Na coluna passada (Língua subdesenvolvida) falei da pseudoteoria que culpa nossa língua pelos muitos problemas socioeconômicos do Brasil. Por meio de um raciocínio tortuoso, afirma-se a pobreza do nosso idioma e se estabelece uma relação de causa e efeito para explicar o nosso atraso. Uma vez que países como Canadá e Inglaterra são desenvolvidos, atribui-se à língua dessas nações essa realidade. Argumenta-se, ainda, que línguas como o inglês, o francês e o alemão são superiores porque nelas foram escritas algumas das mais importantes obras de literatura e filosofia do Ocidente. À nossa língua sobram poucas coisas, dado que sua natureza desnutrida não faculta a seus falantes voos tão altos.
Insisto no assunto por mais de um motivo; e um deles é que discursos desse tipo revelam uma maneira de olhar as línguas como se essas pudessem existir apartadas dos seres humanos, desvinculadas das histórias de guerras, de genocídios, de usurpações, de vilanias, de mentiras. É como se existisse, por exemplo, a língua francesa em estado puro, apenas esperando um recém-nascido para nele se instalar. Nascem franceses, morrem franceses e a língua sempre ali a cumprir seu grande destino. Mas por que não cumpre esse grande destino no Haiti? Por que o inglês não se sai tão bem em Zimbábue quanto se sai na Inglaterra e nos Estados Unidos?
Outras perguntas: a língua espanhola que chegou com os invasores das Américas do século XVI era sonora? A língua inglesa que colonizou a Índia era vibrante como um soneto de Shakespeare? A língua alemã que mandou milhões de judeus para os campos de concentração era esplêndida como a filosofia de Hegel?
Dizem que, se tivesse escrito sua obra em inglês, Machado de Assis seria um dos maiores romancistas do Ocidente. Bobagem. O problema é que o Brasil não era a Inglaterra.



