandantes serem testados em uma crise. Aí, sim, que a gente sentir melhor a reação”, reforça outro assessor.

Quando Bolsonaro decidiu demitir o general Azevedo e Silva da Defesa e trocar os três comandantes, ele deixou claro sua vontade de contar com o mínimo de respaldo por parte dos militares. Os militares sustentam sempre que são uma instituição de Estado, não de governo, mas o presidente da República deseja contar com gestos feitos nos detalhes.

Um exemplo usado por interlocutores de como os comandantes e Braga Netto poderiam dar os acenos políticos esperados por Bolsonaro é o de contestar medidas que restringem liberdades da população. Recentemente, o governo contestou no Supremo Tribunal Federal (STF) o toque de recolher em três estados.

Nos bastidores, Bolsonaro se queixava que não recebia apoio da cúpula militar, quiçá dos comandantes e de Azevedo e Silva. E há quem não descarte que o presidente cobre a "fatura" das recentes mudanças feitas.

Militares das Forças sustenta, contudo, que não é dever dos comandantes das Forças se posicionarem politicamente. "É um tipo de aceno que não cabe. Isso pode ser função de ministros, não dos comandantes", critica um militar. "Forças Armadas não vivem de ameaça. Na hora que entram [em ação], é para resolver alguma situação. Quem faz discurso político não podem ser os militares", diz outro.

Bolsonaro faz acenos aos oficiais-generais

O presidente da República sabe da insatisfação dentro das Forças e procurou fazer acenos aos militares. Em evento de promoção de 16 oficiais-generais do Exército, na quinta-feira (8), disse que a instituição representa uma estabilidade para o Brasil.

"O nosso Exército, tradição, o nosso Exército, de respeito, de orgulho, bem como reconhecido por toda a nossa população, representa para o nosso Brasil uma estabilidade", disse. Acusado de querer intervir nas Forças, ele deixou claro que o desejo de atuar "dentro das quatro linhas da nossa Constituição".

"Devemos e sempre agiremos assim. Por outro lado, não podemos admitir quem, porventura, queira sair desse balizamento", declarou. "A nossa população bem sabe que o nosso compromisso, dentro das quatro linhas da Constituição, será cumprido. O momento que vivemos passará, tenho certeza que dias de glória surgirão e nós poderemos dizer que cumprimos com o nosso dever. Nós passamos, as instituições ficam", disse.

O gesto de Bolsonaro foi bem recebido nas Forças. A leitura feita por alguns oficiais é de que o próprio presidente tenta se reconciliar. No Exército, sobretudo, a sensação é de que a própria instituição conseguiu mostrar força interna quando sugeriu o general Oliveira, que não era o nome preferido do presidente.

Embora não seja uma praxe, o Alto Comando das Forças Armadas passou uma lista com a prioridade da cúpula para Bolsonaro, que, junto com Braga Netto, acatou os três comandantes sugeridos. No fim das contas, nas três Forças, seguiu o nome que os Altos Comandos queriam.

"Diferentemente dos outros, o general Oliveira não era o mais antigo, mas teve o nome acatado pelo presidente. Foi um sinal de força para o Exército — ou fraqueza do presidente —, porque [as Forças] simplesmente se aglutinaram e disseram o que queriam", explica um militar do alto escalão.

Articulação com demais Poderes: o que militares esperam de Braga Netto

A crise militar levantou um questionamento entre oficiais: a da capacidade de articulação do general Braga Netto com o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso. Por ter tido experiência de ter passado pela assessoria parlamentar do Exército e sido assessor do ministro Dias Toffoli, da Suprema Corte, militares confiavam no poder de interlocução de Azevedo e Silva com os demais Poderes.

Sem ele, alguns militares questionam se Braga Netto terá a mesma habilidade de dialogar com os poderes e manter a relação do antecessor. "O general Braga Netto está buscando essa interlocução agora, mas vamos ver, vai ter que construir uma interlocução de confiança. Já o general Fernando sabíamos da capacidade de diálogo que tinha", comenta um militar.

Embora não assegurem se a capacidade de interlocução será a mesma, oficiais acreditam que, por ser um oficial-general, Braga Netto terá a capacidade de articulação para construir essa ponte com os Poderes. Os generais "quatro estrelas" costumam ser responsáveis por fazer a parte política das Forças por exercerem uma função de representação.

"Não sei te dizer se vai ser a mesma coisa, mas ele vai procurar um canal", diz uma das fontes. "O papel da defesa é evitar conflitos e isso se evita com diálogo, o que chamamos de diplomacia de defesa, seja nacional ou internacional", comenta uma fonte.

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