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Em seu editorial neste fim de semana, a Folha de SP fez como Santo Agostinho, que pediu castidade, mas não naquele momento. O jornal de esquerda admite que houve ativismo, heterodoxias e excessos no STF, e que agora era preciso buscar a autocontenção e abandonar tais práticas. Ou seja, para punir Bolsonaro, tudo bem praticar "ativismo, heterodoxias e excessos", mas agora é hora de voltar à normalidade.
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Para a Folha de SP, "não há mais motivos para manter medidas que deveriam ser excepcionais". Admitindo o período de anormalidade do Supremo, o jornal pede: "Espera-se que agora seja trilhado o caminho de volta à normalidade". A Folha cita como exemplo algumas medidas:
Entre elas estão, em especial, os intermináveis e opacos inquéritos a cargo do ministro Alexandre de Moraes — como o das milícias digitais, aberto em 2021 e destinado a vigorar em 2026. Neles se acumulam investigações sem objetivo claramente definido, decisões de inclinação censória e arbitrariedades como ordens monocráticas sigilosas.
Além de tomar para si tarefas que em circunstâncias regulares caberiam à Procuradoria-Geral da República (PGR), o Supremo também invadiu nos últimos anos competências do Legislativo, como quando se arvorou a modificar o Marco Civil da Internet prejudicando a liberdade de expressão e a segurança jurídica.
É por isso que, na prática, é tão difícil pacificar o Brasil. Quase metade do povo aplaude o abuso de poder, pois odeia Bolsonaro, e isso é a morte do império das leis
Ou seja, o STF suspendeu o respeito à Constituição e partiu para o arbítrio, o abuso de poder, mas como o alvo era o bolsonarismo, então tudo bem. Agora que "derrotamos o bolsonarismo" é preciso retornar ao seu quadrado, para dar mais normalidade institucional ao país. E a Folha escreve isso na maior tranquilidade!
É por isso que, na prática, é tão difícil pacificar o Brasil. Quase metade do povo aplaude o abuso de poder, pois odeia Bolsonaro, e isso é a morte do império das leis. Em seu editorial de hoje, a Gazeta do Povo analisa essa questão:
Eis aqui o problema: se por acaso a anistia – e não uma simples redução de penas – fosse aprovada amanhã pelo Congresso, continuaria a haver uma metade feliz com a decisão dos parlamentares, mas outra metade não mudaria de opinião em um passe de mágica; ela estaria enfurecida com o resultado. Se a anistia fosse rechaçada no Congresso, ocorreria exatamente o mesmo. E, por mais que os defensores de uma mera redução de penas também digam estar atrás de um meio termo que “pacifique” o país, o mais provável seria que a aprovação de uma “dosimetria” indignasse ambos os grupos: uns considerariam que reduzir penas não é suficiente e que a injustiça se perpetua; outros achariam que os réus e condenados não mereciam tamanha “misericórdia”. Em qualquer dos casos, isso está muito longe de representar qualquer pacificação.
Segundo a Gazeta, há uma parcela radical que quer "meter uma bala na nuca" dos conservadores, mas não são apenas esses que rejeitam a anistia: Há "uma multidão de pessoas de índole genuinamente democrática, que defendem o cumprimento da Constituição, e que de fato julgam que respeitá-la, neste caso específico, significaria punir com o maior rigor possível aqueles que consideram 'golpistas' – sejam os manifestantes do 8 de janeiro, sejam os réus e condenados do dito 'processo do golpe'. Esta multidão, sim, é imprescindível a qualquer esforço de pacificação digno do nome".
Para pacificar o país, portanto, será preciso persuadir quem pensa como o editorial da Folha de SP, mostrando o perigo de aplaudir ações anormais pois o alvo era o bolsonarismo. É essa mentalidade que está por trás de toda tirania, quando uma parcela do povo abre mão dos limites das leis para perseguir seus opositores políticos, com a máxima de que seus "nobres" fins justificam quaisquer meios.
Que o STF mergulhou no arbítrio até o jornal esquerdista admite. O problema maior é que ele, como muitos de seus leitores, justifica os abusos e pede a volta à normalidade somente agora que Bolsonaro foi condenado. A pacificação não vai vir enquanto essa for a mentalidade dominante, mas sim quando quem aplaude hoje o arbítrio entender os riscos dessa postura. Como diz a Gazeta:
Só pode haver pacificação real, portanto, quando vier à tona tudo o que foi escondido do Brasil a respeito do aparato de persecução montado e executado ao arrepio da lei, e quando os brasileiros finalmente perceberem que haviam sido enganados; que os reais defensores da democracia, da Constituição e do devido processo legal não eram a PGR e o STF, mas todos os que vinham apontando por anos a erosão dos direitos e garantias constitucionais promovida pelas instituições. Quando enfim a verdade completa surgir e for reconhecida como tal, o Brasil estará pronto para a pacificação.
Espera-se que mais e mais gente, ao ler um editorial como o da Folha de SP, tenha noção de que não é aceitável normalizar o absurdo só porque Bolsonaro foi o alvo. Ler o editorial da Gazeta é um contraste saudável, pois fica claro que devemos defender o império das leis sempre, não importa quem seja vítima dos abusos. São os abusos em si que merecem condenação.

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




