Você conhece ou já conheceu um analfabeto? Ano passado fiz essa pergunta para uma turma de acadêmicos e a maioria respondeu que não. Mas uma coisa é certa: analfabetos existem. O número era bem maior décadas atrás, mas ainda é grande o suficiente para fazer corar nossos governantes e nossos secretários de educação. Se bem que alguns não coram por nada desse mundo...
Eu conheci e conheço muitos analfabetos. De modo geral, eles são "como nós": falam, trabalham, amam, sorriem, sofrem, dormem. Há os honestos, imensa maioria; e há os desonestos. Penso que na mesma proporção dos não-analfabetos. Boa parte da História do Brasil foi feita por analfabetos. Oscar Niemeyer desenhou coisas maravilhosas; e milhares de analfabetos transformaram seus projetos em monumentos fabulosos. Milhões de negras e de negros analfabetos produziram incalculável riqueza para o Brasil nos séculos passados e continuam produzindo neste século. Mães analfabetas sentem a dor do parto e perdem noites de sono para cuidar do filho doente. Assim como as mães que têm doutorado e artigos publicados em revistas internacionais.
Mas o fato de os analfabetos não saberem ler e escrever não tem nada a ver com uma opção, com uma "filosofia de vida", digamos assim. Eu não me lembro ter ouvido de algum analfabeto que ele se sentia feliz por essa condição. Muito pelo contrário: todos afirmam que gostariam de saber pelo menos escrever o nome. Convenhamos: saber apenas escrever o próprio nome é pouco. Contudo, é isso que muitas pessoas querem com mais urgência. O resto vem aos poucos. Caso venha.
Os analfabetos, regra geral, são muito pobres. Portanto, são vítimas de um sistema que lhes subtraiu parte da dignidade. Subtrair-lhes o direito de participar do mundo da escrita é uma maneira de impor-lhes uma morte lenta e humilhante.



