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Tráfico de influência?

Mensagens interceptadas apontam que Lulinha orientava e participava de reuniões de lobby

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha: o filho que quase não fala (e sempre se safa) (Foto: EFE/Fernando Bizerra Jr./Arquivo)

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Mensagens encontradas no celular de Roberta Luchsinger, empresária investigada por suspeitas de tráfico de influência e um dos alvos das apurações das fraudes no INSS, apontam indícios de que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT), mantinha uma atuação além da relação pessoal com a lobista, podendo ter participado ou mesmo orientado reuniões com membros de diferentes escalões governamentais para supostas ações de lobby.

Nos diálogos, ele menciona encontros com nomes de pessoas de diferentes pastas. O conteúdo é analisado como possível indício de que Lulinha participava de articulações envolvendo interesses empresariais e contatos dentro da estrutura do governo.

Esse é um dos pontos investigados em três inquéritos e que têm Lulinha como alvo no STF. Dois estão sob relatoria do ministro André Mendonça. Um terceiro, e que trata de possíveis vazamentos ilegais das investigações sigilosas, está com Flávio Dino.

As conversas também fariam referência a negócios e à tentativa de ampliar o acesso de empresários à administração federal. Entre os negócios sob investigação está a atuação do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, que tentava contrato para fornecimento de cannabis medicinal ao Ministério da Saúde. Ele e Lulinha viajaram juntos a Portugal para conhecer um sistema de produção, embora ambos afirmem nunca ter feito contratos ou que nenhuma sociedade avançou.

As tratativas de Antunes com o Ministério da Saúde teriam sido travadas após a Operação Sem Desconto, que o apontou como um dos principais operadores do esquema de descontos bilionários de aposentados e pensionistas. Lulinha não é investigado nesta frente de apuração.

Já nos inquéritos de suspeita de tráfico de influência, Lulinha é investigado. Mas as mensagens ainda estão sendo analisadas em seu contexto integral. Apesar do vazamento de parte do conteúdo, as suspeitas não representam, até o momento, conclusão judicial sobre a prática de tráfico de influência.

Para investigadores envolvidos no processo, as mensagens dão indícios sobre a participação dele em tratativas envolvendo empresários, a lobista e integrantes do governo federal, inclusive com a possibilidade de encontros presenciais ainda não confirmados. Lulinha mora na Espanha.

Os diálogos indicariam que o filho do presidente não apenas mantinha contato frequente com Luchsinger, sua amiga pessoal, como também tratava de negócios, mencionava reuniões com integrantes do núcleo próximo de Lula e, em determinado episódio, chegou a orientar sobre a emissão de uma nota fiscal para um empresário que também está na mira da investigação. O documento seria de cerca de R$ 150 mil.

As mensagens foram reveladas pelo Metrópoles e confirmadas pela Gazeta do Povo. Para investigadores, o conteúdo seria relevante porque pode ajudar a esclarecer se havia e qual era o papel de Lulinha na relação entre Roberta e pessoas interessadas em fazer negócios com o governo.

Reuniões com diferentes escalões do governo

Em um diálogo atribuído a março de 2024, Lulinha teria mencionado a Roberta reuniões com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, e Swedenberger Barbosa, o Berger, que ocupava a Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde. A Gazeta do Povo não conseguiu contato com a defesa de ambos.

Um ano antes, em uma conversa datada de julho de 2023, Lulinha teria pedido a Roberta que convidasse Carlos Eduardo Gabas, ex-ministro da Previdência, para ir à Praia do Forte, na Bahia. Não há registros se o então ministro teria participado do encontro, mas Roberta teria respondido que havia feito contatos com diferentes pessoas citando um contador, um governador, sem menção a nome, e secretários. Na sequência, Lulinha pediu que ela emitisse uma nota fiscal para Cleber Ribas. A resposta foi que a nota já havia sido emitida, e Lulinha reagiu positivamente.

Cleber Ribas é empresário ligado à 3Structure IT, empresa que mantém contratos com o governo federal que somam quase R$ 86 milhões. Entre os negócios está um de 2023 com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome para uma solução destinada à sustentação do ambiente analítico de dados da pasta. O valor acumulado desse contrato é mais de R$ 42 milhões. A empresa também possui negócios com outras estruturas federais, incluindo telecomunicações.

A defesa de Ribas diz que a 3Structure IT contratou a empresa de Roberta Luchsinger para serviços de assessoria, prospecção de clientes e identificação de oportunidades de negócios em tecnologia e que o pagamento destinado a ela foi legítimo, contabilizado, tributado e documentado, sem relação com os contratos com o governo federal.

A defesa diz que não pode comentar mensagens às quais não teve acesso integral, especialmente das quais Cleber não participou. Os advogados sustentam que a relação entre Ribas e Lulinha era pessoal, decorrente de amizade, sem vínculo profissional ou comercial, e que os contratos da 3Structure com o governo foram firmados regularmente, sem favorecimento.

Interpretação mais ampla

A Gazeta do Povo apurou que a PF trabalharia com uma interpretação mais ampla desses episódios. Os investigadores suspeitam que presentes, pagamentos de contas e outras despesas bancadas supostamente por Roberta poderiam ter sido utilizados para ampliar acesso e influência a pessoas próximas do gabinete da presidência.

Essa hipótese ainda depende da análise integral dos documentos, das mensagens e demais elementos reunidos nos inquéritos. A PF também considera que as mensagens revelam uma proximidade entre Roberta e pessoas ligadas ao governo maior do que aquela apresentada anteriormente pelas partes.

Outro personagem que aparece nas conversas é Fernando Bittar, identificado como o “Fernando” ou “Fefe”. Em determinado diálogo, Roberta teria afirmado que Bittar estaria utilizando o nome de Lulinha para tentar fechar um negócio de grande porte na Telebras.

Lulinha pergunta se ela havia desmentido a informação. Roberta responde que sim, acrescentando que não faria negócios com Bittar caso ele tratasse diretamente com o presidente da estatal. O episódio é apontado pelos investigadores como mais um indício da atuação de Roberta no ambiente de negócios envolvendo empresas e órgãos públicos. Bittar não foi localizado para comentar as menções. A investigação também cruza essa relação com o caso do Careca do INSS.

Roberta teria recebido aproximadamente R$ 1,5 milhão em repasses atribuídos ao Careca do INSS. Em uma transferência, Antunes teria afirmado que parte do dinheiro seria destinada ao “filho do rapaz”, expressão que investigadores avaliam como possível referência a Lulinha, que nega a relação. Lula tem dito que o filho deve se defender e que, caso inocente, precisa provar sua condição. Se culpado, precisa responder pelos seus atos.

Defesas negam irregularidades

A defesa de Lulinha contesta a interpretação dada às mensagens. Afirma que os conteúdos são fragmentos de material sigiloso e que recortes podem estar fora do contexto original. Questiona origem e integridade das mensagens e sustenta que a divulgação seletiva pode produzir uma narrativa distorcida.

Os advogados afirmam ainda confiar nas investigação e dizem que pretendem se manifestar nos autos depois de ter acesso integral ao material obtido nas quebras de sigilo. Eles pedem apuração sobre eventual vazamento de informações sigilosas por agentes públicos.

A defesa também sustenta que Lulinha vive na Espanha e trabalha na iniciativa privada, sem relação com o governo brasileiro. Os advogados afirmam que a quebra de seus sigilos fiscal e bancário não teria encontrado prova ou indício de irregularidade.

A defesa de Roberta Luchsinger optou por não comentar, sob o argumento de que o inquérito permanece sob sigilo. A defesa de Marcola não respondeu às tentativas de contato. A de Cleber Ribas afirmou que não poderia comentar mensagens às quais não teve acesso integral, especialmente conversas das quais o empresário não participou.

Eles sustentam que a relação entre o empresário e Lulinha é pessoal e que não existe vínculo profissional ou comercial entre os dois. Também afirmam que os contratos da 3Structure com o governo foram celebrados de maneira transparente, seguindo procedimentos administrativos e licitatórios, sem favorecimento.

Vazamentos são tratados com preocupação na PF

A PF não comenta investigações em curso, mas internamente o suposto vazamento é tratado como algo grave a ser apurado. A defesa de Lulinha recorreu ao Ministério da Justiça, à direção da PF e ao STF para pedir investigação sobre a divulgação de conversas.

Para investigadores que acompanham o caso, as mensagens acrescentam um elemento importante indicando que Lulinha tinha conhecimento das atividades empresariais de Roberta, participava de conversas relacionadas a negócios e mencionava reuniões com pessoas que ocupavam posições relevantes na estrutura do governo.

Porém, o que ainda precisa ser demonstrado é se essa proximidade representava relações pessoais e comerciais privadas ou se havia uma atuação organizada para abrir portas, influenciar decisões ou favorecer interesses empresariais dentro da administração pública.

Segundo apuração da reportagem, a questão agora é estabelecer o contexto completo das conversas, identificar a finalidade de pagamentos e verificar se houve alguma contrapartida entre articulações atribuídas ao grupo e contratos firmados por empresas com o governo. O Palácio do Planalto foi procurado, mas não se manifestou. O espaço segue aberto.

Os três inquéritos contra Lulinha

As mensagens atribuídas a Roberta e Lulinha permeiam três inquéritos instaurados pela PF para investigar a conduta do filho do presidente Lula.

Mendonça é o relator dos dois primeiros, ambos originados de elementos da investigação das fraudes no INSS. O primeiro apura suspeitas de tráfico de influência e corrupção relacionadas à tentativa de viabilizar negócios com cannabis medicinal no Ministério da Saúde.

O segundo investiga possíveis crimes de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa relacionados à Dataprev e à eventual atuação para favorecer empresas e empresários em negócios com a estatal.

O ministro Flávio Dino é o relator do terceiro inquérito, distribuído por sorteio após a PF apontar que os fatos tinham autonomia em relação às investigações anteriores.

Essa frente apura suspeitas de tráfico de influência em contratos de tecnologia, incluindo a possível proximidade de Lulinha com o poder político para favorecer empresas ligadas a seu círculo de relações. Entre os negócios está a atuação da empresa de tecnologia que acumulou contratos públicos que somam quase R$ 86 milhões.

O inquérito com Dino também examina informações relacionadas a possíveis vazamentos seletivos de dados sigilosos da própria investigação.

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