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O pioneirismo hayekiano na luta cultural
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Por Lucas Berlanza, publicado pelo Instituto Liberal

Muitos críticos do liberalismo o acusam de menosprezar o conflito travado na dimensão da cultura. Não obstante seja possível concordar até certo ponto com esse apelo, identificando um pernicioso e limitante exclusivismo de preocupação economicista em alguns defensores do liberalismo, criticando saudavelmente as fórmulas com que propagandearam as próprias bandeiras, é preciso fazer justiça e podar os excessos nessa retórica acusatória.

Antes de considerações mais pormenorizadas acerca do mérito da questão, em primeiro lugar, sem nenhuma intenção de promover generalizações, é forçoso reconhecer que a fonte dessa crítica nem sempre é respeitável. Muitos dos críticos mencionados são francamente reacionários, populistas travestidos de conservadores ou tradicionalistas antiliberais. Estão mais preocupados em fazer com que todos professem uma mesma religião, tenham prazer em torturar animais apenas para contrariar a militância vegetariana ou tranquem as esposas em casa em nome da “família tradicional” do que em ajudar a tornar o país realmente mais próspero. Esses tais clamam pela “guerra cultural” quando estão necessitados, eles próprios, é de sair da barbárie.

Atacando o mérito da questão, entretanto, é preciso considerar que o investimento na defesa das ideias com vistas ao arejamento cultural e à preparação de lideranças para permitir que mudanças se aprofundem na sociedade faz parte da estratégia liberal há bastante tempo. Essa história remonta pelo menos ao empresário inglês Anthony Fisher (1915-1988).

Fisher, nos anos 50, se identificava com as teses e alertas do economista austríaco Friedrich Hayek (1899-1992) e estava preocupado com os riscos à liberdade em seu país. Confidenciou, então, ao próprio Hayek seu anseio por fazer algo pela renovação da política britânica em direção ao liberalismo. Em um primeiro momento, sua pretensão era avançar na seara da política partidária. Fisher queria de imediato colocar a “mão na massa” e batalhar por reformas liberais dentro de um cargo eletivo ou militando em determinada sigla.

Que respondeu Hayek? “Não. A sociedade só mudará de rumo se houver mudança no campo das ideias. Primeiro você tem que se dirigir aos intelectuais, professores e escritores, com uma argumentação bem fundamentada. Será a influência deles sobre a sociedade que prevalecerá e os políticos seguirão atrás”.

O conselho de Hayek já então ia no sentido de influenciar as fontes de disseminação do imaginário, isto é, ocupar espaços nos canais de expressão da esfera cultural, para que as ideias liberais se fortalecessem de modo a terem efeito prático posteriormente, inclusive no campo político-partidário. A busca por conquistar espaço no universo das ideias não é outra coisa senão a tão propagandeada “guerra cultural” – ao menos em uma acepção aceitável do conceito, dado que não se poderia levar a sério interpretá-lo como a interdição física, o silenciamento dos opositores ou qualquer absurdo autoritário similar.

Tal como defini em artigo publicado em 2019“Entendida a “guerra cultural” como um conflito pelo imaginário, a luta para marcar presença na fabricação e disseminação dos códigos que aglutinam o pensar e a “imaginação moral” em uma sociedade, é claro que ela existe e deve ser travada. A expressão “guerra” precisa ser entendida, no entanto, como um convite à produção de mais iniciativas culturais e ocupações de espaços – e com maior qualidade. Não deve ser entendida literalmente, como um conflito físico, tampouco como um apelo pela censura ou pelo silenciamento dos oponentes.”

Foi exatamente o que Hayek sugeriu. “Guerra cultural” não pode significar o veto à entrada de ideólogas de gênero como Judith Butler no Brasil, conforme alguns trogloditas sustentaram em 2017, ou tentar impedir jornalistas como Miriam Leitão de palestrarem em eventos porque não gostamos do que vão dizer. Uma “guerra cultural” deve ser travada com as boas armas que temos à disposição: produzir iniciativas de teor cultural para disseminar nossas ideias, evitando que apenas os nossos adversários o façam.

Em vez de entrar para a política, Fisher fundou o Institute of Economic Affairs em 1955. As iniciativas e teses difundidas por essa instituição impactaram a carreira política de Margaret Thatcher (1925-2013), do Partido Conservador, cujo significado prático, como primeira-ministra britânica, parece desnecessário enfatizar.

A iniciativa de Anthony Fisher inspirou também, no Brasil, o empresário Donald Stewart Jr. (1931-1999) a fundar o nosso Instituto Liberal, que vem até hoje cumprindo seu papel, abrigando correntes diversas do liberalismo, desde o social liberalismo de José Guilherme Merquior (1941-1991) até o liberalismo conservador de Meira Penna (1917-2017), traduzindo entre os anos 80 e 90 diversos livros inéditos em português – e agora levando, não apenas aos brasileiros, mas também aos portugueses, a obra Introdução ao Liberalismoque tive a honra de organizar. Esse trabalho foi fundamental para dar suporte à geração liberal contemporânea, integrante do fenômeno popularmente conhecido como “nova direita”.

Isso também é lutar no campo da cultura. Hayek estava pensando nessa necessidade desde a fundação da Sociedade Mont Pèlerin em 1947 e fez sua famosa sugestão a Fisher ao mesmo tempo em que William Buckley Jr. (1925-2008) fundava a National Review como um espaço cultural de atuação do conservadorismo nos EUA. O liberalismo hayekiano pode, portanto, reivindicar uma formulação pioneira dessa imperativa área de atuação para desafiar as forças que nos afastam da prosperidade.

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