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José Carlos Fernandes

Os fiéis pacifistas – uma ideia em procissão

Liderados pelo padre Marcelo Pimentel, moradores de vila da Boa Vista saem às ruas para pedir paz

  • Porjcfernandes@gazetadopovo.com.br
  • 01/12/2016 23:01
 | Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima

Em janeiro deste inominável ano de 2016, o mineiríssimo padre Marcelo Pimentel, 49 anos, foi nomeado para a Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, numa das divisas entre o Boa Vista e o Santa Cândida, em Curitiba. Gostou do novo posto de trabalho. Fez planos pastorais, conheceu pessoas, caprichou nas liturgias, mas pronto notou que uma das tarefas que mais fazia era abrir a porta da casa paroquial, não raro para ouvir a mesma ladainha: os paroquianos queriam saber o que o vigário recém-chegado poderia fazer para conter os assaltos a casas e ao comércio da região. Os relatos eram de fazer bangue-bangue parecer desenho animado. O mais curioso – em vez de irem à chefatura da polícia, iam pedir socorro na igreja. Mau sinal.

Marcelo não é um noviço em questões de violência. Antes de chegar ao Boa Vista, atuou no Xaxim e na Vila das Torres. Na vila, em especial, tomou contato com uma forma econômica, elegante e milenar de manifestação – as procissões católicas, cujas virtudes se prestam à piedade, mas também ao protesto. Sempre que o calo aperta, os moradores recorrem às infernais queimas de pneus, botam a boca no trombone, buzinam na orelha dos meios de comunicação, mas, sobretudo, chamam o povo para “caminhadas”. É um codinome de procissão, usado para evitar questiúnculas com outras confissões. Funciona.

O padre chegou a recorrer à consultoria político-religiosa-popular do comerciante José Cordeiro, líder comunitário na Torres, conhecido por seu know-how na promoção de atos pacifistas na Faixa de Gaza curitibana. Cordeiro cruzou a cidade para atendê-lo, a bordo de sua heroica Parati 91/92 branca, sem usar GPS, o que faz quem conhece seu senso de direção garantir que se trata de um milagre ele ter chegado lá.

Há uma semana, o resultado pôde ser visto na longa e curvilínea Rua Fernando de Noronha, a Champs-Élysées daquelas bandas. Na noite de sábado passado, dia 26, debaixo da escolta da Guarda Municipal, mais de 200 fiéis saíram às ruas em silêncio, rompido apenas quando alguma criança, a mando de um adulto, gritava “o que é ceis tão fazendo?” “Um pedido de paz”, era a resposta. A contar pelos que se debruçaram nas janelas para ver do que se tratava, a audiência do Jornal Nacional foi abalada, ainda que não se possa dizer o mesmo do Facebook. A procissão bombou.

Quem participou de uma procissão sabe: uma vez na pista, não tem chuva, nem sol, nem fome, nem nada

A área sob custódia do padre Marcelo Pimentel soma 8 mil famílias – algo próximo de 32 mil fiéis. É conhecida como Vila Fernando de Noronha. Outros preferem chamá-la de “Abaeté”, nome do conjunto de prédios, casas e lotes populares que em 1982 levou 984 famílias de mudança para lá. Para outra parcela, cada palmo daquele chão permanece um rescaldo das antigas colônias polonesas que ocuparam as margens da Rua Theodoro Makiolka, com folga uma das mais bonitas da cidade. Os sobrenomes de parte dos moradores não deixam mentir.

Do ponto de vista dos especuladores imobiliários, o que a Cúria chama de paróquia se trata de um vasto campo de possibilidades financeiras: ainda há por lá grandes terrenos para a construção de condomínios fechados. E eles brotam do chão a cada ano, antipáticos, com seus muros presunçosos, câmeras apontadas feito canhões e grau zero de interação de vizinhança. Para desdém, a área também está no radar dos movimentos de luta por habitação. Apenas no entorno da matriz há três ocupações irregulares. Uma delas ganhou o sugestivo apelido de Boca do Leão, nome que padre Marcelo sugeriu mudar para algo menos assustador para taxistas, carteiros e entregadores de pizza – Vila da Esperança. Nas fichas da Cohab, a vilinha clandestina consta como teto de 21 famílias, todas com ordem de despejo decretada. Para os inquilinos do Boa Vista, essa conta é uma lorota, pois lhes parece bem mais superlativa.

Em miúdos, o mapa da região é tenso, mas tão colorido quanto um pote de jujubas, o que torna tudo mais interessante para o padre – um entusiasta às voltas com sua aldeia global. “Alguém pode me dizer o que é uma periferia de cidade grande? É tudo ao mesmo tempo”, declara, diante de um condomínio de luxo, que tem logo perto um beco estreito, mas que faz esquina com a casa da família Spisla, um desses endereços que fazem crer que nem na Polônia deve existir um recanto tão eslavo quanto aquele.

Padre Marcelo – que é negro e nascido na tradicional cidade de Sabará – se encarregou de sortir ainda mais aquele recôncavo da Boa Vista. Deu-lhe ares barrocos, como se viu na abertura de sua temporada de procissões. Veio paramentado, com as mãos ao alto – só que para carregar uma imagem da Virgem de Aparecida. Músicas do hinário da padroeira saíram espontaneamente dos gogós afinados – “Viva a Mãe de Deus e nossa”. À frente do religioso, um séquito de coroinhas, inclusive meninas, mas quem roubava a cena era mesmo o garoto de cabelos descoloridos.

Para que ninguém se dispersasse pela rua, de modo a deixar a procissão sem volume, seguiram todos em fila dupla, segurando uma corda branca de 70 metros. Sabe a procissão do Círio de Nazaré, em Belém? Pois ficou parecido. Havia gente com velas acesas. Tochas. Quase todos trajavam branco, efeito plástico acentuado a cada vez que o cordão humano mudava de lado na avenida, dando movimento de ondas à procissão.

Houve obstáculos, claro. Foi preciso desviar do caminhão do lixo, de um motoqueiro ensandecido, fazer ouvidos surdos para o som alto que saía de algumas casas. “Eu sou que nem sabiá...” Mas tinha gente ligada em coisa mais, digamos, edificante, também no último volume: a morte de Fidel Castro. O som do rádio vazou na procissão. Suspeito que o último dos revolucionários ganhou uma prece furtiva. No mais, seguiu tudo na mais santa moralidade. A turma passou silente pelo Hot Dog da Ju e ninguém parou. Quem participou de uma procissão sabe: uma vez na pista, não tem chuva, nem sol, nem fome, nem nada. É dos deuses. Desconfio que somos seres processionais em potencial. “A nossa proteção está no nome do Senhor”... Todo mundo responde, e volta ao silêncio.

O cortejo seguiu seu destino até a Capela Nossa Senhora de Montes Claros (a Virgem Negra de Czestochowa), rainha da Polônia, cuja tradição remonta ao século 4.º. Nesse tempo todo, diz-se, a devoção ajudou a livrar as terras polacas dos tártaros, sarracenos bárbaros, russos, alemães. A expectativa agora é que ponha para correr os encapuzados que deram de apavorar os moradores daqueles rincões da Boa Vista. E a gente que achava que os bárbaros eram barra pesada.

Em tempo. Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública indicam que o número de roubos – em especial a residências e de automóveis – cresceu 29% no Paraná e 14% em Curitiba. É fenômeno nacional – diz-se, culpa da crise. No mais, de troco, não falta gente enfiada dentro de casa, às voltas com os efeitos colaterais provocados pelo medo. Péssimo negócio. Com 2 mil anos de experiência no ramo – desde que emprestou e reinventou a técnica de procissão praticada por gregos e romanos –, o catolicismo bem que podia usar de sua expertise e mostrar quem é o dono da rua. Fica a sugestão, ao papa Francisco.

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