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Memória

Adalice de “A” a “Z”

Paraná perde sua crítica de arte mais prolífica e atuante. Dicionário inacabado tem entre seus verbetes fundamentais a própria autora, decana da cultura local

  • José Carlos Fernandes
Adalice Araújo no “apartamento museu” do Bigorrilho |
Adalice Araújo no “apartamento museu” do Bigorrilho
 
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Duas perguntas deixavam em silêncio a crítica de arte Adalice Maria de Araújo. Uma era a sua idade. A outra, quando terminaria de escrever o Dicionário das Artes Plásticas do Paraná, coleção em quatro volumes, com estimadas 2,4 mil páginas, ao qual se dedicou nas duas últimas décadas. Com sua morte, ontem, no final da manhã, vítima de uma cardiopatia, a idade da pesquisadora deixou de ser segredo: tinha 81 anos. E o dicionário – a mais completa obra do gênero já produzida no país sobre a produção visual de um único estado –, não está terminado, como se previa.

Os dois segredos de tia Dadá, apelido que lhe foi dado pelos artistas, dizem muito sobre ela. Para além da vaidade feminina – um pecado confesso nas unhas, cabelos e vestuário impecáveis – Adalice era uma mulher que fazia as próprias horas, num misto de elegância e estrondo. No final da década de 1960, ao voltar de uma longa temporada de estudos na Europa, por exemplo, realizou o que “não” se esperava dela. Desprezou aqueles dias ariscos, promoveu colóquios culturais e questionou o provincianismo de “salões de primavera” que governavam o circuito de arte curitibano. Fazia política?

Pagou a audácia com umas tantas visitas ao Dops, onde sua figura aristocrática deve ter causado impressão aos censores. Saiu-se bem da pressão, mas não voltou para casa em gatinhas. Debaixo do AI-5 e das reprovações da alta sociedade – que esperava de uma filha de ervateiros ricos que se contentasse em lecionar na Escola de Belas Artes do Paraná, a Embap – deu início ali a um projeto visionário que consumiria seus nervos e suas economias.

Nos primeiros tempos, Adalice ia a campo. Qualquer catálogo que lhe caísse às mãos dava origem a uma pasta, com o nome do artista. Visitava exposições e entrevistava o autor das obras. Vem desse acervo de formiguinha, vale lembrar, o único registro de voz do pintor italiano Guido Viaro, hoje à disposição do público no museu que leva o nome dele, no Centro de Curitiba. Na sequência, o material recolhido era trabalhado e publicado na coluna que a pesquisadora assinou de 1968 a 1995, primeiro no jornal Diário do Paraná e depois na Gazeta do Povo.

A papelada se avolumava, em toneladas espalhadas pelo apartamento. Adalice morava na arte paranaense. Com estilo. “Ela escrevia bem. Mais do que isso – não esquecia o contexto em que o artista tinha se formado, o que dava uma profundidade rara às colunas. Muitos grandes nomes foram lançados ali”, comenta a artista plástica Teca Sandrini, diretora do Museu Oscar Niemeyer, instituição para a qual a estudiosa desejava repassar o saldo de sua pesquisa. Natural. Nada lhe escapava, incluindo os grafiteiros e quadrinistas, com os quais passou a ter nos últimos anos, sem jamais dispensar uma visita à Livraria Itiban, onde podia encontrar a turma mais underground. Essa era Dadá.

Uma de suas práticas mais deliciosas era colocar numa pasta intitulada “fugiu ao tema” materiais de artistas que, com sofreguidão, concluía não terem nascido para o ofício. Discreta, nunca revelou a identidade de nenhum deles. Nem ali postou algum desafeto, que vez ou outra cultivava nas contendas das quais não fugia nem com reza. É célebre, por exemplo, seu arranca-rabo com o crítico paulistano Tadeu Chiarelli, para citar um.

Em 1995, decidiu dar por encerrado o tempo das discussões públicas, despedindo-se da coluna dominical na Gazeta do Povo. Recolhida, começou a dar forma ao Dicionário das Artes Plásticas no Paraná. O retiro durou pouco. A lista de desatinos na produção dos livros é interminável, incluindo problemas com financiamento, sabotagem industrial e dificuldade em angariar pesquisadores pacientes o bastante para um projeto que, sabia-se, só teria fim no dia em que Adalice se fosse. E não se sabia sequer sua idade.

O momento mais dramático foi a morte do único filho da pesquisadora, Marco Francesco Gianatti em 2003, aos 40 anos, de sua união com o italiano Ermínio Gianatti. Chegou-se a apostar que se entregaria. Mas em poucos meses estava a postos. Dessa vez não foi diferente. “Ela falava em sair do hospital, voltar para casa e terminar o trabalho”, comenta a sobrinha Jacinta Caron. “Era meticulosa. Sempre tinha mais um nome para acrescentar”, lembra a auxiliar de pesquisa Rute Benatto, que somou 35 anos de trabalho ao lado da pesquisadora. Tomara não tenha esquecido o seu, ASdalice, sem o qual o Paraná teria demorado a perceber personalidades como Carlos Eduardo Zimmermann e Bia Wouk, Raul Cruz e Eliane Prolik, entre outros 6 mil nomes que cultivou ao longo da vida.

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