| Felipe Lima
| Foto: Felipe Lima

Eu vi a cena esta semana: o juiz fez um discurso pra mãe do garoto sobre a responsabilidade que é dela, sobre cuidar do filho, não desistir dele e isso e aquilo. O menino foi pego dormindo na rua. Não estava fazendo nada errado, mas andava com gente barra pesada. Conheço essa história, o próximo passo era o crime. Aí chamam os responsáveis e vem só a mãe. Onde andam os homens nessas horas, meu Jesus? Vem a mãe e diz que não sabe mais o que fazer com o menino. Minha mãe também não sabia o que fazer comigo. Eu era terrível. Sabe o que ela fazia? Biscoitos, porque eu gostava. Dava trabalho e ela me obrigava a sovar a massa, a enrolar em forma de lacinho. Primeiro a força bruta, “use o muque aí, menino!”. Depois a delicadeza pra lidar com aqueles pedacinhos de massa. Lacinhos! Isso me acalmava. Tenho vontade de falar para essas mães que dizem que não sabem mais o que fazer com os filhos: façam biscoito.

Mas eu estava contando a cena que eu vi. Depois do discurso do juiz, a mãe e o garoto foram embora. Saí na mesma hora pra fumar meu cigarrinho. Os dois zanzaram perdidos pelos corredores. Quando acharam a porta da saída, passaram por mim. Atravessaram o portão e ela pegou ele pelo braço e disse alguma coisa. Frase curta. Aí ela foi para a direita e ele para a esquerda. Sem abraço, sem beijo. Os dois não deveriam ir juntos pra casa? A fumaça do cigarro ficou enjoativa e tive vontade de vomitar. Mas foi a cena que eu vi, sabem? Eu devia sempre tirar férias em dezembro para garantir um pouco de ânimo para o Natal.

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A gente aprende muito sobre a vida e sobre o ser humano quando trabalha em lugar onde rola muita desgraça

Escuto cada coisa, vocês não imaginam. Já trabalhei em delegacia e era pior ainda. Diante do juiz, o pessoal baixa a bola. Trabalhei com uma juíza tão durona, tão séria, que na frente dela ninguém erguia os olhos. Nem os advogados. Juro!

Em compensação tem uns sem-noção. Eu fico sério lá, escrevendo tudo e tentando nem olhar na direção deles para não transparecer o que estou pensando. Essa semana teve a avó que veio devolver a neta. Um mês atrás fez um escândalo porque a juíza falou em encaminhar a garotinha pra adoção. Ela vivia em um abrigo há uma eternidade. A coroa ficou toda ofendida. Puro orgulho. Um mês com a menininha e apareceu de novo, “pra desabafar”. A menininha ficou. Se vai ser encaminhada pra adoção, não sei. Depende do juiz. Tive vontade de matar a velha, juro!

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A última encrenca da semana foi uma mulher com jeito de rica, bem vestida. O filho adolescente aprontou, não posso contar o que foi. Um bobão. Aí ela olhou todos nós de cima, com raiva nos olhos. Acho que é o jeito dela vencer a humilhação, a vergonha. Tenta dizer que é superior, que nós é que somos escória, não o filhinho bobão dela. Será que vai dar um cascudo nele quando chegar em casa? Será que vai deixar sem presente de Natal? Será que... nada, que não vai fazer nada?

A gente aprende muito sobre a vida e sobre o ser humano quando trabalha em lugar onde rola muita desgraça, como aqui.

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Peço desculpas aos amigos do Facebook se estou me abrindo muito esta semana. Essas luzinhas de Natal, esse jingle-bell e noite-feliz, o menino no presépio, tudo isso mexe comigo.

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