Hoje, Antônio faz 2 anos de idade. Este é um mês natalício aqui em casa. Logo depois, a Ju completa... Bem, é melhor não revelar a idade dela. Três dias depois de seu aniversário, eu chego à espantosa idade de 44 anos. Explico. Nunca pensei que viveria tanto. E eis que o escriba ainda se apresenta por aí com indiscretas espinhas na cara. Pois passou faz muito tempo a adolescência e meu organismo, talvez para me negar seriedade, permanece com estas erupções próprias de uma época de muitos hormônios.

Antônio poderia ser meu neto. Mas, graças às espinhas, ao cabelo que só agora vai pintando de branco, e às roupas mais jovens, passo por pai sem maiores constrangimentos. Por enquanto. Em breve, estarei de cabeleira branca na reunião da escola em meio a outros pais que poderiam ser meus filhos. Mas não sofrerei por antecipação.

Não fizemos ainda festa de aniversário para ele. Não terá nem mesmo um bolinho básico hoje. Estas comemorações de primeiros anos de vida são mais para os pais, e sempre nos opusemos a elas. Até pelo fato de que tenho verdadeira aversão a festas. Passará em branco a data.

Ele ainda não forma frases. Diz coisas avulsas, um pouco por não conviver com outras crianças, um pouco pela própria índole. Herdou minha timidez, e se esconde sempre que chega gente em casa. Mas, alguns minutos depois, já está cheio de intimidades, igualzinho ao pai.

Como as meninas viajaram na semana passada, ficamos apenas nós dois. O primeiro problema foi aprender a preparar a mamadeira dele. Sou incompetente para a vida prática. Então, anotei a receita da mamadeira num caderno, junto com horários em que devia dar leite e remedinhos a ele. E mais outras providências. Ele colaborou e dormiu cedo todas as noites, mas eu já estava tão exausto, depois de um dia de trabalho (quando ele fica com a babá) e um começo de noite com várias obrigações, que não conseguia fazer mais nada, nem mesmo dormir.

Ainda antes de colocá-lo no berço, vinha abrir meus e-mails. Ele sentava na mesa, fuçava em tudo, desorganizando coisas. Depois retirava as folhas da impressora, sentava no chão e quebrava as pontas de meus lápis na tentativa de desenhar. Mal terminava esta tarefa, já corria para minha antiga máquina de escrever, que fica em um balcão, e empastelava as teclas. Bem, não vou descrever todas as coisas que ele aprontava. Entre uma e outra, eu corria para pegá-lo subindo na poltrona, mexendo no aquecedor, tentando desconectar o fio do computador etc.

Foram três noites assim, às quais sobrevivemos sem nenhum arranhão. Ele dormia no berço dele, mas de madrugada ia para minha cama. Perto das quatro horas, Antônio acordava e ficávamos vendo tevê ou brincando de carrinho. Numa das matinadas, ele me alertou:

– O-ou, papaiê. Nenê xixi.

A fralda não vencera e ele estava molhado. Consegui trocá-lo sem recorrer às anotações de todos os passos para este procedimento. Para complicar, queimou a lâmpada da cozinha na primeira noite, deixando-nos desorientados. Não sei trocar lâmpadas, por isso procurei uma vela que nos salvasse da escuridão. Claro que não achei nenhuma. Não sei onde ficam as coisas aqui em casa, e sempre que preciso de algo peço socorro para a Ju.

O problema é que agora ela estava em São Paulo. Fui obrigado a me mover no escuro. Aqueci demais o leite uma vez. Na outra, derrubei o conteúdo na roupa dele. E tudo era motivo de risos entre nós. Quando as meninas chegaram de viagem, eu tinha os olhos fundos e alegres. Dormi menos de 3 horas por noite, e mesmo assim não adiantei nenhum dos muitos serviços.

Ao voltar do trabalho para o almoço, a Ju tinha comprado as duas lâmpadas fluorescentes. E havia uma escada no centro da cozinha. Ligara para o eletricista que faz estes serviços para nós, mas não o encontrara. Ela tinha conseguido tirar as lâmpadas, mas o encaixe é meio complicado, por isso esperara por mim.

Todos riram deste comentário. Como o atrapalhado-mor vai conseguir fazer uma coisa tão complexa como trocar as lâmpadas da cozinha? O almoço estava pronto, servido na sala. Mas todos se reuniram naquela manjedoura para que meu constrangimento fosse público.

Subi a escada temendo uma queda. Passaram-me a primeira lâmpada. Lutei alguns minutos com o engate, recebendo várias sugestões. Tem que empurrar. Não, vi da outra vez o eletricista girando o tubo. Perguntei se não havia um manual para troca de lâmpadas. Infelizmente, não havia. Esgotando todas as possibilidades, e sem cair, apesar de dois estremecimentos da escada, encaixei uma das pontas da lâmpada de um metro e meio. Em alguns minutos, o serviço estava feito e ainda coloquei as capas. Recebi os parabéns da família. Num discurso do alto da escada, disse que depois de ter sobrevivido na selva com o Antônio durante três noites, eu me sentia preparado para tudo.

– Mãe, o pai tá se achando – zombou minha filha.

Assim que pude, logo depois do almoço, corri para a biblioteca, lugar seguro onde não existem tarefas domésticas, e me perdi em uma de minhas atividades.

Hoje, ao comemorar o segundo ano de vida de Antônio, não acenderemos as tradicionais velinhas, porque não haverá nem mesmo um bolo, mas assim que levantar ligarei as duas lâmpadas que orgulhosamente foram trocadas por seu pai, filho. Que elas iluminem a sua vida.

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