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Estudo de Oxford

Café quente e câncer: bebidas acima de 65°C podem elevar risco de tumor no esôfago

Estudo de Oxford relaciona consumo frequente de bebidas muito quentes a maior risco de câncer de esôfago.
Estudo de Oxford relaciona consumo frequente de bebidas muito quentes a maior risco de câncer de esôfago. (Foto: René Porter/Unsplash)

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Uma xícara de café ou chá recém-preparada pode parecer inofensiva, mas a temperatura da bebida merece atenção. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford, publicado em 8 de setembro no International Journal of Cancer, encontrou uma associação entre o consumo de bebidas muito quentes e um risco maior de carcinoma de células escamosas do esôfago.

A pesquisa analisou dados de 977.282 adultos do Reino Unido, acompanhados por mais de uma década. Entre os participantes, foram registrados 2.348 casos de câncer de esôfago.

O risco foi maior entre aqueles que relataram preferência por bebidas muito quentes e também entre quem consumia seis ou mais bebidas quentes por dia.

Apesar do resultado chamar atenção, os pesquisadores ressaltam que a associação não significa que tomar café ou chá quente necessariamente levará ao desenvolvimento de câncer. O principal ponto identificado pelo trabalho é a temperatura do líquido e a exposição repetida do tecido do esôfago ao calor.

Café e chá quentes podem, de fato, aumentar o risco de câncer?

Os resultados indicaram uma relação gradual entre a temperatura preferida da bebida e o risco de carcinoma de células escamosas do esôfago. Em comparação com quem preferia bebidas mornas, aqueles que gostavam de bebidas quentes apresentaram risco aproximadamente 69% maior. Para os que preferiam bebidas muito quentes, o risco foi cerca de três vezes maior.

O estudo também mostrou que a quantidade consumida importa. Depois de considerar a temperatura, pessoas que tomavam seis ou mais bebidas quentes por dia apresentaram risco 71% maior de carcinoma de células escamosas do que aquelas que consumiam menos de seis.

Por que o calor da bebida pode prejudicar o esôfago?

Para a gastroenterologista Juliana Gibram, professora de pós-graduação da Afya Educação Médica Curitiba, a explicação está principalmente na agressão térmica provocada pelo líquido.

“Bebidas muito quentes podem provocar lesão térmica repetida da mucosa do esôfago. Quando essa agressão acontece frequentemente, há inflamação e necessidade de reparação celular repetitiva”, explica.

Segundo a médica, esse processo é biologicamente plausível como um dos mecanismos que podem contribuir para alterações celulares ao longo dos anos. Isso, porém, não significa que uma queimadura ocasional vá provocar câncer.

Mais do que o tipo de bebida, é a temperatura que parece estar relacionada ao risco de câncer de esôfago, segundo estudo com quase 1 milhão de adultos no Reino Unido.Mais do que o tipo de bebida, é a temperatura que parece estar relacionada ao risco de câncer de esôfago, segundo estudo com quase 1 milhão de adultos no Reino Unido. (Foto: Gabre Cameron/Unsplash)

A própria pesquisa reforça que o tipo de bebida parece ter papel secundário nesse processo. Os resultados foram semelhantes para consumidores de chá e café, indicando que a temperatura, mais do que os componentes das bebidas, é provavelmente o fator relevante.

Estudos experimentais citados pelos pesquisadores também apontam que água muito quente pode provocar lesões no esôfago.

Assim, a relação entre café quente e câncer não deve ser interpretada como uma evidência de que o café, isoladamente, seja responsável pelo surgimento da doença. O alerta está relacionado à forma como a bebida é consumida, principalmente quando chega ao esôfago em temperaturas muito elevadas.

Qual temperatura do café ou chá pode ser perigosa?

A temperatura de 65°C é uma referência importante quando o assunto é café quente e câncer. Em 2016, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou bebidas muito quentes, acima de 65°C, como “provavelmente cancerígenas para humanos”, com base nas evidências disponíveis sobre câncer de esôfago.

Esperar alguns minutos antes de consumir café ou chá pode reduzir a exposição do esôfago a temperaturas muito elevadas, uma das medidas recomendadas por especialista.Esperar alguns minutos antes de consumir café ou chá pode reduzir a exposição do esôfago a temperaturas muito elevadas, uma das medidas recomendadas por especialista. (Foto: Julian Hochgesang/Unsplash)

Além disso, os pesquisadores não mediram diretamente a temperatura das bebidas consumidas pelos participantes. Eles perguntaram se as pessoas preferiam tomar as bebidas “mornas”, “quentes” ou “muito quentes”. A percepção do que é quente pode variar de uma pessoa para outra.

Por isso, o estudo não permite determinar com precisão qual temperatura exata estava associada a cada nível de risco.

Quanto tempo esperar antes de tomar café ou chá?

Para Juliana Gibram, o valor de 65°C deve ser encarado como um parâmetro, e não como uma fronteira absoluta.

“O limite mais utilizado pela IARC é: 65°C = ‘muito quente’. Não significa, porém, que 64°C seja comprovadamente seguro e 66°C seja perigoso. É um ponto de referência epidemiológico”, afirma.

Na prática, a recomendação é evitar beber café ou chá enquanto o líquido ainda estiver queimando a boca ou a língua. “Deixar esfriar até uma temperatura confortavelmente quente é uma medida simples e razoável. Não é necessário esperar a bebida ficar fria ou apenas morna”, orienta a gastroenterologista.

É preciso parar de tomar café ou chá?

Os dados não indicam que seja necessário abandonar o café ou o chá por causa do risco de câncer de esôfago. A principal medida sugerida pelos resultados é reduzir a temperatura de consumo e evitar exposições frequentes ao líquido excessivamente quente.

O alerta sobre café quente e câncer também precisa ser colocado em perspectiva. O estudo encontrou um aumento de risco relativo, mas isso não significa que uma pessoa que consome bebidas muito quentes tenha uma probabilidade de duas ou três em cada dez de desenvolver câncer de esôfago.

“Um aumento relativo de 2–3 vezes não significa que o risco absoluto seja de 2–3 em cada 10 pessoas”, explica Juliana. Segundo ela, se hipoteticamente o risco absoluto de determinado grupo fosse de 1%, triplicá-lo significaria aproximadamente 3%, e não 300%.

Quais são os principais fatores de risco para câncer de esôfago?

O câncer de esôfago continua sendo uma doença relativamente incomum na população geral. Além disso, existem fatores de risco mais bem estabelecidos, especialmente o tabagismo e o consumo de álcool.

Qual tipo de câncer de esôfago está relacionado às bebidas muito quentes?

O estudo identificou especificamente associação com o carcinoma de células escamosas, um dos principais tipos de câncer de esôfago. Para o adenocarcinoma, outro subtipo importante da doença, não houve associação relevante com a preferência por bebidas muito quentes.

A explicação provável para a diferença está nas características das células afetadas. O carcinoma de células escamosas geralmente se origina nas células que revestem o esôfago, que podem sofrer diretamente com a exposição repetida ao calor.

A recomendação, portanto, é simples: esperar alguns minutos antes de beber café ou chá e evitar o hábito de consumir líquidos que ainda estejam provocando sensação de queimadura. “Não necessariamente” é preciso deixar de tomar as bebidas, resume Juliana. “Minha orientação é a de mudar a temperatura.”

Para quem deseja uma referência mais objetiva, a médica afirma que também é possível usar um termômetro culinário e evitar o consumo repetido de bebidas acima de 65°C. No caso do chimarrão e do mate, a mesma cautela se aplica: deixar a água esfriar antes do consumo pode reduzir a exposição do esôfago ao calor.

Dessa forma, o alerta sobre café quente e câncer não significa abrir mão de uma das bebidas mais consumidas no dia a dia. A mudança mais simples é esperar o líquido perder parte do calor antes de levá-lo à boca; uma medida pequena que pode ajudar a reduzir uma exposição potencialmente prejudicial ao longo dos anos.

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