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"Surreal"

Relatório da PF acusa Messias de deixar de socorrer Lulinha por proximidade com Mendonça

Ministro classifica como "surreal" trecho em decisão sobre reação de Alexandre de Moraes.
Ministro classifica como "surreal" trecho em decisão sobre reação de Alexandre de Moraes. (Foto: Luiz Silveira/STF)

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Um relatório de inteligência da Polícia Federal (PF) avaliou que uma nova indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) seria arriscada. O motivo seria a escolha de Messias por não recorrer de uma decisão do ministro André Mendonça contra o filho do presidente Lula (PT), Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.

Para a corporação, Messias priorizou sua relação com Mendonça "em detrimento da redução dos riscos de exploração política do caso envolvendo o filho do Presidente da República". O trecho foi citado na decisão desta terça-feira (8) que afastou o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada. Para Mendonça, a passagem demonstra a "surrealidade" do documento.

Lulinha é investigado por suposto envolvimento com Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", além de enfrentar apurações em separado sobre suposto tráfico de influência em contratos na Dataprev e no Ministério da Saúde. Indicado por Lula, o ministro Flávio Dino relata uma das frentes e abriu outro procedimento para investigar o vazamento das informações à imprensa.

Mendonça acusa PF de monitorar Messias

Na liminar, o magistrado acusa a PF de monitorar ilegalmente Messias e os ministros do Supremo, dando acesso a informações confidenciais a Moraes. Por isso, além do afastamento, ele suspendeu a produção, elaboração ou compartilhamento de todos os relatórios de inteligência destinados à análise de condutas judiciais ou da advocacia pública. A restrição impede inclusive a tramitação interna.

A liminar foi levada ao plenário virtual da Segunda Turma duas horas e meia após a sua divulgação. O ministro Gilmar Mendes pediu vista, mas Luiz Fux e Nunes Marques adiantaram seus votos, formando maioria. Falta apenas o voto de Dias Toffoli, que pode se declarar suspeito.

"Abjeta e leviana", diz Mendonça sobre associação entre religião e conduta de Messias

O ministro classificou como "abjeta e leviana" a acusação de que a "matriz religiosa comum" e o "apoio obtido em meio às igrejas evangélicas para
ambas as candidaturas ao Supremo Tribunal Federal" explicariam a decisão de Messias em não recorrer.

Mendonça e Messias são evangélicos. Ambos chegaram a participar de um culto juntos em novembro de 2025, enquanto o advogado-geral da União buscava convencer os senadores a aprovarem sua indicação ao Supremo. Mendonça foi publicamente favorável a Messias, mas a indicação acabou sendo rejeitada pelo Congresso, em uma derrota histórica para Lula e para a história da República, uma vez que a última rejeição ocorreu em 1894, há 132 anos.

A relação possui um tópico próprio no relatório: "Elementos de contexto sobre a relação entre o Advogado-Geral da União e o relator". Mendonça soma este aos tópicos "Indicadores de assimetria por espectro político" e "Hipótese de
estratégia de recomposição de forças no Tribunal" no grupo que considera composto por "cogitações etéreas, que se sucedem em cadeia de abstrações cada vez mais genéricas, sem qualquer embasamento fático e absolutamente descoladas da realidade".

Moraes prejudica investigações ao divulgar relatórios de inteligência, diz Mendonça

Apesar de atingir a PF, a decisão não deixa de tecer críticas a Moraes, isso porque as páginas "feitas por seus próprios autores desconhecidos" seriam carregadas de elementos que advertem sobre seu teor interno e sem valor de prova. Sua divulgação pelo relator do inquérito das fake news colocaria o sucesso das investigações em risco.

Um dos exemplos é a determinação de que o presidente e o vice-presidente do União Brasil, Antônio Rueda e ACM Neto, passassem por petições separadas. No rodapé, haveria a informação de que o caso tramita em sigilo e estaria pendente de uma decisão.

"No afã de confeccionar o 'documento' apócrifo, sem procedência, autoria e data de elaboração expressamente indicadas, dotado de elevadas abstrações, elucubrações estapafúrdias e juízos subjetivos de toda ordem, bem como ao dar-se conhecimento desses elementos a outro relator e, a partir disso, divulgar-se publicamente essa “documentação”, revelou-se previamente aos potenciais alvos de medidas cautelares e instrutórias a sua potencial realização, frustrando completamente a sua eficácia e prejudicando efetivamente as investigações", conclui.

Além dos apontamentos ao próprio documento, Mendonça aponta para fora, com uma manifestação da União dos Profissionais de Inteligência de Estado da Abin (Intelis) e outra do presidente da Associação de Delegados da Polícia Federal (ADPF), Edvandir Felix de Paiva. Para Paiva, o teor da análise se baseia em "impressões internas" e nunca deveria ter circulado fora da polícia. Já a ADPF argumentou que a atividade de inteligência não se confunde com investigação criminal.

"O Relatório de Inteligência presta-se, assim, à análise de fatos, situações, ameaças, riscos e cenários relevantes, oferecendo conhecimento qualificado ao tomador de decisão. [...] Não é instrumento destinado à substituição de procedimentos investigativos ou à formação de elementos de autoria e materialidade próprios da persecução penal, atividade submetida às garantias processuais específicas", afirma a nota.

Veja a linha do tempo do novo capítulo da crise no STF

A movimentação de Mendonça é mais um capítulo na crise sem precedentes do Supremo. A linha do tempo começa com o mês de fevereiro e ultrapassa o feriado da Independência:

  • 1º de setembro de 2026: Mendonça retira o sigilo de uma petição e expõe um relatório da PF com detalhes sobre a relação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes;
  • 1º de setembro de 2026: Moraes determina que PF envie relatórios de inteligência que citam ministros do STF;
  • 2 de setembro de 2026: o presidente do STF, Edson Fachin, divulga uma nota prometendo providências;
  • 3 de setembro de 2026: Moraes divulga decisão no inquérito das fake news com relatório crítico a Mendonça, aponta abusos e envia caso à Presidência;
  • 3 de setembro de 2026: Fachin abre prazo para manifestações de Mendonça, Moraes, PF e do procurador-geral da República, Paulo Gonet;
  • 4 de setembro de 2026: Fachin complementa decisão após ofensiva de Moraes, retirando o episódio do inquérito das fake news e abrindo prazo em paralelo;
  • 4 de setembro de 2026: Ao lado de Lula, Fachin defende o fim do inquérito das fake news;
  • 5 de setembro de 2026: Gilmar Mendes apresenta proposta de emenda ao Regimento Interno para proibir a atuação de delegados, policiais e militares em gabinetes, exceto para segurança dos ministros;
  • 7 de setembro de 2026: Flávio Dino questiona se um julgador pode prometer fim de inquéritos "como se fosse um candidato ou para receber aplausos".
  • 8 de setembro de 2026: 13 ex-ministros enviam carta a Edson Fachin defendendo julgamento público da controvérsia;
  • 8 de setembro de 2026, 8h30: Mendonça afasta Andrei Rodrigues e Leandro Almada e marca sessão-relâmpago na Segunda Turma;
  • 8 de setembro de 2026, 09h59: Termina o prazo para que os advogados apresentem suas sustentações orais;
  • 8 de setembro de 2026, 10h00: inicia a sessão virtual e Gilmar mendes pede vista;
  • 8 de setembro de 2026, 10h04: Fux antecipa voto, acompanhando Mendonça;
  • 8 de setembro de 2026, 10h06: Nunes Marques antecipa voto, acompanhando Mendonça e formando maioria;

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