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O susto não serve apenas para curar soluço. Também serve para abrir nossos olhos para algumas coisas. Criança leva muito susto e aprende com eles a arte da autopreservação. Fala uma gracinha qualquer e, ao invés das risadas que esperava, vê todos os adultos em volta com uma cara azeda. Talvez a tirem da sala arrastada pela orelha. Pronto, levou um susto, pode nem entender o que disse de errado, mas provavelmente não repete mais a gracinha.

Adultos, aprendemos com sustos no trânsito, no trabalho, na conta bancária. Depois de pagar três multas de trânsito, meu médico diz que passou a (1) escolher muito bem onde vai estacionar o carro; (2) não ultrapassar os 60 km/h na cidade nem que vá apagar um incêndio; (3) fazer check-list dos filhos pequenos para confirmar que está todo mundo no banco de trás e com cinto afivelado. Nunca mais foi multado.

Anos atrás, fui trabalhar em um novo setor de uma grande empresa. Improvisaram uma sala para nós com mesas velhas. A minha dava uma visão quase escatológica de um rio sujo e fedido. Mas a empresa reformou a sala e trocou todos os móveis. Os novos eram moderníssimos, sofisticados. No dia da mudança, depois de me instalar na nova mesa, sentada na nova cadeira e diante do novo computador, achei tudo tão lindo que pensei: "Quero trabalhar aqui para sempre". Uma semana depois, fomos comunicados de que a empresa havia feito uma parceria com a concorrente e que passaria por uma fusão. Resultado: um mês depois, deixamos aquelas instalações reluzentes e fomos trabalhar em outro prédio, em uma sala improvisada, com móveis velhos. Adeus lindo ambiente de trabalho. Adeus ilusão de que eu poderia (ou queria) ficar "para sempre" naquele emprego.

Tendemos a, inconscientemente, ir testando os limites em um processo de acomodação e ajuste que não acabaria nunca se não viessem os sustos. O susto que o exame do colesterol nos deu; o susto que a morte de um amigo nos pregou; o susto que a demissão do emprego provocou; o susto que a partida do(a) companheiro(a) causou. Aí, o que era um movimento inconsciente tem que ser pensado, analisado. O susto serviu para alguma coisa.

No nosso esforço permanente de dar sentido às coisas e de nos sentirmos parte de um projeto perfeito, damos explicações esotéricas para a ocorrência de alguns sustos. Eles podem ser uma conspiração do Universo para nos ensinar algo ou a mão abençoada do nosso anjo da guarda nos cutucando agora para evitar um problema maior depois – cada um encontra uma explicação que se encaixe em suas crenças.

O que não dá é para ignorar o susto, negar-se a ler o que ele explicita. Olha só o que aconteceu quando tentaram nos convencer de que a crise econômica era só um susto que obrigaria os americanos a serem mais severos com seu mercado financeiro! Para funcionar, a reação ao susto tem que ser imediata. Se não é – como não foi no caso da crise – as desventuras vêm em série, como as crianças sabem muito bem.

Marleth Silva é jornalista.

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