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Rodrigo Constantino

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Demétrio Magnoli ignora riscos à democracia da era Obama para atacar Trump

Quando Trump resolveu partir para a alternativa radical de decretar emergência nacional para construir o muro na fronteira do México, eu fui crítico dessa postura, na mesma linha do Ben Shapiro e outros. Escrevi texto condenando esse caminho, e gravei comentário na Jovem Pan também. Não me calei, pois posso avaliar positivamente o governo Trump em linhas gerais, mas vou sempre preservar minha independência e meu senso crítico com base em princípios acima de qualquer partidarismo.

O mesmo não pode ser dito pela esquerda. Muitos “progressistas” criticam coisas em Trump que não condenavam em Obama. E isso acaba com a credibilidade de seus ataques, pois expõe um duplo padrão típico de torcedor, não de analista. O sociólogo Demétrio Magnoli, por exemplo, tem sido um forte crítico de Trump desde o começo, incapaz de reconhecer vários acertos do presidente.

Em sua coluna de hoje, Demétrio pinta Trump como grande ameaça populista à democracia, com base nessa decisão de apelar para a emergência nacional no caso do muro. O problema é que Obama adotou esse mesmo caminho antes, para questões tampouco relacionadas ao que poderia ser de fato considerado um caso de emergência.

Obama era mais populista do que Trump, durante seu governo a tensão racial aumentou, em boa parte porque o próprio presidente lançou mão da cartada racial várias vezes, o estado agiu de forma partidária em inúmeros momentos e o IRS chegou a perseguir conservadores, algo digno de uma republiqueta. Demétrio ignora tudo isso, pois gosta de Obama, e agora considera Trump um risco grande para a democracia, por coisas que antes não incomodavam em Obama. O sociólogo conclui:

Do russo Putin ao turco Erdogan, passando pelo húngaro Orbán, os governantes populistas do movimento neonacionalista avançam rumo ao autoritarismo pela subordinação dos parlamentos e dos tribunais ao arbítrio do Executivo. Nos EUA, uma nação de enraizadas instituições democráticas, o empreendimento é muito mais difícil. Trump não conseguiu barrar as investigações judiciais que se aproximam de seu clã familiar. O desafio que agora lança ao equilíbrio de poderes definirá o futuro de seu governo.

A Lei de Emergências Nacionais, de 1976, inscreve-se no percurso histórico de ampliação das prerrogativas presidenciais que começou com a ratificação da Constituição americana, em 1788. A lei de 1976 não define o conceito de “emergência nacional”. O Congresso pode revogar emergências, mas o presidente tem o direito de vetar o ato parlamentar. A derrubada de vetos exige maioria qualificada de dois terços na Câmara e no Senado. Nessas condições, Trump tem chances razoáveis de obter da Corte Suprema uma sentença na qual os juízes se abstêm de intervir em prerrogativas dos outros poderes.

Chega a ser cômico falar de uso privado do estado na era Trump e deixar de lado o que fez Obama. No caso do muro, há ainda um argumento militar, que alguns analistas consideram suficiente para justificar a declaração de emergência. Segundo o Federal Register, quase 60 casos de emergência nacional foram declarados desde o National Emergency Act de 1976. Não é uma grande novidade um presidente declarar emergência nacional, como podemos ver.

O “pânico” de Demétrio com os “abusos” de Trump podendo destruir a democracia americana parece um tanto exagerado. Talvez ele devesse ter se mostrado mais preocupado antes, durante o governo Obama, ou mesmo com as propostas cada vez mais radicais que o Partido Democrata tem defendido. Os democratas querem mais e mais controle estatal, impostos absurdos, e muitos defendem abertamente o socialismo, incompatível com a democracia. Mas isso não assusta Demétrio. Só o Trump. Assim complica…

Comparar Trump com Putin, Erdogan e Orbán soa pura má-fé, e falar em arbítrio do Executivo sem levar em conta que a esquerda prega isso com muito mais paixão do que esses populistas nacionalistas de direita é ser muito seletivo nas críticas, para poupar a esquerda. Demétrio teme que Trump destrua a democracia americana. Mas pelo visto está tranquilo com Ocasio-Cortez, Bernie Sanders e companhia falando em planos para instaurar o socialismo na América. É por essas e outras que as críticas a Trump vindo da esquerda não merecem qualquer consideração. Se fossem sinceras, teriam de criticar em dobro os próprios esquerdistas!

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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