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Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Investigações sob ataque

Afastamento de chefe da PF amplia o desgaste eleitoral de Lula com a crise do STF

O presidente Lula e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues: pressões em torno e investigações entraram de vez na crise do STF, com impacto eleitoral. (Foto: André Borges / EFE)

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A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, amplia o desgaste eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ao atingir um dos principais cargos de confiança do governo, a briga pelo controle de investigações colocou de vez o petista na crise do STF.

A retirada judicial de Rodrigues de cena é o mais novo capítulo da guerra entre Mendonça e seu colega de Corte Alexandre de Moraes, movida pelas revelações do caso Master. Lula tentou parecer distante o quanto pôde, mas a intensidade da crise impediu que ele se mantivesse preservado das hostilidades, que atingem com mais força a sua campanha pela reeleição.

Enquanto Mendonça aponta a gravidade das 52 mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro a Moraes, tornadas públicas, e dos relatórios paralelos da PF que sugeriam investigar o relator por irregularidades, Moraes havia acionado a Corte contra o primeiro, expondo uma profunda rachadura interna no tribunal. Associado a Moraes e tenso com investigações que diz apoiar, mas que tenta conter, Lula se vê mais desgastado.

Batalha de bastidores em torno de investigações ganhou novos contornos

A retirada judicial de Rodrigues de cena é o mais novo capítulo da guerra entre Mendonça e seu colega de STF Alexandre de Moraes, alimentada pelas revelações do caso Master. Ao longo do período de tensões não faltaram movimentações de bastidores para conter a atuação da PF e para buscar formas de desacreditar Mendonça.

Mendonça também afastou Leandro Almada, diretor de Inteligência da corporação, sob o argumento de impedir interferências nas apurações e cessar monitoramentos ilegais.

Para a direita, liderada pelo principal rival de Lula nas urnas, o senador Flávio Bolsonaro (PL), a medida reforça a denúncia de abusos da “PF de Lula”, que estaria atuando com motivações políticas, blindando aliados e perseguindo rivais do presidente. O Palácio do Planalto e o comando da PF rejeitam veementemente a acusação.

A gravidade eleitoral aumenta porque Mendonça conduz as investigações do Master e de fraudes no INSS, com ramificações que alcançam Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O filho do presidente é investigado em três inquéritos sob a suspeita de tráfico de influência e se tornou o ponto mais vulnerável da campanha governista, que já impôs perda de terreno eleitoral. O novo contexto pode intensificar novas ações e fechar o cerco a Lulinha.

Os afastamentos de Rodrigues e Almada abrem espaço para maior controle do relator sobre o rumo das investigações. Mendonça já havia mandado que atos e dados das apurações fossem enviados diretamente ao seu gabinete e restringido mudanças na equipe policial. A queda de braço crescente com a cúpula da PF trouxe reações públicas de desconforto de ambos os lados.

Caso Master transformou o desgaste da PF em problema político para Lula

Andrei Rodrigues já chegava enfraquecido ao confronto. Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro indicaram que o empresário buscava acionar Moraes para chegar ao diretor da PF e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. O material levou ao nível máximo as tensões políticas em plena campanha eleitoral.

O quadro piorou quando Vorcaro declarou em depoimento ter sofrido pressões para não mencionar Andrei Rodrigues em uma eventual delação premiada. Investigadores da PF e integrantes da PGR contestaram a versão e a classificaram como manobra defensiva. Ainda assim, a acusação acrescentou forte pressão sobre o diretor-geral.

Em agosto, os 27 superintendentes regionais chegaram a divulgar nota em defesa da direção da PF após os primeiros embates com Mendonça. Agora, o ministro sustenta que relatórios de inteligência monitoraram ilegalmente suas atividades e as do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, inclusive explorando a ligação religiosa entre ambos.

Uma nova manifestação foi divulgada nesta terça. Onze diretores colocaram os cargos à disposição em apoio ao diretor-geral afastado e ao diretor de Inteligência, enquanto delegados e superintendentes das 27 unidades regionais da PF articulam uma possível saída coletiva em protesto contra a decisão.

A decisão também produz uma ironia institucional. Em 2020, Alexandre de Moraes impediu o então presidente Jair Bolsonaro (PL) de nomear Alexandre Ramagem para dirigir a PF, apontando desvio de finalidade. Agora, outro ministro interfere monocraticamente no comando escolhido por Lula, sob o argumento de que há fundamentos documentados e riscos reais à instrução processual.

As manifestações do 7 de Setembro e dos líderes da direita em geral também deram respaldo a Mendonça.

Mendonça usa poderes do STF e coloca em debate o uso político da PF

Mendonça, assim, recorre ao mesmo poder cautelar exercido repetidamente por ministros do STF em decisões individuais de grande impacto. A diferença política é que o magistrado indicado por Bolsonaro agora desafia diretamente o Planalto e Moraes, justamente os personagens que encabeçavam uma linha de contenção institucional nos últimos anos.

A iniciativa de afastar o diretor-geral da PF partiu de pedidos do partido Novo, que chegou a requerer a prisão preventiva de Andrei Rodrigues — medida rejeitada por Mendonça. A sigla explora eleitoralmente instrumentos jurídicos semelhantes aos usados no passado por legendas de esquerda contra autoridades de governos adversários.

O sinal mais preocupante para o Palácio do Planalto veio da Segunda Turma do STF. Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam o relator, formando maioria célere pela manutenção dos afastamentos. O ministro Gilmar Mendes pediu vista, interrompendo o julgamento virtual, mas a liminar permanece integralmente válida e expõe o tamanho da fratura interna na Corte.

Lula entrou, portanto, definitivamente no epicentro da crise. A AGU anunciou recursos, alegando que cabe privativamente ao chefe do Executivo escolher o comando da corporação. Ao defender enfaticamente Rodrigues, porém, o governo assume o custo político da disputa e realimenta a incômoda pergunta eleitoral: a PF atua estritamente como instituição de Estado ou como instrumento da atual Administração Federal?

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