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A organização Transparência Internacional defendeu que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes seja afastado do cargo por conta do risco de interferência em investigações sobre seu envolvimento com Daniel Vorcaro. A nota foi divulgada nesta sexta-feira (4) em meio à determinação do presidente da Corte, Edson Fachin, para que os envolvidos no conflito se manifestem.
"Da mesma forma, toda a rede de autoridades potencialmente implicadas ou que estejam obstruindo os mecanismos constitucionais de responsabilização também deve ser afastada e investigada", completa o texto.
A entidade cita a possibilidade de as “vias naturais de resolução” estarem sendo “bloqueadas” pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ambos mencionados no contexto da crise. Alcolumbre é o responsável por pautar processos de impeachment contra ministros do Supremo, mas tem se negado a colocar as matérias na ordem do dia.
"Cabe aos plenários do Supremo Tribunal Federal e do Senado, bem como ao Conselho Superior do Ministério Público, desobstruir os mecanismos previstos pela Constituição para o enfrentamento dessa crise", argumenta.
Na terça-feira (1º), Mendonça levantou o sigilo de um relatório que detalha conversas e encontros do dono do Banco Master com o ministro Alexandre de Moraes. No mesmo dia, Moraes usou o inquérito das fake news para determinar que a PF enviasse todos os relatórios que mencionassem integrantes do Supremo. Na noite desta quinta-feira (3), redigiu um despacho apontando interferência e escolha de alvos por Mendonça nas operações Compliance Zero e Sem Desconto. Para a entidade, o magistrado pratica uma "retaliação autoritária".
"As investigações dos esquemas do Banco Master e de outros casos de grande complexidade exigem a atuação coordenada dos órgãos de investigação, persecução criminal e julgamento, cada qual dentro de sua competência constitucional. Somente assim é possível assegurar o devido processo legal, a ampla defesa e a solidez das futuras responsabilizações, evitando que nulidades ou interferências comprometam a busca por justiça, reparação e recuperação da confiança pública nas instituições", defende a Transparência Internacional.
Além da Transparência Internacional, a oposição e a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná (OAB-PR) também já se manifestaram pelo afastamento. Em entrevista à CNN Brasil, o jurista Miguel Reale Júnior avaliou que Moraes atua em causa própria ao utilizar o inquérito das fake news, que já tramita há sete anos, para retaliar Mendonça.
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O que há contra Moraes
O relatório da Polícia Federal (PF) que foca em Moraes detalha contratos do escritório de sua esposa, Viviane Barci, encontros e mensagens. Em 2024, as tratativas são intermediadas pelo ex-ministro das Comunicações no governo de Jair Bolsonaro (PL), Fábio Faria.
Em uma delas, Fábio encaminha a Vorcaro a confirmação de um encontro às "18h na casa do Alexandre". A mensagem encaminhada explica que o interlocutor terá "aula na USP pela manhã e uma banca de doutorado". Moraes é professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
O encontro teria como um dos assuntos a participação do ministro no "Fórum Jurídico Brasil de Ideias", em Londres, patrocinado pelo Master. Moraes teria convidado o ministro Gilmar Mendes e solicitado a presença do ex-presidente Michel Temer. Em conversa com o advogado Luiz Rennó Netto, ex-diretor jurídico do banco, o banqueiro classifica o fórum como um "evento super exclusivo com Alexandre de Moraes em Londres".
No mesmo contexto, a diretora de marketing Ana Matos pergunta se Vorcaro irá mesmo entregar um troféu a Moraes durante o evento. O banqueiro responde positivamente.
Logo no início do ano, porém, já há um indício. Um contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes possui, em seus metadados, um registro de modificação feito por "Ministro Alexandre de Moraes".
Em 2025, porém, as conversas teriam deixado de ser mediadas. Vorcaro passou a mandar mensagens elogiosas e pedir que o contato atribuído ao ministro atuasse em favor dos interesses do Master. Em um dos diálogos, pede para "reforçar" com "Andrei e Paulo" que haveria pressões de membros do Ministério Público Federal (MPF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o Banco Central (BC) tomasse alguma atitude em relação ao Master. O banqueiro envia uma lista de procuradores, delegados e agentes da PF que estariam exercendo a pressão.
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O que há contra Mendonça
Em seu despacho, Moraes cita um relatório de inteligência da PF que analisa a conduta de Mendonça à frente das operações Compliance Zero (caso Master) e Sem Desconto (fraudes no INSS). O documento fala em suspeitas de improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e abuso de autoridade.
A PF alega que Mendonça estaria invadindo suas competências ao tomar a dianteira das investigações, com o suposto objetivo de selecionar alvos por critérios pessoais e políticos.
A corporação demonstra incômodo com a determinação do magistrado para que as provas fossem ao seu gabinete em formato bruto, sem a análise de um delegado. O relatório conclui que a medida indica que o objetivo é acessar o teor do material, e não verificar se o inquérito está ocorrendo de forma regular, como é atribuição dos juízes.
"A revisão do delegado é a etapa em que se verifica a cadeia demonstrativa, se afastam conclusões não amparadas nos elementos e se ajusta o grau de assertividade ao lastro disponível. Suprimi-la faz com que a inferência bruta do analista ingresse nos autos sem filtro e sem validação da autoridade que, por lei, preside a investigação", diz o trecho.
Moraes vê como "ilegal e perigosa" o que entende como quebra na cadeia de custódia do acervo de provas. O ministro alega que há relatos de seleção de alvos que demonstrariam "total ausência de imparcialidade".
Outro relatório aponta que parte do acervo mais sensível da Operação Sem Desconto estava concentrada sob a custódia de uma única agente, sem trilha adequada de auditoria. Segundo a PF, isso dificultaria identificar quem acessou os dados e em que momento, inclusive na hipótese de vazamento.
O despacho traz um dos exemplos citados pela Polícia: no dia 8 de agosto de 2026, a revista Piauí teria divulgado uma foto extraída do celular do senador Weverton Rocha (PDT-MA). A imagem, no entanto, não estava nos autos e teria sido inserida em uma minuta da PF pela agente em questão, sendo retirada em seguida.
"O achado central deste relatório é de natureza estrutural e independe de conduta individual: o acervo mais sensível da Operação Sem Desconto encontra-se sob custódia pessoal e sem trilha de auditoria, arranjo incompatível com o regime normativo da instituição", conclui o relatório.




