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Marleth Silva

Amigos passageiros, mas ainda assim amigos

  • Pormarleth@gazetadopovo.com.br
  • 13/09/2013 21:03
 | Ilustração: Felipe Lima
| Foto: Ilustração: Felipe Lima

Não sei o leitor, mas eu já tive amizades que duraram duas, três horas e nem por isso foram menos sinceras, menos interessantes. Aconteceu com companheiros de viagens e com pessoas que aguardavam na mesma fila que eu.

Uma dessas experiências – veja só! – foi anos atrás, quando a longa espera para refazer a carteira de habilitação no Detran me aproximou de três mulheres. A conversa com elas fez com que o tempo que passei em pé, de balcão em balcão, de funcionário em funcionário, passasse rápido. Feito nada desprezível. Como velhas amigas que combinaram ir juntas enfrentar os trâmites burocráticos, rimos juntas não me lembro de quê. Rir junto não é coisa de amigos? Liberadas da papelada e dos testes, cada uma seguiu seu caminho. Fôssemos meninas, teríamos nos tornado "amigas no Facebook". Adultas, aceitamos a transitoriedade do encontro, sem drama.

Nelson Rodrigues falou desses amigos passageiros em uma entrevista a Clarice Lispector. "O amigo possível e certo é o desconhecido com quem cruzamos por um instante e nunca mais. A esse podemos amar e por esse podemos ser amados. O trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência." Ele estava amargurado, bem se vê. Logo adiante se queixou, em um tom quase infantil, de um amigo de longa data: "Otto [Lara Resende] nunca me deu um telefonema". Aos 56 anos, aquele homem de ar austero e textos fortes queixava-se como um adolescente. "Estou dizendo isso com a maior, a mais honrada, a mais inconsolável amargura." O amigo não lhe dispensava a atenção esperada.

O próprio Otto se queixava muito de outros amigos, especialmente de Fernando Sabino, que não lhe escrevia durante os anos em que ele morou em Bruxelas. Com poucas ou muitas cartas, os mineiros formavam uma panelinha e o pernambucano Nelson se sentia excluído.

No "abismo da convivência" que destrói amizades, Nelson Rodrigues incluía os atritos que surgem em conversas e também as ausências, como os telefonemas nunca feitos por Otto. Quando a amizade não é passageira, ao contrário da minha com as mulheres da fila do Detran, a falta de telefonemas, de visitas, de cafés, de jantares, de sessões de cinema, de peladas ou partidas de tênis machuca. Os amigos devem fazer essas coisas; se não fazem, a amizade se ressente.

Carrego culpa por essas desatenções que cometo com esse e aquele. Espanto-me com a tranquilidade de alguns, que não telefonam, não sentam à mesa, não escrevem e nem por isso se sentem menos amigos ou amigáveis. Para eles é natural ser assim, não tem nada a ver com ser mais ou menos cordial. Não são carentes dessas atenções e nem se sentem obrigados a oferecê-las. Bom para eles.

A vida é longa (ou a vida é curta, o que dá na mesma para o meu argumento aqui) e por isso a maioria de nós valoriza os relacionamentos longos, os que não acabam. O que acaba é ruim, é menor? Não, não e não – opino eu. O leitor pode pensar diferente, está no seu direito. Que desperdício seria menosprezar o amigo passageiro a quem "podemos amar e por esse podemos ser amados". Amor não dá em árvore.

As cartas de Otto Lara Resende podem ser lidas no livro O Rio é Tão Longe (Companhia das Letras). A entrevista que Clarice Lispector fez com Nelson Rodrigues está em Clarice na Cabeceira – Jornalismo (Rocco). Recomendo ambos.

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