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Ilusão de ótica de Aleijadinho: desfoque o olhar e veja a face de Cristo no anjo e na coroa |
Ilusão de ótica de Aleijadinho: desfoque o olhar e veja a face de Cristo no anjo e na coroa| Foto:

Não há escola artística que defina melhor o caráter nacional que o barroco. Marcado pela permanente tensão entre a opulência das formas humanas e o recato do mundo espiritual, o estilo resume o brasileiro: extrovertido, dramático, sensual; mas também religioso e místico. A vida pública do país também é fortemente barroca: segue linhas sinuosas; não se ajusta perfeitamente à ordem e simetria do racionalismo e humanismo europeus da Renascença – que resultariam no moderno republicanismo. O barroco, por sinal, foi uma reação estética justamente ao Renascimento.

No Brasil, a escola barroca fincou raízes profundas na infância da nação, o período colonial, e desenvolveu um caminho próprio no coração do país, Minas Gerais. E ninguém representa tanto esse estilo no país quanto Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho – gênio da arte e arquitetura cuja morte completou ontem 200 anos.

Ele próprio sintetizou a mistura tipicamente nacional: era filho de um português com uma escrava. E expressou essa identidade em suas esculturas. Seus profetas, santos, querubins, madonas e Cristos têm traços bem brasileiros. Olhos puxados remetem aos índios. A pele mais escura, aos mulatos. Assim, ele encontrou beleza num povo que, dois séculos depois, ainda busca fortemente seus padrões estéticos fora de si.

A brasilidade de Aleijadinho está presente em toda a sua profusa produção, que se espalha por cidades como Ouro Preto, São João Del Rey e Mariana. Mas é em Congonhas que está sua obra-prima: o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. Lá está a via crúcis, esculpida no cedro, na qual o artista teria deixado uma mensagem política: o Cristo que carrega a cruz traz marcas no pescoço – uma possível referência ao enforcamento de Tiradentes. Também é no santuário que ficam os famosos 12 profetas de pedra-sabão. E, menos conhecido, mas igualmente genial, o surpreendente entalhe no alto da entrada da igreja. Aparentemente, trata-se de um anjo e uma coroa de louros. Ao desfocar o olhar, numa ilusão de ótica vislumbra-se o rosto de Jesus.

Palavras, porém, são insuficientes para expressar a obra de Aleijadinho. Conhecê-la tem de ser necessariamente uma experiência sensorial. Mas esse estímulo aos sentidos provoca a elevação do espírito. É a perfeita tradução do barroco.

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